[capítulo T24 – Ensino]
Quando se despediam, Alberto disse a Margarida que, se ela ainda estava interessada na forma como S. Tomás tratava a sua função de ensino, que discutira na lição inaugural, ele podia apresentar-lhe um dos texto dele onde era melhor tratada a função de professor. Os cinco amigos mostraram-se interessados e combinaram ir ao gabinete do professor no fim das aulas.
Sexta-feira, 1 de Março, 16h00
Nessa tarde, quando todos se reuniram no seu gabinete, o professor Alberto explicou aos seus cinco amigos que, desde o início da sua carreira docente, quando começara a dar aulas, tinha usado como inspiração um texto de S. Tomás que explicava muito bem a função de professor.
«O texto de que vos falo é uma das “Questões Disputadas sobre a Verdade”, a questão 11, precisamente sobre “o professor” ou “o mestre”. É um texto muito longo, mas vou referir-vos e comentar apenas um pequeno trecho do primeiro artigo. Diz assim:» |
«Tal como há duas formas de uma pessoa se curar da doença, pela acção da natureza ou graças à natureza ajudada pela medicina, também há duas maneiras de adquirir a ciência. Uma é quando a razão natural chega por si própria ao conhecimento do que ignorava, o que se chama invenção. A outra é quando alguém externo traz o seu suporte à razão natural, e chama-se a isso ensino... |
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«Logo estas primeiras frases têm um grande ensinamento. Os professores não fazem a sabedoria nos alunos. Eles apenas ajudam a natureza. Os alunos descobrem por si. O ensino é outra via de acesso ao conhecimento, paralelo da invenção. No caso desta “invenção assistida” que é o ensino, os professores ajudam esse descoberta. Mas aprender é sempre uma descoberta individual
«Este paralelo de S. Tomás é muito rico. Também no tratamento, não é o médico ou o medicamento que actuam, mas a reacção do corpo a esse curativo ou medicamento que gera a cura. Isto explica a impotência que tantas vezes sentimos perante certos estudantes ou colegas, semelhante à do médico diante certos doentes incuráveis. Se o aluno não quer ou não consegue, por mais que o professor faça, não há solução.
«Nós professores, tal como vocês alunos, temos frequentemente a ideia ao contrário. Nós achamos que o nosso ensino é que gera o conhecimento nos jovens e vocês esperam de nós que os façamos saber. Isso, como vêem, não é verdade.
«Depois S. Tomás continua:» |
«Acrescento que em toda a produção, seja ela natural ou assistida pela arte, esta última opera da mesma maneira e pelos mesmos modos que a própria natureza. A natureza dá saúde ao que está doente com frio, aquecendo-o. O médico faz o mesmo. É por isso que se diz que «a arte imita a natureza» (Aristóteles Phys. II,2, 194, a.21). Ora passa-se o mesmo na aquisição da ciência. O que ensina conduz os outros para o conhecimento procedendo como aquele que se conduz a si mesmo, pela via da invenção, até à ciência do que ignora... |
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«Este ponto aqui avança mais um pouco e mostra como a “razão natural” é ainda mais determinante. Não só é ela que actua em ambas as formas de aprendizagem: a invenção e o ensino (na segunda apoiada pelo mestre), mas mais do que isso. A forma como o mestre deve operar para ensinar é seguindo o mesmo método da invenção.
«Isto é muito útil para os professores conceberem a maneira como explicar um tema aos nossos alunos. Nós devemos seguir aquela via que seguiria quem descobrisse, por si mesmo, esse mesmo conhecimento.
«Mas qual é essa forma? Como funciona a nossa mente para chegar à invenção?» |
«Ora afim de chegar pela via da invenção ao conhecimento, a razão progride aplicando princípios comuns, evidentes em si mesmos, a coisa determinadas. Assim passa daí a conclusões particulares, e depois destas a outras. Pode dizer-se então que um homem ensina um outro quando expõe a outro, por meio de sinais, aquele processo que a sua própria razão natural seguiu. Assim o discípulo chega ao conhecimento do que ignorava graças à ajuda do que lhe é exposto, que lhe serve de certo modo de instrumento... |
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«Aqui estão, pois, várias sugestões importantes, que nós usamos nas aulas e que as teorias modernas de educação têm elaborado, mas que estão explícitas já há 750 anos. O que os nossos estudiosos de educação têm escrito nos seus tratados e ensinado nas suas ”sessões de formação”, está dito de forma mais clara e directa nesta questão que foi disputada em Paris no século XIII.
«Assim S. Tomás chega mesmos a uma definição de ensino:» |
«Como se diz que o médico é causa da saúde no doente pela acção da natureza, diz-se que o homem é causa da ciência de um outro na medida em que ela é engendrada neste pela actividade natural da sua própria razão. Eis o que é ensinar! É neste sentido que se diz que um homem ensina um outro, ou que é o seu mestre. É neste sentido que o Filósofo escreve no primeiro livro dos Segundos Analíticos: “a demonstração é um silogismo que faz saber”... |
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«Vocês já sabem o que é um silogismo, o instrumento-base da lógica de Aristóteles, porque o padre João já vos falou disso. S. Tomás, além de considerar esse o método elementar do raciocínio na lógica, também o vê como a forma básica de ensino e argumentação.
«Mas este método chega a resultados diferentes, conforme o tipo de conhecimento que está em causa. Assim, S. Tomás distingue a certeza da ciência daquilo que é opinião ou fé.
O texto continua:» |
«Por outro lado, se alguém apresenta a outro proposições que não estão ligadas a princípios evidentes por si mesmos, ou quando não é manifesto que o estejam, ele não cria ciência mas antes a opinião ou a fé.
«Isto também pode ser provocado de outra maneira graças aos princípios inatos. Com efeito, é a partir de princípios evidentes em si mesmos que cada um considera como certo aquilo que deles sai de maneira necessária. Aquilo que lhes é contrário, é totalmente rejeitado. Quanto ao resto, pode-se conceder ou não o assentimento... |
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«Assim, S. Tomás inclui aqui uma distinção clara entre os vários tipos de conhecimento. Este aspecto é essencial, e muitas vezes esquecido. Muitos professores e ainda mais alunos consideram que aquilo que se ensina nas aulas é uma verdade indiscutível, que tem de ser decorada e papagueada. Mas é essencial distinguir o caso em que a aula se desenrola entre certezas seguras, deduzidas claramente a partir de princípios sólidos, daquilo que são conjecturas, convicções ou opiniões.
«Notem que esta distinção não pretende menosprezar o segundo tipo de afirmações. Hoje há muito a mania de pensar que só a ciência demonstrada é que é um conhecimento válido, mas isso é uma tolice. Algumas das coisas mais importantes da nossa vida nós não o sabemos de forma cientificamente segura. Por exemplo, a identidade dos nossos pais, a nossa preferência por batatas fritas, a amizade que sentimos por certas pessoas e não outras, a fé em Deus. Se exigíssemos um teorema demonstrado em cada momento e para cada decisão, nunca faríamos nada na vida.
«Uma opinião pode ser tão ou mais digna que uma certeza provada. Mas nunca deve ser apresentada como se fosse certa e segura. Pede-se aos professores que indiquem o diferente estatuto das suas várias afirmações, e aos estudantes que entendam essas distinções.
«A conclusão de S. Tomás é muito interessante, e abre a função de professor a uma elevação muito maior.» |
«Quanto à luz da razão, graças à qual os princípios nos são conhecidos, ela é colocada em nós por Deus, de forma semelhante como em nós coloca a verdade inata.
«É por isso que, como o ensino humano não pode ser eficaz senão em virtude desta luz, que é claro que só Deus ensina interiormente, como a natureza é que dá a saúde pelo interior e é o agente principal da cura. No entanto podemos dizer que o homem cura e ensina, no sentido que dissemos acima.» (De Veritate 11, 1) |
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«Este é o tema da célebre lição inaugural de S. Tomás. Os professores são como os montes, que recebem a água da chuva e a distribuem às planícies em torrentes de sabedoria. Mas a origem dessa sabedoria é o Céu. Todo o conhecimento, em última análise, vem de Deus, origem de tudo. Esquecer isto é a causa de muitos dos erros de hoje.
«Eu gosto muito deste texto, e costumo lê-lo para mim no início de cada ano lectivo, para me inspirar a aturar turmas difíceis e insubordinadas. Como vocês...»
Houve um sorriso em todos e o professor continuou, «Mas há muitos outros textos sobre o ensino que merecem ser lidos, porque esclarecem a forma como ensinava esse grande professor.
«Por exemplo, na questão 117 da Primeira parte da Suma, S. Tomás trata o mesmo problema da questão disputada: “Será que um homem pode ensinar um outro?”. Aí, ele repete e desenvolve alguns dos pontos antes discutidos, e junta alguns conselhos directos |
«O conhecimento que está no mestre é o mesmo que está no discípulo no que toca à coisa conhecida, pois é a mesma verdade objectiva que é conhecida pelos dois (...) O mestre dirige o discípulo de coisas conhecidas ao conhecimento do desconhecido de uma forma dupla. Primeiro, propondo-lhe certas ajudas ou meios de instrução, que o seu intelecto pode usar para a aquisição da ciência. Por exemplo, ele pode pô-lo diante de proposições menos universais, mas que o discípulo consegue julgar a partir do conhecimento anterior; ou pode propor-lhe certos exemplos sensíveis, seja por forma de semelhança, oposição, ou coisa do género, pelo qual o intelecto do aprendiz é dirigido ao conhecimento da verdade anteriormente desconhecida. Em segundo lugar, fortalecendo o intelecto do aprendiz, não por um poder activo como de uma natureza superior, como explicámos atrás acerca da iluminação angélica, porque todos os intelectos humanos são do mesmo grau na ordem natural, mas na medida em que propõe ao discípulo a ordem dos princípios às conclusões, devido ele não ter suficiente poder de junção para conseguir tirar as conclusões dos princípios. Por isso o Filósofo diz (Poster. i, 2) que “a demonstração é um silogismo que faz saber”. Desta forma um demonstrador faz com que o seu ouvinte saiba.» (ST I 117, 1)
«Um professor só traz ajuda externa, como o médico que cura. Mas tal como é a natureza interior que é a causa principal da cura, assim também a luz interior do intelecto é a causa principal do conhecimento. Mas ambas vêm de Deus» (ST I 117, 1, 1)
«O mestre não causa a luz inteligível no discípulo nem causa as espécies inteligíveis directamente. Mas ele move o seu discípulo pelo ensino, de forma que este, pelo poder do seu intelecto, forma conceitos inteligíveis, cujos sinais lhe são propostos de fora» (ST I 117, 1, 3) |
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«Vê-se que a base é a mesma e algumas frases são repetidas, mas há vátrios pormenores novos interessantes, como as duas formas de conduzir o aluno. Um pouco mais adiante, noutro enquadramento, explica melhor as formas de obtenção do conhecimento que, nesta classificação, são quatro: oração, audição, leitura e meditação.» |
«O homem atinge o conhecimento da verdade de duas formas. Primeiro, por meio de coisas que ele recebe de outro. Para este meio, no que toca às coisas que ele recebe de Deus, ele precisa de oração (oratio), de acordo com “Eu pedi [a Deus] e o espírito da sabedoria veio até mim” (Sb 7,7). Quanto à verdade que ele recebe do homem, precisa de audição (auditus), no que toca à palavra falada, e leitura (lectio) no que recebe pela escrita. Em segundo lugar, ele precisa de se aplicar ao estudo pessoal, e isso requer meditação (meditatio)» (ST II-II 180 3, 4) |
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«Noutros locais da sua obra ele chega mesmo a dar conselhos concretos a quem ensina, certamente nascidos das suas aulas que, como sabem, era muito concorridas e famosas:» |
«Quando se instrui alguém numa ciência começa-se por lhe dar uma introdução geral» (ST II-II 122, 3, 4)
«O ensino implica o perfeito domínio do saber naquele que ensina» (De Veritate 11, 2)
«O sábio ou erudito é qualificado para ensinar na medida em que é apto a traduzir o conceito interior, a fim de levar outro à inteligência da verdade» (ST II-II 181, 3, 2) |
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«Existe um outro tema semelhante, e ainda mais interessante, que vale a pena referir neste momento, que é a forma como S. Tomás trata a pregação. Pregar sermões é uma actividade semelhante à do ensino do professor, e que ocupava muito tempo da vida do santo. Não se deve esquecer que, como dominicano, ele pertencia à “ordem dos pregadores”. Não se deve esquecer também que “predicare” era a terceira função do professor de Teologia.
«Pregação é uma função diferente do ensino. Mas ela pode facilmente ser referida neste enquadramento, porque inclui aspectos semelhantes. Aliás, como verão, S. Tomás considera o ensino como uma das partes da pregação. Além disso, muito do que se passa nas nossas aulas pode ser considerado “pregação” no sentido que S. Tomás lhe dá. Os professores não só divulgam conhecimento, mas também exprimem valores, incitam atitudes, fornecem critérios. Ou seja, o professor não apenas ensina mas também educa. Ora S. Tomás refere três tipos de finalidades nessa actividade.» |
«O conhecimento que um homem recebe de Deus não pode ser orientado para benefício dos outros, excepto por meio da palavra. E como o Espírito Santo não falta em nada do que pertence à utilidade da Igreja, Ele dá aos membros da Igreja a linguagem. Ele permite não só que um homem seja entendido por pessoas diferentes, o que pertence ao “dom das línguas”, mas também que fale com efeitos, o que pertence ao “dom da palavra”
«Isto acontece de três formas. Primeiro, em ordem a instruir o intelecto, e este é o caso quando se fala para “ensinar” (doceat). Segundo, em ordem a mover as afeições, para que se ouça com aceitação a palavra de Deus. Este é o caso em que se fala para “agradar” (delectet) aos ouvintes, não com vista ao seu próprio favor, mas para os orientar a ouvir a palavra de Deus. Terceiro, para que se ame o que as palavras significam, e deseje cumpri-lo, e este é o caso em que se fala para “comover” (flectat) o seu auditório. Para efectuar isto o Espírito Santo faz uso da língua humana como de um instrumento. Mas é Ele que aperfeiçoa a obra por dentro. Por isso diz S. Gregório numa homilia de Pentecostes (Hom. xxx in Ev.). “A não ser que o Espírito Santo encha os corações dos auditores, em vão a voz do professo ressoa nos ouvidos do corpo”» (ST II-II 177, 1) |
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«De facto, nas aulas um professor usa estes três métodos diferentes quando comunica valores aos seus educandos:
- fala para ensinar, ou seja para conhecer certos valores
- fala para agradar, para atrair, e incentivar a ouvir esses valores
- fala para comover, para amar e cumprir esses valores
«Nem sempre os valores são, como no caso de S. Tomás, a palavra de Deus e alguns professores comunicam mesmo valores bastante diferentes ou opostos desses, mas todos devem fazem estas três coisas para conseguir comunicar valores aos alunos. Com frequência as aulas e discursos são desequilibrados, precisamente porque esquecem esta lição de S. Tomás.
«O santo tem ainda coisas a dizer-nos sobre a atitude que se deve perante o estudo e o ensino.» |
«O estudo é ordenado à ciência. Sem a caridade, esta incha e produz dissensões (...) mas acompanhada da caridade, ela edifica e gera a concórdia» (ST II-II 188, 5, 2)
«A ciência, como tudo o que implica grandeza, é uma ocasião para o homem se fiar em si mesmo e assim ser impedido de se entregar totalmente a Deus. Está pois aí, por vezes, um obstáculo ocasional à devoção, enquanto as pessoas simples e as mulheres têm uma abundante devoção porque reprimem todo o orgulho. Mas a ciência ou qualquer outra perfeição, se a submetermos perfeitamente a Deus, aumenta a devoção” (ST II-II 82, 3, 3) |
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«Infelizmente muitos professores, incluindo dos mais eminentes, usam a sua actividade como ocasião de orgulho. Mas isso é um defeito externo, que nada tem a ver com a natureza própria da ciência.
«Finalmente, é importante referir ainda que a actividade do estudo e ensino está relacionada com a felicidade última do ser humano. A busca da ciência, se for bem orientada, é um caminho para chegar ao Céu:» |
«O bem do homem consiste no conhecimento da verdade. No entanto, o bem soberano do homem não consiste no conhecimento de qualquer verdade, mas no conhecimento perfeito da verdade suprema, como o mostra Aristóteles (Ethic VII,2 1177a.19). É por isso que pode haver um vício no conhecimento de certas verdades, quanto um tal desejo não está ordenado de forma recta ao conhecimento da verdade suprema, onde se encontra a felicidade suprema» (ST II-II 167, 1, 1) |
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Esta apresentação do s’tôr Alberto deu origem a um debate longo entre os jovens, que tinham várias coisas a dizer, a partir da sua vasta experiência de lidar com professores, bons e maus. Nem todas eram simpáticas. |