Episódios da Vida de S. Tomás

 

1.Juventude e Estudos
2. Vida Universitária
3. Visões e Morte

 

Tema

Citação

1.Juventude e estudos

 

Profecia do seu nascimento

Tocco II

Cenas de infância

Tocco III, IV

Rapto do santo

Tocco VIII-XII

Retrato

Tocco XXXVI, XXXVIII; M-H Laurent (1940)

O «boi mudo»

Tocco XIII

Obtenção do grau de doutor

Tocco XVII

2.Vida universitária

 

Humildade

Tocco XXV, XXVI, LXIII

Distracção

Tocco XLIII, XLVII, LXIII

Sucesso nas aulas

Tocco XVIII

Horário

Processus 77

Ditar a dormir

Tocco XVIII

Segredo de S. Tomás

Tocco XXX

Executor testamentário

Torrell (1993) p.403-404

Conselhos de S. Tomás

Tocco XXXV

S. Boaventura e o Ofício do Corpo de Deus

Chegwidden (1998)

Carta do papa castigando o bedel

Torrell (1993) p.104

O boi voador

de Wohl (1950) p. 199

O dente supérfluo

Tocco c. LI

A discussão dos frades

Anedota apócrifa

As homílias de Crisóstomo

Tocco c.XLII

Milagres

Tocco  XXXVIII, LIII

3.Visões e Morte

 

Aparição de S. Pedro e S. Paulo

Tocco XXXI

Visão e conversa com o crucifixo

Tocco  XXXIV

Visão e fim da escrita

Processus 87, Tocco XLVII

Os últimos dias de S. Tomás

Tocco LVI-LVIII


NOTAÇÃO
Chegwidden, James (1998) «Corpus Christi and St. Thomas», Universitas, Vol 2 No. 2. in (http://www.cts.org.au/1998/corpuschristi.htm;
De Wohl, Louis (1950) The Quiet Light - A Novel about Saint Thomas Aquinas, Ignatius Press, San Francisco.
Processus- Processus canonizationis S. Thomae, Nápoles.
Tocco- Tocco, Guillaume de (1323) Ystoria Sancti Thome de Aquino de Guillaume de Tocco (1323), édition critique, introduction et notes Claire Le Brun-Gouanvic, Pontifical Institute of Mediaeval Studies, Toronto, 1996; tradução francesa L'histoire de saint Thomas d'Aquin, Les Éditions du Cerf, Paris, 2005.
Torrell (1993) - Torrell, Jean-Pierre (1993) Initiation à saint Thomas d’Aquin –sa personne et son oeuvre, Les Éditions du Cerf, Paris.

 

 

 

 

 

 

 


Juventude e estudos


Profecia do seu nascimento

Quando D. Teodora, sua mãe, tão notável pela nobreza da sua conduta como das suas origens, estava no seu castelo de Roccasseca, nos confins do reino de Sicília e da Campânia, um frade, chamado Buono, mas melhor ainda pela sua conduta e piedade, que levava há muito tempo uma vida de eremita na montanha com muitos companheiros, e que era considerado um santo pelos habitantes do país, veio ter com ela segundo uma inspiração. E disse-lhe:

«Alegra-te senhora, porque estás grávida e darás ao mundo um filho a quem chamarás Tomás. Tu e o teu marido quererão fazer dele um monge no mosteiro de Montecassino, onde repousa o corpo do bem-aventurado Bento, com esperança de conseguirem o vosso regresso junto dos grandes desse mosteiro, graças à mitra de prelado para vosso filho. Mas Deus disporá de outra forma, porque ele será, na Ordem dos Pregadores, um frade tão brilhante em ciência e santidade de vida, que na sua época não haverá igual em todo o mundo» (Tocco c. II).

topo

 

 

 




Cenas de infância

Uma terrível tempestade abateu-se de súbito sobre o castelo de Roccasecca. Um raio atingiu a torre, matando a irmã da criança que aí dormia, tal como os cavalos no estábulo. A mãe, mais preocupada com o seu bebé pequeno que com a filha, acorreu tremendo ao leito onde a criança dormia com a sua ama. Encontrando-os aos dois sãos e salvos, deu graças a Deus, que a pouco e pouco começava a realizar na criança o que tinha prometido. (Tocco c. III)

Aconteceu que a mãe do santo foi a Nápoles, aos banhos, com outras damas e fez vir o seu filho pela ama. Esta, tendo sentado a criança no lugar habitual, ele encontrou aí por milagre um pequeno pedaço de papel, que agarrou espontaneamente. Depois, como a ama queria despi-lo e abrir a mão que tinha o papel, a criança começou a berrar muito alto. Tomada de pena, ela banhou-o, secou-o e vestiu-o com o punho sempre fechado, e levou-o assim à sua mãe. A mãe, que tinha aberto a mão fechada do menino, apesar das suas lágrimas, encontrou aí uma folha com estas palavras «Ave Maria», a saudação à Virgem Gloriosa. (Tocco c. IV)

topo


 

 




 




Rapto do santo

Capítulo VIII - Que a mãe de S. Tomás, sabendo do entrada do seu filho na ordem, como lhe tinha sido profetizado, vem a Nápoles para o confirmar na sua escolha

«Os nobres da cidade ficaram surpreendidos que um tal herdeiro deixasse a casa paterna e que tão ricos começos, índices reveladores de uma futura ascensão, ficassem escondidos debaixo do hábito de uma Ordem mendicante. Mas os irmãos da Ordem louvaram a Deus por lhe ter concedido um noviço tão nobre e admirável, e já os sinais certos lhes faziam esperar vê-lo servir mais tarde nos cumes da ciência. No entanto, quando os vassalos de Rocca souberam a novidade, comunicaram-na com lágrimas à mãe. Ela, que via realizar-se no seu filho a profecia de que guardara a promessa na memória, dirigiu-se imediatamente a Nápoles com as suas nobres acompanhantes, cheia de alegria, pretendendo conversar maternalmente com Tomás para o confirmar numa escolha querida por Deus. Mas os frades, ignorando estas boas disposições, julgam Teodora perturbada pelos seus sentimentos. Preocupados com a guarda de um depósito tão precioso, enviam o seu noviço de Terracina a Ananie e até ao convento de Santa Sabina em Roma, acompanhado de irmãos escolhidos. Pressionada pela afeição maternal e privada da vista de seu filho, fruto de tantas penas, Teodora vai até Roma, proclamando a todos que o quer encontrar para o confortar na sua escolha. No entanto, os frades não a imaginam capaz de uma tal força de alma que domine o seu instinto maternal. Montam à volta do jovem Tomás uma guarda vigilante com medo de o verem capturado, e fazem-no fugir, solidamente acompanhado, para Paris.»

Capítulo IX - Que a mãe, perturbada por não poder ver o filho, o fez ser capturado pelos seus filhos que estavam na Toscânia com o imperador, e ser-lhe conduzido

«Teodora, emocionada por não poder encontrar o seu filho e perturbada pela incredulidade dos frades diante dos seus múltiplos protestos de boas intenções, deixa a sua afeição carnal dominar no seu espírito a fé na promessa. Envia um mensageiro especial aos seus filhos que acompanham o imperador na planície de Aquapendente na Toscânia e manda, com a sua benção maternal, que apanhem Tomás, seu filho e irmão deles, que os Pregadores revestiram do seu hábito e fazem fugir do reino, e que lho enviem sob boa escolta. Eles, desejosos por afeição de satisfazer o pedido maternal, expõem esta ordem ao imperador e obtêm dele a autorização. Enviam guardas pelas ruas e lugares e descobrem o seu irmão repousando perto de uma fonte, com quatro membros da sua Ordem. Surgem então, não como irmãos, mas como inimigos.

Não conseguem, no entanto, arrancar-lhe o hábito, ao qual o noviço se agarra com força. Expulsam então os outros frades e fazem conduzir Tomás a sua mãe, tal como está vestido, para não correr o risco de um ferimento. Esta vê-o com alegria mas não consegue levá-lo a depor o hábito. Fá-lo guardar primeiro em Montesangiovanni, depois em Rocca, até ao regresso dos seus filhos. Manda admoestá-lo nesse intervalo por várias pessoas, afim de testar a solidez da verdade da promessa profética diante da tentação humana. Entretanto, os frades, a quem mãos profanas tinham tirado um tesouro tão precioso, estão tão perturbados como se fosse a perda de José. Viram-se em lágrimas para o Soberano Vigário de Cristo, Inocêncio IV, então presente na Toscânia, como a um outro patriarca Jacob, e apresentam-lhe o seu diferendo.

«Um abuso foi cometido contra a Ordem. Por paixão, os seus irmãos de sangue, como ferozes feras selvagens, devoraram José. O Soberano Pontífice, ultrajado que um tal excesso tenha sido perpetrado quase diante da sua presença na região, pede ao imperador que seja infligida uma justa punição a título de reparação. Este, temendo incorrer na fúria do Soberano Pontífice se negligenciasse compensar um tal abuso com justiça, faz prender os irmãos de Tomás. Os frades, temendo então pôr em perigo a reputação da sua Ordem e escandalizar a sua consciência se prosseguissem o seu contencioso, desistem inteiramente, para mais quando sabem que o jovem Tomás conserva o seu hábito com constância, mesmo fechado numa cela.»

Capítulo X - Da luta vitoriosa e profecia que teve no cativeiro

«Fechado sob alta vigilância, privado da luz do dia e de autonomia de movimentos, ele coloca a sua liberdade nas algemas e a sua luz nas trevas. Oprimido fisicamente, liberta-se espiritualmente. Deus ilumina-o de tantos raios sobrenaturais que na sua prisão ele lê integralmente a Bíblia, aprende as Sentenças, comenta, segundo se diz, o Tratado dos Sofismas de Aristóteles e instrui as suas irmãs nas Sagradas Escrituras, presságios do seu ensino futuro. Já os seus ensinamentos têm os seus frutos na sua irmã, que os pais tinham enviado para o amaciar. Pelas suas lições e exemplos, ele condu-la ao amor de Deus e ao desprezo do mundo. Ela tomará hábito religioso de S. Bento. A sua probidade e os méritos da sua vida valer-lhe-ão ser eleita abadessa do mosteiro de Santa Maria de Cápua. Afim de autenticar a graça da sua vocação com obras, Tomás entrega-se inteiramente à oração, à leitura e à contemplação. Nenhuma persuasão, nenhuma tentação, nenhuma ameaça, nenhum medo, nem nenhuma das coisas que confrontam habitualmente a coragem de uma pessoa aguerrida, nada disso desvia o jovem. Pelo contrário, cada ferida recebida no combate aumenta as suas forças. De regresso, os seus irmãos agravam ainda mais as suas agressões. Tentando o insulto onde o medo não tinha podido submetê-lo, nem a sedução amolecê-lo, eles rasgam o seu hábito dominicano, na esperança que o deponha por amor próprio para tomar outro de sua escolha. Mas ele suporta a injúria com infinita paciência. Como o próprio Cristo teria levado esse hábito, ele enrola-se nos farrapos e não se sente menos revestido por eles por conservar íntegra a devoção na sua alma.»

Capítulo XI - Dos ataques insuportáveis que ele vence com a ajuda de Deus

«Estas ofensivas são impotentes para o desviar. Então os irmãos concebem para o submeter uma outra estratégia, reconhecida por derrubar os cárceres, amolecer a rocha e desenraizar um cedro na tempestade. Campo de batalha onde vemos muitos combater, mas bem poucos triunfar das dificuldades. Enquanto Tomás, fechado sozinho no seu quarto, se repousa debaixo de boa guarda, enviam-lhe uma esplêndida jovem, prostituta especializada na sua arte, com a missão de o levar à falta por olhares, toques, jogos e outros estratagemas. Quando a vê, ele que exala já o amor esponsal pela sabedoria de Deus, ele o combatente invencível, sente por permissão da divina Providência em vista de triunfo mais glorioso, a excitação da carne que habitualmente tinha sob o domínio da razão. Brandindo um carvão ardente tirado da chaminé, expulsa com indignação a cortesã do seu quarto. Depois, cheio de fervor espiritual, chega ao ângulo do quarto e traça com a cabeça do tição o sinal da Santa Cruz na parede. Prosterna-se em terra e, com lágrimas, pede a Deus que lhe conceda um cinto de perpétua castidade afim de servir sem corrupção nos combates. Assim rezando e chorando, adormece rapidamente e eis que dois Anjos são enviados para lhe assegurar ter sido ouvido por Deus na vitória de um combate tão difícil. Eles o tomam de cada um dos lados pelos rins e dizem-lhe “Da parte de Deus e a teu pedido, nós te cingimos de um cinto de castidade que nenhuma violência te poderá arrancar. Aquilo que a virtude humana não pode atingir pelo seu mérito, isso te é oferecido em dom pela generosidade divina”. Nunca ele sentirá que este cinto foi forçado intimamente. Isso será repetido pelo testemunho muito seguro dos seus confessores à hora da morte. Jamais ele terá o sentimento de ter violado na sua virgindade ao longo de perigosos combates que travará até à hora da morte. Ele sentirá desde então uma aversão pela aparência das mulheres. Evitará muito cuidadosamente o seu contacto, a sua conversação e a sua frequência. Admiram-no habitualmente por isso e ele, quando o sabe, repete frequentemente que os homens consagrados às especulações divinas podem rapidamente perder muito tempo a falar na companhia das mulheres, a menos que esses contactos sejam suscitados pela necessidade de uma causa particularmente útil, ou que tratem de Deus e das coisas divinas.

«Ele sentiu fisicamente esse aperto angélico e acordou num sobressalto com clamor. Como se inquietam dos seus gritos, ele nada quer revelar do dom de Deus. Mantê-lo-á ostensivamente escondido até à sua morte. Confiar-se-á apenas ao seu companheiro e será este que o contará muitas vezes como exemplo, para louvor de Deus e recomendação dos santos.

«Oh bem-aventurada cela exígua onde flameja um tal esplendor de inteligência! Oh salutares entraves que contribuem tanto à livre contemplação dos Céus! Oh tentação benéfica, que o inimigo quer levar à queda e que jorra, com a assistência divina, em triunfo da força vitoriosa na luta! Oh provas manifestas e consumadas dos méritos da sua vida e da sua santidade! Aguerrido na sua sensibilidade e lutador indomável, ele não pode ser amolecido pelas delícias nem quebrado pelas afrontas! Oh atleta viril e soldado triunfante! Ele submete o antigo e servil demónio, consegue uma vitória insigne num tão difícil combate e mostra-se digno da coroa em todos os outros! Oh bem-aventurado peregrino e hóspede do século, tu conquistas o título de cidadão do Céu e mereces, por dispensa divina, ver os seus concidadãos, tu que a sociedade dos Anjos não renega quando estás cingido de castidade, tu digno de um Anjo pela tua pureza enquanto de bates na Terra pela tua virgindade!»

Capítulo XII - O jovem santo é entregue à sua ordem

«Como tudo isto devia acontecer por disposição divina, como ele não devia ser abandonado pelos seus confrades a quem tinha sido arrancado, como numa tão forte tentação ele gozou do socorro divino, como uma divina profecia prometia que ele seria um dia entregue à sua Ordem, por todas estas razões , o próprio frei João de S. Giuliano em pessoa não hesitou em visitá-lo na sua prisão, tanto ouvia falar da sua constância na luta e disciplina de costumes. Este reverendo padre, animado do mesmo amor com que o recebeu na Ordem, mantém no seu espírito a esperança de o ver um dia devolvido aos Pregadores. Às escondidas, levava vestidas as túnicas que despindo no seu quarto lhe deixava, para que o jovem não sofresse demais no seu corpo, ele a quem uma tal virtude confortava mentalmente. Fechado assim durante dois anos, Tomás mostrou a constância espiritual que será a da sua vida futura. A sua mãe atentamente compreendeu que devia cumprir em seu filho a predição do eremita inspirado do Espírito divino. Ela temia menos afrontar a perseverança do seu filho do que a Providência divina. Com prudente dissimulação, ajudou-o a descer ao longo de uma corda pela janela do castelo. Os frades, prevenidos, recebem-no com alegria e conduzem-no a Nápoles. Louvam o Senhor por ter recuperado José que, como ele, tinha o espírito de inteligência e compreendia melhor que os sábios do Egipto. Todos o consideram instruído pela prisão como se tivesse estudado continuamente as disciplinas escolares.» (Tocco c. VIII-XII)

topo


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Retrato

«Quanto à disposição natural do seu corpo e do seu espírito, já dissemos que era grande de corpo, de uma estatura alta e direita, que respondia à rectidão da sua alma. Era louro como o trigo, indício do seu temperamento bem equilibrado. Tinha uma cabeça grande como exigem os órgãos perfeitos e pedem as faculdades sensíveis ao serviço da razão. O cabelo era um pouco raro» (Tocco c. XXXVIII).
Os colegas «achavam que o Espírito Santo estava verdadeiramente com ele, porque ele tinha sempre com cara alegre, doce e afável» e «inspirava alegria em todos os que o viam» (Tocco c. XXXVI).
«A mãe do seu sócio, Reginaldo, contou também que “quando Tomás passava nos campos, o povo que estava ocupado a trabalhar a terra abandonava os seus trabalhos e precipitava-se ao seu encontro, admirando a estatura impressionante do seu corpo e a beleza dos seus traços humanos. Eles iam à sua frente, mais por causa da sua beleza do que por causa da sua santidade de vida ou nobreza de origem” (Laurent (1940) “Un légendier dominicain peu connu”, Analecta Bollandiana 58, 28-47, p.43)


topo











O «boi mudo»

«Desde que chegou [à Universidade], ouvindo mestre Alberto ensinar com um ensino de uma tal profundidade e originalidade, o jovem alegrou-se por ter enfim encontrado um tesouro capaz de saciar o seu desejo. Para manifestar que chegara ao fim da sua busca, ele manteve-se espantosamente silencioso, assíduo ao estudo e fervoroso na oração, memorizando interiormente tudo o que transmitirá depois no seu ensino. Protegido pela sua admirável simplicidade, recebia sem ruído as lições ensinadas pelo Mestre e infundidas pela misericórdia divina. Os seus condiscípulos deram-lhe então a alcunha de «o boi mudo», ignorando que mugidos o seu ensino em breve daria. O seu mutismo exterior tornou-se eloquente em pensamento, para seu grande ganho e benefício de todos. Calando-se, ele não foi prejudicado por nenhuma palavra exterior e adquiriu assim mais rapidamente os hábitos da ciência.

«Como progredia assim em silêncio, todos ignoravam o seu avanço. Mestre Alberto começara a explicação do Tratado «Dos Nomes Divinos» de S. Dionísio e o nosso discípulo escutava com a maior atenção. Ignorando a potência intelectual que se escondia nele, um colega teve compaixão dele e propôs-lhe amavelmente rever com ele a lição. Tomás aceitou e agradeceu humildemente. Ora este tutor bem intencionado enganou-se logo desde o princípio do estudo e frei Tomás, tendo por assim dizer recebido de Deus autorização para se exprimir, apresentou claramente a lição e completou-a, juntando muitas coisas que não tinham sido ditas pelo Mestre. Cheio de admiração, o colega pediu-lhe que passassem a rever juntos as lições para progredirem mutuamente. Tomás aceitou, mas na condição de ele não o revelar a ninguém, para poder continuar na sua discreta simplicidade. O condiscípulo concordou, mas depois censurou-se gravemente por guardar silêncio. Confiou ao mestre de estudantes ter descoberto em Tomás um tesouro insuspeito de sabedoria. Este, escondendo-se na sala onde eles estudam, descobre, com grande satisfação, muito mais do que tinha ouvido do estudante e apressou-se a indicar o aluno a Mestre Alberto, para sua alegria.

«Alberto debateu um dia uma questão difícil e frei Tomás redigiu um apontamento da aula. Por acaso, um estudante encontrou-o no chão junto à sua cela e mostrou-o com alegria ao Mestre de estudos que a leu. Este louvou este furto feliz e pensou que de um silêncio tão persistente e de um comportamento tão simples e transparente não podia deixar de germinar qualquer coisa de grande no segredo da Graça. Encarregou então o Mestre a Tomás de responder, no dia seguinte diante de todos, a uma questão muitíssimo difícil, o qual, embora pela humildade não o quisesse fazer, o fez, todavia, pela obediência. Dirigiu-se então ao seu lugar habitual de oração e recomendou-se humildemente a Deus com vista a passar este primeiro exame escolar com a ajuda divina, preparando-se para a prova do dia seguinte.

«Chegado o momento Tomás faz preceder os argumentos de uma distinção que respondia inteiramente à questão. O Mestre diz-lhe “Frei Tomás, tu pareces-me tomar não o papel do interlocutor, mas de professor”. E este respondeu com reverência: “Mestre, não vejo como abordar este problema de outra forma”. Alberto confirmou então: “a tua distinção resolve efectivamente a questão”, mas acrescentou-lhe quatro novos argumentos tão difíceis de serem respondidos que pensou com isto tinha colocado a conclusão à questão. Frei Tomás respondeu-lhes amplamente e Mestre Alberto foi tomado por um sopro profético para dizer: “Nós chamamos a este jovem de ‘boi mudo’, mas ele ainda dará tamanho mugido na doutrina que soará em todo o mundo”. Esta profecia está hoje realizada: o seu ensinamento está difundido entre os fiéis do mundo inteiro e a Igreja é ensinada pelas suas palavras.
«Apesar de um tal sucesso escolar, o jovem, enraizado na humildade de coração, não caiu no orgulho espiritual. Não mudou nada à simplicidade dos seus hábitos e conservou o mesmo modo de vida, antes como depois. No entanto, o Mestre submete-lhe a partir de então todas as dificuldades escolásticas e ele resolve-as melhor que todos.

«Em seguida, Alberto abordou as questões da Ética de Aristóteles. Frei Tomás anotou conscienciosamente as lições do Mestre e redigiu-as com uma pena eloquente, profunda e subtil, como que para ornamentar a fonte de um tal doutor, que ultrapassa em saber toda a sua geração. Foi bem o modo da divina Providência, permitir assim a Tomás de se manifestar e falar por ocasião da leitura do livro dos “Nomes Divinos”. O próprio Deus lhe oferece a oportunidade de esclarecer a doutrina dos Seus nomes desde essa leitura, e de a aperfeiçoar até ao fim da sua vida. Mesmo no momento da morte, ele não se cala e continua a escrever.» (Tocco c. XIII).


topo



 









Obtenção do grau de doutor

Capítulo XVII - Da visão que teve quando foi feito mestre em Teologia

«Quando o tempo de estudo se esgotou frutuosamente, chegou o momento em que os bacharéis em teologia deviam ser apresentados ao chanceler da universidade de Paris. Adiantando-se ao período regulamentar, o chanceler pediu ao prior dos Pregadores de Paris para fazer saber de sua parte a frei Tomás que ele se devia preparar para receber o magistério em Teologia, sem respeitar a ordem de antiguidade, que devia ter feito passar outros antes dele. O jovem protestou humildemente, invocando a sua falta de conhecimentos e a sua idade. Mas ele não se pôde escusar ao regulamento que o obrigava à obediência. Então, aceitando humildemente a carga que lhe era imposta, dirigiu-se ao lugar onde tinha o costume de rezar e, prostrado no chão, pediu a Deus, chorando, que lhe concedesse a graça e a ciência necessárias para receber e exercer o magistério, dado que Ele já o tinha coberto de graças apesar da sua indignidade. Começou a rezar o salmo: “Socorro, Senhor, não há quem seja fiel, a lealdade desapareceu de entre os homens” (Sl 12 (11), 2). Depois de ter rezado e chorado muito tempo, adormeceu.

«E eis que um mensageiro do Céu, um velho e venerável frade da sua Ordem, lhe foi enviado, que lhe diz: “Frei Tomás, porque rezais a Deus com estas lágrimas?”. E ele respondeu: “Porque o cargo do magistério, para a qual a minha ciência é insuficiente, me foi imposto, e não sei o que vou apresentar como lição inaugural”. O velho disse-lhe: “Eis que fostes atendido. Aceitai o cargo do magistério, porque Deus está convosco. Para a vossa lição, eis o que deveis expor: ‘Regas os montes desde as tuas altas moradas; com o fruto das tuas obras será saciada a terra’ (Sl 104(103) 13)”. Com estas palavras, frei Tomás acordou e deu graças a Deus, que o tinha atendido tão rapidamente. E estas palavras não constituíram apenas o tema da sua primeira lição, mas indicaram bem a excelência de toda a sua obra, pois, graças ao que ele recebeu das montanhas da contemplação divina, saciou toda a Igreja das chuvas da sabedoria, como um campo cheio da semente divina.» (Tocco c. XVII)

topo








Vida universitária


Humildade

«Para falarmos das suas virtudes, comecemos pela sua humildade, na qual resumimos o principal, porque ela dá incremento a todas as virtudes. A propósito da sua humildade, conta-se que o nosso doutor dizia, na pureza do seu coração: “Dou graças a Deus de não ter tido nunca, em razão da minha ciência, do alto da minha cátedra de mestre, em nenhum momento da minha actividade professoral, um movimento de vão orgulho que tenha elevado a minha alma da sede da humildade. E se um primeiro movimento veio afectar a minha razão, eu imediatamente o reprimi, recorrendo ao juízo da mesma razão”. Ele não poderia nunca ter elevado o seu espírito a essas alturas sublimes, se não tivesse, como fundamento da sua humildade, deixado de lado todas as preocupações humanas. Porque estava consciente de ter a sua ciência de Deus, que lha tinha concedido. Ele não podia pois conceber na sua alma um culpável sentimento de vã glória. Ele sabia, pelo contrário que, em cada dia, a verdade divina afluía a ele. A simplicidade do seu comportamento era um sinal da sua humildade, o reflexo do interior da sua alma. Quando o admirável doutor descia dos cumes da contemplação das coisas divinas para as coisas humanas, o seu trato era tão fácil e a sua conversa tão agradável, que mostrava claramente que seguia o exemplo de Cristo, de que tinha tido o privilégio de conhecer a vida pela contemplação, e depois a ensinar pela pregação. Porque ele não poderia ter obtido de Deus tanta ciência se não tivesse na sua vida seguido as suas lições de humildade.» (Tocco c. XXV)

O serviço do frade apressado

«Acerca desta notável humildade diz-se que, quando o dito doutor estava no convento de Bolonha, tinha o costume de andar em contemplação sozinho pelos claustros. Então um certo irmão de outro convento, que não conhecia o doutor, veio a Bolonha e pediu e obteve licença do prior para levar o primeiro frade que encontrasse para o ajudar num assunto seu na cidade. Encontrou Frei Tomás e disse-lhe: “Bom frade, o prior manda que venhas comigo”. E ele, inclinado a cabeça, seguiu-o. No caminho, como Tomás não conseguia andar depressa, o seu companheiro ralhava-lhe e ele humildemente pedia desculpa. Os cidadãos, que o conheciam, estranharam que um doutor tão importante seguisse um frade de baixa condição, o que era muito surpreendente. Pensando que isso se devesse a um erro, disseram ao frade quem era aquele que o seguia. Ele então pediu muita desculpa a Tomás, pela sua ignorância. Os cidadãos, juntaram-se à volta do Mestre com respeito e interrogaram-no sobre este notável exemplo de humildade. Ele respondeu-lhes então que a vida religiosa não se pode seguir senão na humildade, pela qual o homem se submete ao homem por amor de Deus, tal como Deus obedeceu ao homem por amor do homem.» (Tocco c. XXV)

Controvérsia com o franciscano João de Peckam

«Um outro exemplo de humildade, sinal da perfeição do nosso doutor, foi-nos relatado pelo testemunho verídico dos que estavam com ele em Paris.

«Um religioso tinha de se apresentar à tarde diante do chanceler com vista a obter o magistério, segundo o costume. Às questões que lhe eram colocadas, o candidato respondeu sustentando uma opinião contrária à verdade que frei Tomás tinha determinado nos seus cursos. Este reagiu com uma grande paciência, sem ver prejuízo no facto de ser contradito por um mestre ainda noviço. Magnânimo, não fez caso do desprezo que lhe era assim testemunhado. Com a alma tranquila e o verbo sereno, ele voltou ao convento com os companheiros da sua Ordem.

«Mas os estudantes e o companheiro de Tomás, não podendo tolerar a afronta que tinha sido feita ao seu mestre, disseram-lhe: “Mestre, nós fomos gravemente ofendidos na vossa pessoa. Este mestre não devia ter ido contra a vossa opinião, e vós não devíeis ter suportado esta afronta em presença de todos os mestres de Paris”. O mestre, sereno nas suas palavras, e ainda mais na sua alma, respondeu-lhes: “Filhos, pareceu-me que este novo mestre devia ser poupado durante o seu exame, e não ser confundido diante de todos os mestres. Eu não duvido da minha doutrina porque um mestre a contradisse, quando a tenho solidamente fundada, com a ajuda de Deus, sobre as autoridades dos santos e sobre raciocínios conformes à verdade. Mas se os irmãos julgam de outra forma, amanhã eu poderei suprir o que hoje não fiz”.

«No dia seguinte, frei Tomás e os seus estudantes encontraram-se com os outros no palácio de sua eminência o bispo, para a cerimónia. Como o candidato repetia as mesmas questões e as mesmas respostas sem lhes dar correcção, frei Tomás disse com a maior das moderações: “Mestre, a vossa posição não pode ser sustentada sem desprezo pela verdade, porque ela contradiz o concílio de ... Precisais de mudar de opinião, se não quereis estar em desacordo com esse concílio”. Então o candidato pôs-se a formular o seu pensamento de outra forma, mas sem mudar de opinião. E o doutor interveio de novo e tornou a opor-lhe o texto do concílio. Acabou por o conduzir a confessar o seu erro e a pedir humildemente ao doutor que lhe fizesse conhecer mais profundamente a verdade. Frei Tomás disse-lhe: “Agora, falais bem”, e ensinou-lhe o que se devia defender como verdade. Todos os mestres admiraram a calma do seu espírito e da sua atitude. Ele tinha, de facto, confrontado um adversário da mesma forma como teria ensinado um aluno.» (Tocco c. XXVI)

Recusa das honras eclesiásticas

«Quando estava moribundo, o bom doutor não esquecia o seu discípulo e queria consolá-lo. Frei Reginaldo tinha revelado ao mestre uma das causas da sua tristeza: ele tinha esperado que no concílio de Lião onde ele se dirigia, o doutor lhe visse atribuída qualquer distinção importante, que honraria a Ordem e acrescentaria à glória temporal da sua família.! Então o santo doutor, que sempre se tinha contentado apenas com o amor da divina sabedoria, acima do mundo e muito para lá de toda a honra temporal, diz-lhe: “Meu filho, não vos inquieteis disso. Entre outros desejos, pedi a Deus e obtive, pelo que Lhe dou muitas graças, de me tirar desta vida no estado de humildade onde me encontro, sem que qualquer autoridade me atribua uma distinção que mudasse este estado. Eu poderia progredir ainda em ciência e ser útil aos outros pela doutrina, mas agradou a Deus, segundo uma revelação que me fez, de me impor silêncio, pondo fim ao meu ensino. Porque Ele quis, como sabeis, revelar-me o segredo de um conhecimento superior. É por isso que, a mim indigno, Deus concedeu mais que aos outros doutores, que permaneceram mais tempo nesta vida, para que eu saísse mais depressa que os outros desta vida mortal, e que entre, serenado, na vida eterna. Estai pois tranquilo, meu filho, que morro seguro de todas as coisas.» (Tocco c. LXIII)


topo

 












Distracção

A distracção de S. Tomás de Aquino era famosa. Múltiplas histórias a provam. Mergulhado em meditação ou na oração, o santo era capaz de ficar alheio a tudo à sua volta. Alguns casos curiosos são citados na sua biografia:

A vela e a mão

«Estando no seu quarto, enquanto ditava a sua Suma sobre os tratados da Trindade, com uma vela na mão, disse ao seu secretário. “O que quer me vejas acontecer, não me chames”. E enquanto mergulhava na sua contemplação, a vela foi consumida ao fim de uma hora, de tal maneira que a chama atingiu os seus dedos: Mas ele não a sentiu, apesar de ela estar longamente em contacto com os dedos. Suportou o fogo até à sua extinção sem fazer o menor movimento.» (Tocco c. XLVII)

Esquecia de comer

«[Reginaldo de Piperno, o frade companheiro e secretário] não servia só como discípulo face ao mestre, de filho face ao pai, mas como devoto face ao santo. Devia sem cessar cumprir o papel de ama, devido à abstracção quase constante do seu espírito e das frequentes êxtases que levavam a sua alma ao céu. Era preciso apresentar-lhe a comida necessária à subsistência enquanto estava assim absorvido e pôr diante dele o que ele devia comer, afim de que ele não tomasse por erro, na sua abstracção, qualquer coisa de perigoso.» (Tocco c. LXIII)

À mesa de S. Luís

«A propósito desta abstracção mental e desta contemplação, maravilhosas e inauditas, conta-se que uma vez que S. Luís, rei de França, o tinha convidado para a sua mesa, ele desculpou-se humildemente, por razão do trabalho que representava a Suma de Teologia, que estava a ditar nessa altura. Mas o rei e o prior do convento de Paris obtiveram do mestre, tão humilde como sublime na contemplação, que ele se inclinasse diante da sua vontade. Ele deixou o seu estudo e, guardando no seu espírito os pensamentos que tinha formado quando estava na sua cela, foi ter com o rei. Quando estava sentado à mesa, uma verdade da fé foi-lhe de repente divinamente inspirada. Então bateu na mesa com o punho dizendo: “Desta vez é que está arrumada a heresia dos maniqueus!”. Então o prior disse-lhe tocando-lhe: “Tomai cuidado, mestre, pois estais na mesa do rei de França.” E puxou-lhe violentamente a capa, para o fazer sair da sua abstracção.

«Então o mestre, parecendo recuperar os sentidos, inclinou-se diante do santo rei pedindo-lhe que lhe perdoasse de ter uma tal distracção à mesa real. O rei ficou admirado e edificado pela conduta do mestre, pois este, que pertencia à nobreza, podia ter-se deixado encantar pelo convite real e ter-se distraído da sua contemplação. No entanto, foi a abstracção do espírito que o dominou, a ponto que os seus sentidos não conseguirem fazer descer o seu espírito das alturas onde se encontrava durante a refeição. O santo rei foi suficientemente avisado para não deixar perder a meditação que tinha assim absorvido o espírito do nosso doutor. Chamou então o seu secretário, para registar por escrito, na sua presença, o que o doutor guardava no segredo –embora nada se perdesse na memória do doutor daquilo que lhe era infundido pelo Espírito Santo– para que ele o conservasse.» (Tocco c.XLIII)

Anestesia especial

«A abstracção mental do nosso doutor era tão grande que lhe acontecia não sentir as feridas corporais. Um dia em que, por ordem do médico, tinham de lhe fazer uma cauterização na perna, ele disse ao companheiro: “Dizei-me com antecedência quando chegará aquele que vai aplicar o fogo”. No momento do tratamento, ele preparou-se estendendo a perna na cama onde devia receber a cauterização, e depois elevou-se numa tal abstracção que não sentiu nem a aplicação do fogo nem o cautério. A prova foi que ele não se mexeu absolutamente nada no leito onde tinha estendido a perna. (...) Da mesma forma, em Paris, cada vez que tinha de suportar uma sangria, via-se ele fazer de tal maneira que se separava dos sentidos pela contemplação do seu espírito, antes do cirurgião chegar para abrir as veias. Este, que assim cortava a veia sem qualquer dificuldade, não podia atingir a imaginação do santo doutor, que ele encontrava completamente desligada dos seus sentidos. Ora o nosso doutor era extraordinariamente sensível e as feridas físicas não deixavam de o perturbar. Por isso lhe foi permitido, por um milagre divino, viver num corpo sensível, mas poder estar por vezes ser insensível à dor.» (Tocco c. XLVII)

Recepção a um cardeal

«Frei Raymond Étienne conta um facto muito semelhante, que ele soube do arcebispo de Cápua, que foi discípulo do nosso doutor.

«Um cardeal que era então legado no reino e que tinha ouvido sobre o nosso doutor todos estes factos admiráveis e outros ainda, disse ao arcebispo: “Quereis ordenar que tenhamos uma conversa particular, esse mestre e eu?” Convocado, o mestre desceu do seu estudo, continuando na sua abstracção. Eles esperaram longamente que ele saísse desse estado. De repente, o nosso doutor mostrou uma cara que revelava a alegria da sua alma e disse: “Aqui está! Encontrei o que procurava!” Como ele não mostrava nenhum sinal de reverência a seu respeito, o cardeal começava a mostrar irritação de o ver assim. O arcebispo disse-lhe então: “Senhor, não vos espanteis. Ele está frequentemente tão absorvido que não fala, quaisquer que sejam as pessoas diante das quais se encontra!” E puxou-lhe violentamente pela capa. Então o nosso doutor, parecendo acordar do sono da contemplação, e vendo que estava na presença de tão altos prelados, inclinou-se respeitosamente diante do senhor cardeal e pediu-lhe que lhe perdoasse por ter estado absorvido tanto tempo e não lhe ter prestado as honras que lhe eram devidas. Como eles lhe perguntassem porque razão ele tinha mostrado uma cara tão radiosa durante a sua abstracção, ele respondeu: “Encontrei um belo argumento para uma questão sobre a qual longamente refleti: o júbilo que mostrei reflectia a alegria da minha alma”» (Tocco c.XLIII)


topo












Sucesso nas aulas

“Os estudantes apressavam-se tão numerosos aos seus cursos que os locais mal conseguiam conter todos os jovens que atraía e incitava ao estudo o ensino de um tão grande mestre. Este ensino claro e luminoso fez desabrochar numerosos mestres, tanto religiosos como seculares, graças à forma de ensinar concisa, límpida e ligeira.”(Tocco c. XVIII).


topo


















 

Horário

«Cada dia, frei Tomás celebrava missa logo de manhãzinha na capela de S. Nicolau. Um outro padre lhe sucedia imediatamente que celebrava por sua vez. Depois de a ouvir, ele deixava as vestes [sacerdotais] e dava logo os seus cursos. Uma vez acabados estes, ele punha-se logo a escrever e a ditar a vários secretários. Depois comia, voltava à sua cela onde vagueava pelas coisas divinas até ao momento do repouso. Depois do repouso recomeçava a escrever e era assim que ele ordenava a Deus toda a sua vida» (Bartolomeu de Cápua em Processus canonizationis S. Thomae, Neapoli 77, citado em T. 356)


topo




 









Ditar a dormir

«Conta um dos seus secretários, Even Garvith, um bretão da diocese de Tréguier que, depois de ter ditado a ele e dois outros secretários que tinha, acontecia-lhe, fatigado pelo esforço do ditado, colocar-se em posição de repouso, mas continuando a ditar mesmo a dormir. O referido secretário redigia por escrito o que ouvia da sua boca adormecida, continuando a matéria que antes escrevera enquanto ele ditava acordado. Era como se visse a sua alma administrar no corpo as forças sensitivas e libertar as intelectivas do peso da carne, para poder dizer: “Eu durmo mas o meu coração vigia” (Ct 5, 2), pois mesmo enquanto dormia, o seu ócio era vigilante na contemplação de Deus» (Tocco c.XVIII, nº100)


topo

 



 











Segredo de S. Tomás

«Temos da boca de frei Reginaldo, seu companheiro, o que ele pôde observar e guardou segredo durante a vida do nosso doutor. Este frade contou-o depois da morte do mestre, quando regressou à abadia de Fossanova e tinha retomado o seu ensino onde o tinha interrompido. Era, com efeito, leitor no convento de Nápoles.

«Irrompendo em soluços, disse “Irmãos, o meu mestre tinha-me proibido de revelar durante a sua vida os prodígios aos quais eu tinha assistido e, entre estes, a sua ciência, admirável entre todas, que ele obtinha não apenas pela sua inteligência humana, mas pelos méritos da sua oração. Cada vez que queria estudar, disputar, ler, escrever ou ditar, ele começava por se retirar no segredo da oração, e rezava, banhado em lágrimas, para descobrir os segredos divinos. E pelos méritos da sua oração, saía instruído, com a resposta às questões sobre as quais antes se interrogava. E se alguma dúvida surgia antes de regressar ao seu oratório, punha-se a rezar, e o que era obscuro tornava-se claro, por um milagre divino” (...)

«Os seus secretários revelaram igualmente que, enquanto escrevia o Comentário às Epístolas do bem-aventurado Paulo, em Paris, e que encontrava dificuldades na exposição literal de uma passagem, ele mandava-os embora e fechava-se só na sua célula. Prostrado com a cara na terra, inundava o chão das suas lágrimas, até que, pelos méritos de S. Paulo, seu intermediário junto de Deus, o sentido desse texto se-lhe tornava perfeitamente claro. Chamava então os seus secretários que começavam a escrever aquilo que Deus lhe tinha querido revelar. Era então que eles viam que o lugar onde se tinha prostrado para rezar estava inundado de lágrimas» (Tocco c. XXX).

topo










Executor testamentário

«Dispomos aqui de alguns dados historicamente bem atestados. A 10 de Setembro de 1272, o rei Carlos I fazia saber ao Administrador dos bens da Coroa que frei Tomás de Aquino tinha sido designado pelo seu cunhado, Roger d’Aquila, conde de Traetto, como seu executor testamentário. A este título, um outro documento datado de 20 de Setembro, encarregava-o de distribuir pelos herdeiros, segundo as instruções do defunto, vários tipos de bens: mulas, jumentos, potros, selas, túnicas, samarras, trigo, etc. Alguns dias mais tarde, a 2 de Outubro, o rei escreve de novo ao mesmo Administrador que as instruções deixadas por Roger previam que Tomás ficasse encarregado de restituir as terras que o defunto se tinha injustamente apropriado e que, para outras restituições, ele se podia servir dos rendimentos dos moinhos de Scauri. Ele estava pois autorizado a guardar esse dinheiro até que essas operações tivessem terminado e os funcionários da Coroa não deviam criar obstáculos à sua tarefa (...) Como se tratava de um grande do reino, o rei tinha já confiado a tutela dos quatro filhos ao “Mestre Procurador da Terra de Lavoro” mas, por razões facilmente compreensíveis, frei Tomás preferia que esse cargo ficasse na família. Foi pois procurar o rei em Cápua e obteve dele que a tutela fosse confiada a Roger de Sanseverino, conde de Marsico, o seu outro cunhado, que a exerceu conjuntamente com Adelásia, a mãe das crianças.» (Torrell p. 403-404)

topo











Conselhos de S. Tomás

«Embora fosse estranho, num grau espantoso, aos assuntos temporais e profanos, ele que estava inteiramente virado para as coisas divinas, dirigia, quando lhe pediam, as suas faculdades de reflexão para as decisões a tomar no exercício dos assuntos temporais. E dava então conselhos tão avisados e tão úteis que se diria para isso ter requerido a opinião de Deus. Diríamos, com efeito, que ele tinha como que miraculosamente sob os olhos todas as regras que presidem à decisões e acções humanas» (Tocco c. XXXV)

topo
















S. Boaventura e o Ofício do Corpo de Deus

«Testemunha da grandeza do seu trabalho também veio de outros grandes santos, como S. Boaventura. Tendo-lhe também sido encomendado pela Santa Sé que escrevesse um ofício para a festa do Corpo de Deus, ao ler apenas uma página dos esforços de Tomás, imediatamente tomou a sua obra (certamente também uma grande obra-prima) e queimou-a diante de S. Tomás. Quando o espantado Tomás lhe perguntou “Mas porquê?”, ele respondeu, “Porque não quero ter na minha consciência, Tomás, que poderia ser um obstáculo entre o mundo e isto» (Chegwidden (1998))

topo
















Carta do papa castigando o bedel

«Existe ainda hoje nos arquivos da Universidade de Paris uma carta de 26 de Junho de 1259 que o papa Alexandre IV escreveu ao bispo de Paris, Renaud de Corbeil, pedindo-lhe que castigasse severamente o bedel Guillot da nação picarda (um dos grupos da universidade). Este, no Domingo de Ramos anterior atrevera-se a interromper mestre Tomás quando este pregava ao povo. O papa impunha penas severas, exigindo a excomunhão, perda de salário e a expulso da função de bedel. Parece que a pena não foi aplicada, porque sabemos que ele continuou em funções. Aliás, isso deve ter sido facilitado pelo facto de poucas semanas depois S. Tomás ter deixado Paris e partido para Itália.» (Torrell p.104).

topo
















O boi voador

«Os noviços são sempre noviços. Tinham-lhe dado a alcunha de “o boi mudo da Sicília”. (...) Pregavam-lhe partidas, brincando com a sua calma imperturbável e a sua confiança imediata. Só uma vez ele respondeu. Tinham gritado à sua janela: “Frei Tomás ! Frei Tomás ! Venha ver depressa ... um boi a voar !”. Obedientemente, ele veio à janela, para ser recebido à gargalhada. “Acreditou! Acreditou! Palerma! Palerma!”. E Tomás disse imperturbável: “Prefiro acreditar que um boi pode voar do que um Dominicano possa mentir”. E o riso acabou.» (de Wohl p. 199).

topo
















O dente supérfluo

«Diz-se que quando o nosso doutor estava em Paris e devia, no dia seguinte, determinar diante da universidade uma questão que ele tinha disputado na véspera, se levantou durante a noite para rezar como de costume. Apercebeu-se então que tinha acabado de lhe nascer na boca um dente supérfluo que o incomodava consideravelmente ao falar. Inquieto, deu parte disso ao seu companheiro. Como a hora era pouco propícia para obter um remédio, este sugeriu que se anunciasse no dia seguinte à universidade que o mestre tinha um impedimento e não podia de forma nenhuma pronunciar a sua determinação. E poderia então chamar-se alguém para arrancar o dente com um instrumento de ferro. Mas o doutor, que pensava na confusão que isso provocaria à universidade e nos perigos que poderiam sobrevir da extracção do dente, disse ao seu companheiro: “Não vejo outro remédio senão confiar-me à divina Providência”. E dirigiu-se ao lugar onde costumava rezar. Rezando e chorando longamente, ele pediu o benefício desejado e entregou-se à divina Providência. Enquanto rezava com fervor, eis que, sem a menor dor e violência, ele tira facilmente o dente supérfluo com uma simples pressão da mão. O nosso doutor ficou completamente liberto deste obstáculo à palavra!

«Como lembrança deste benefício da misericórdia divina, ele trouxe consigo durante muito tempo o dente. O esquecimento, que faz nascer a ingratidão, não o fez desaparecer do seu espírito, e a confiança na sua oração, que tinha sido tão rapidamente atendida, tornou-se cada vez maior.» (Tocco c. LI).

topo










A discussão dos frades

«Um dia dois frades começaram a discutir no convento. Quando acabaram, um deles foi ter com frei Tomás e explicou-lhe a sua posição. Tomás, ouvindo pacientemente, respondeu: “Tem razão, irmão. Tem mesmo muita razão!”. Daí a pouco veio o outro frade e explicou-lhe as suas razões, inversas às do primeiro. Tomás, ouviu também pacientemente e no fim respondeu igualmente: “Tem razão, irmão. Tem mesmo muita razão!”.

«Um terceiro frade que assistia à cena, foi ter com frei Tomás e disse-lhe. “Como é isso, frei Tomás?! Veio um dos nossos irmãos dizer-lhe uma coisa, e o frei diz-lhe que ele tem razão. Vem depois o outro dizer-lhe o contrário, e frei Tomás diz-lhe que ele também tem razão. Como pode ser isto?” Frei Tomás ouviu-o ainda pacientemente e no fim respondeu: “Olhe, meu irmão, também tem razão. Tem mesmo muita razão!”»

topo















As homílias de Crisóstomo

«Conta-se a este propósito que um dia, quando ele vinha com os seus estudantes de Saint-Denis, onde tinha ido ver as relíquias dos santos e a santa abadia dos monges, e quando via a cidade de Paris tão próxima, os estudantes disseram-lhe: “Mestre, vede como é bela a cidade de Paris! Gostaríeis de ser dono dela?”. Eles esperavam assim ouvir da sua boca uma palavra edificante. Ele respondeu: “Preferia antes ter as homílias de S. João Crisóstomo sobre o Evangelho do bem-aventurado Mateus! Se esta cidade me pertencesse, ela afastar-me-ia, pelas preocupações da sua administração, à contemplação das coisas divinas e faria obstáculo à consolação da minha alma”» (Tocco c.XLII)

topo









 






Milagres

Rebocar um barco

«Quando ele estava num barco com muitos irmãos da sua ordem e os marinheiros subiam o rio, e muitos deles, descendo na margem, puxavam o barco com muita dificuldade com ajuda de um cabo, S. Tomás disse, suspirando: “O género humano carece tanto de força que muitos homens mal conseguem puxar este navio, enquanto ele obedeceria ao comando de um só se esse se conformasse à vontade do seu Deus”. E, ao fim de algum tempo, como os marinheiros estivessem fatigados, o santo compadecido diz aos companheiros: “Desçamos e ajudemos um pouco estes marinheiros”. E quando desceram, o mestre, sem nenhuma dificuldade, pôs-se a puxar sozinho, numa certa distância, o barco que muitos antes dificilmente conseguiam deslocar. Então os companheiros, admirando a distância percorrida, espantoso prodígio, puseram-se a rebocar com o mestre» (Tocco c.XXXVIII)

Cura com a ponta da capa

«Conta-se um outro milagre do nosso doutor
«Durante a semana santa, ele tinha pregado sobre a Paixão do Senhor em Roma, na igreja de S. Pedro, e tinha suscitado lágrimas na assistência. No seu sermão no dia da Ressurreição, ele exortou os fiéis a se alegrar com a gloriosa Virgem pela ressurreição de seu Filho, tal como na véspera estavam unidos a ela nos sofrimentos da Paixão.

«Quando ele descia da cátedra depois do sermão, uma mulher, que sofria há muito tempo de perdas de sangue e que nenhum remédio da medicina não conseguia aliviar, tocou na borda da capa do nosso doutor e sentiu-se imediatamente curada do seu mal. Ela seguiu-o até ao convento de Santa Sabina e fez saber ao companheiro do nosso doutor o benefício que tinha recebido. E ele contou-o muitas vezes e a numerosas pessoas em seguida.

«Feliz doutor, que se ilustrou por um milagre semelhante ao do Salvador, pelo qual o doente é curado quando toca na borda do vestido! Assim se manifestavam os grandes méritos da sua alma, pois tanta força se encontrava na sua capa para o testemunhar!» (Tocco c. LIII)

Cura de um cego no túmulo

«Como tantos sinais e provas de santidade tinham acompanhado a morte do nosso doutor, D. João de Ferentino, sub-prior da abadia, que sofria dos olhos a ponto de mal poder ver, fez-se conduzir perto do corpo do nosso santo. Prostrou-se a seus pés com respeito e devoção, e colocou-se contra o cadáver. Depois, colocando a sua cara sobre a cara do santo, rezou a Deus que pelos méritos do doutor ao qual se tinha dedicado nas suas orações, a luz de que tinha sido privado lhe fosse restituída. Imediatamente recuperou a vista, gritando: “Bendito seja Deus, graças aos méritos do santo, a vista foi-me perfeitamente restituída!” Convinha que Deus concedesse a luz àquele que pedia a luz pelos méritos do santo. Porque Ele tinha permitido a este que passasse desde a sua morte para a luz da glória que Ele vive pela eternidade.» (Tocco c. LXI)

Milagre do odor e incorrupção

«Quando abriram o túmulo com instrumentos de ferro, muito tempo depois do dia da sua exumação (...) escapou-se um odor tal que não parecia que se tivesse aberto um túmulo contendo restos humanos, mas um armário contendo perfumes. O odor era tão forte e espalhou-se tanto pelo mosteiro, que todos os monges, acordados por este milagre, precipitaram-se sem mais sinais na sua direcção. Os despojos do doutor inumado foram-lhes mostrados e eles viram que o próprio corpo, assim como o vestuário, a capa e o carapuço, o hábito da sua Ordem, nada tinha mudado.» (Tocco c. LXVI)

«Catorze anos depois da morte do doutor, D. Teodora, sua irmã, pediu a Pedro de Montesangiovanni, abade do mosteiro, que lhe desse, como relíquia, a mão do direita de seu irmão. Aceitando , ele prometeu de lho dar. Foi pois ao túmulo do santo. E logo que a pedra tumular foi levantada com instrumentos de ferro, e o precioso tesouro do corpo do santo descoberto, que um poderoso odor  se libertou, como da primeira vez.  E, como antes, os monges acorreram nesta direcção e descobriram os despojos intactos –quer o corpo, quer o tecido do hábito– à excepção da ponta do nariz que estava um pouco roída depois de todo este tempo.» (Tocco c. LXVIII)

O passarinho sem medo

«O senhor Pedro Sanguineo de Terracina, camareiro de senhor Panolfo de Savelli que inquiria os milagres acontecidos, graças aos méritos de S. Tomás, na abadia de Fossanova e arredores, tinha prometido levar à Curia, em nome dele, o livro que tinha sido composto por esse notário sobre os milagres submetidos a inquérito e de o apresentar ao papa. Mas tomado de um medo bem humano, começou, assustado, a perguntar a si mesmo porque tinha de se expôr assim no mar ao perigo dos piratas e porque se confiaria às ondas incertas das tempestadas marinhas, quando estava em segurança em terra. Quando os méritos do santo, nos quais acreditava, e os medos, que ele temia, se afrontavam no seu coração e no seu espírito perturbado, eis que um pequeno passarinho da floresta entrou com confiança no quarto e pousou no cabide de vestuário. Ele admirou-o muito tempo, surpreendido pela sua segurança, depois aproximou-se e apanhou-o, tal como um animal doméstico que não temia nada. Ficando na sua mão sem a mínima palpitação de medo, o pássaro mostrou que tinha sido enviado divinamente para trazer ao seu espírito perturbado a decisão definitiva, um conselho inspirado, afim de que o homem não temesse enfrentar o que vinha de Deus. Era o que queria significar a confiança do passarinho sem medo.

«Quando ele o foi pousar, tranquilo, na mão do senhor Savelli, ambos admiraram um tal sinal de confiança, vindo do exterior, e tornaram-se ainda mais devotos dos méritos do santo. O mensageiro fez a viagem, muito alegre, e o seu mestre rezou para que ele a fizesse com sucesso.» (Tocco Milagre CXXXIX).

topo



















Visões e Morte


Aparição de S. Pedro e S. Paulo

Este companheiro [Reginaldo de Piperno] revelou um prodígio espantoso acontecido com o nosso doutor. Quando este estava a compôr o Comentário de Isaías, e iluminava, ao escrever essa exposição, os profundos mistérios dos livros do profeta, chegou a uma passagem que não compreendia. Como não conseguia encontrar um sentido literal que o satisfizesse, jejuou e rezou durante vários dias. E obteve, pelas suas instantes súplicas e a devoção das suas orações, que a passagem difícil lhe fosse claramente explicada.

Um dia em que tinha jejuado com grande devoção, o seu companheiro ouviu-o falar durante a noite. Ele não sabia se era com uma ou mais pessoas. Conseguia perceber algumas palavras, mas não compreender o sentido do colóquio. Acabada a conversa, o doutor disse ao seu companheiro: «Reginaldo, meu filho, levanta-te e acende a candeia. Toma o caderno no qual anotaste o comentário de Isaías e prepara-te para retomar a escrita». E escreveu muito tempo o que o doutor lhe ditava com tanta facilidade como se lesse num livro. Ao fim de cerca de uma hora, este diz ao irmão que escrevia. «Vai dormir agora, meu filho. O tempo de repouso está longe de ter acabado». Mas ele, que ardia para conhecer o prodigioso segredo do seu mestre, que a conversa ouvida lhe tinha revelado, pôs-se de joelhos aos pés deste e disse-lhe a chorar. «Não me levantarei daqui antes que me tenhas dito com quem falastes tanto tempo esta noite». E pôs-se a suplicá-lo em nome de Deus. Tomás recusou muitas vezes revelá-lo, dizendo-lhe: «Meu filho, tu não tens necessidade de o saber». Enfim, como ele lhe suplicava de novo, e como o nosso doutor não queria parecer desprezar o nome de Deus, pelo qual o seu companheiro tinha ousado conjurá-lo a falar, ele disse-lhe, lavado em lágrimas: «Meu filho, vistes o meu desgosto nos últimos dias por causa das dúvidas que tinha sobre este texto que acabo de explicar. Tinha pedido a Deus, com muitas lágrimas, que mo fizesse compreender. Eis que esta noite Deus, tendo piedade de mim, me enviou os bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo, que eu tinha tomado como intercessores junto d’Ele, e eles tudo me ensinaram perfeitamente. Mas, da parte de Deus, peço-vos que nada reveleis disto enquanto eu fôr vivo». (Tocco c. XXXI)

topo


Visão e conversa com o crucifixo

Capítulo XXXIV - Do mesmo efeito da oração e elevação, e da revelação que lhe foi feita

«Um prodígio semelhante, mas ainda mais espantoso, foi observado no convento de Nápoles por frei Domingos de Caserta, sacristão, homem de uma grande devoção, de grande dedicação na acção e cuja virtude era reconhecida de todos, que aliás teve outras visões admiráveis.

«Este frade tinha, com efeito, notado que frei Tomás deixava sempre o seu lugar de estudo antes das matinas, para descer à igreja e que, para não ser visto dos outros, se apressava a retornar ao seu quarto quanto tocava o sinal das matinas. Tomado de curiosidade, decidiu um dia observá-lo. Ele entrou por detrás na capela de S. Nicolau, onde se demorou, mergulhado nas suas orações, e vi-o elevar-se nos ares, a dois côvados do chão. Enquanto estava a olhá-lo, cheio de admiração, ouviu de repente, do lugar para onde o doutor se tinha virado para rezar com lágrimas, uma voz emanando do crucifixo que dizia: “Tomás, tu escreveste bem sobre mim. Que receberás tu de mim como recompensa pelo teu trabalho?” (Thoma, bene scripsisti de me, quam recipies a me pro tuo labore mercedem?). Ele respondeu: “Nada, senão Vós, Senhor!” (Domine, non nisi te!).

Ele escrevia então a terceira parte da Suma, sobre a Paixão e a Ressurreição de Cristo. Depois disto, não escreveu muito mais, por causa das maravilhas que Deus lhe tinha revelado de forma admirável. Que Deus lhe tenha perguntado já que recompensa ele desejava receber pelo seu trabalho era um sinal muito claro de que ia em breve deixar de escrever. E a recompensa que ele pediu era mesmo aquela que convinha: repousar-se das suas fadigas na pátria d’Aquele que o tinha encantado de uma tal doçura na vida ao longo do seu trabalho de escrita. Porque ele tinha compreendido muito mais coisas que todos durante a sua vida e foi digno de ver mais claramente que muitos outros quando morreria.» (Tocco c. XXXIV)

topo







Visão e fim da escrita

«Quando celebrava missa na capela de S. Nicolau, Tomás sofreu uma transformação espantosa. Depois dessa missa não escreveu mais nem nunca mais ditou o que quer que fosse e até deixou o seu material de escrita. Estava nessa altura na terceira parte da Suma, no tratado da Penitência. A Reginaldo estupefacto, que não compreendia porque razão ele abandonava a sua obra, o Mestre respondeu simplesmente “Não posso mais”. Voltando à questão um pouco mais tarde, Reginaldo recebe a mesma resposta “Não posso mais. Em comparação com o que vi, tudo o que escrevi me parece palha”» (Bartolomeu de Cápua em Processus canonizationis S. Thomae, Neapoli 87, citado em T. 424. Cf. Tocco c.XLVII)

topo
















Os últimos dias de S. Tomás

Capítulo LVI - Da chamada do dito doutor ao concílio de Lião, da sua doença e do milagre dos peixes

«Depois o nosso doutor partiu para o concílio geral que devia ter lugar em Lião, respondendo ao apelo do papa Gregório X. Levava consigo a obra que tinha composto contra os gregos a pedido do papa Urbano IV, afim de os convencer dos seus erros e da maldade dos sua heresia cismática.

«Estava ele a passar pela Campânia e pelo castelo de Maenza, que pertencia a D. Francisca, sua sobrinha. Ali caiu doente e perdeu o apetite, a ponto que não conseguia ter prazer em nenhum alimento. Como mestre João di Guido, médico de Piperno, lhe perguntou se ele tinha vontade de alguma comida em particular, ele respondeu que não poderia engolir nada, a não ser arenques que tinha comido em França. O médico temia não poder fornecer este remédio ao seu doente, doutor eminente, porque esta espécie de peixe era impossível de encontrar.

«Indo à praça da aldeia, encontrou alguém que chegava de Terracina com um carregamento de sardinhas acabadas de pescar. Quando este homem as colocou no chão para ver se alguns outros peixes não se teriam misturado às sardinhas,  descobriu, no lugar das sardinhas, um cesto cheio de arenques frescos. O médico ficou estupefacto, porque nunca tinha visto tais peixes na região. Além disso o portador dos peixes não deixava de afirmar que eram sardinhas que tinha comprado. Todo contente, fez levar os peixes ao mestre, pensando reconfortá-lo graças ao alimento que desejava, e que lhe tinha sido miraculosamente dirigido. Mas o nosso doutor, na sua sabedoria e consciência –maior nele que nos outros– da grandeza do desígnio divino, viu que um grande milagre tinha sido concedido ao seu apetite pela divina misericórdia. Mas recusou comer os peixes que lhe eram oferecidos, dizendo ao médico: “Mestre, é melhor que eu me entregue à divina Providência, do que ouse comer estes peixes que me foram concedidos pelo poder divino. Desejei-os com demasiada cobiça”.

«Numerosos são os que comeram desses peixes e numerosos são os que, ainda vivos, ouviram o relato do médico. Por isso o milagre permanece conhecido em toda a região.(...)

Capítulo LVII - Da entrada do dito doutor no mosteiro de Fossanova e da profecia do seu óbito

«Depois o nosso doutor, fortalecido por alguns remédios, viu-se em condições de retomar o caminho para Roma. Passando pela abadia de Fossanova, como fosse convidado pelo abade e os monges, e como queria refazer as forças durante alguns dias, entrou nela, acompanhada por escolta de numerosos monges que o tinham vindo acolher.

«Passou primeiro pela igreja, e depois, após se ter prostrado respeitosamente como devia diante do altar, chegou ao claustro. E aí a mão de Deus pousou sobre ele. Tocado pelo espírito de profecia, disse aos numerosos monges que o escutavam e aos frades da sua Ordem –particularmente ao seu companheiro, a tinha hábito de fazer tais revelações: “Reginaldo, meu filho, aqui é o meu repouso pelos séculos dos séculos; aqui habitarei porque o escolhi (cf. S.l. 132 (133), 14)”. (...)

«Depois de ter assim profetizado a sua morte, os assistentes, e particularmente os irmãos da sua Ordem, começaram a lamentar-se. O nosso doutor foi instalado no quarto do abade e, como o exigia a situação, os seus companheiros reunidos prodigalizaram-lhe os seus cuidados com uma piedosa caridade. Como o nosso doutor devia permanecer no leito durante muito dias e o seu estado se agravava, os monges começaram a servi-lo com respeito e humildade. Eles até traziam, aos seus ombros, a madeira da floresta, considerando-se felizes por poder prestar serviço ao santo doutor que, ainda vivo, avançava para o Reino. O nosso doutor, considerado no que lhe dizia respeito e compadecido dos outros, dizia: “Como é que os servidores de Deus me servem a mim, homem, e se dão ao trabalho de trazer de longe tão pesados fardos?”.

«Apesar da sua fraqueza –pensava-se com efeito que ele ia abandonar esta vida, como o tinha profetizado–, alguns monges, capazes de compreender, pediram-lhe que lhes deixasse ao partir uma recordação da sua ciência. Ele expôs-lhes então brevemente o Cânticos dos Cânticos. Assim, no momento em que o seu corpo enfraquecido ia deixar a vida mortal, a sua alma, essa não enfraquecia no acto necessário do ensino, e o estudo da disciplina eclesiástica terminava por um cântico à glória do Céu.
Convinha muito que o nosso doutor, a ponto de sair da prisão do corpo, terminasse o seu estudo da sabedoria pelo Cântico do amor entre o esposo e s esposa. Tal como aplicara o seu estudo a Deus, assim chegou a abraçar o Bem-amado.»

Capítulo LVIII - Do feliz óbito do dito doutor e da sua comunhão do sacrossanto corpo de Cristo

«Depois o nosso doutor começou a sofrer de uma extrema fraqueza. Sabendo que ia deixar esta vida, com uma grande devoção pediu que lhe trouxessem o viático do viajante cristão, o Santíssimo Sacramento do corpo de Cristo. O abade e os monges trouxeram-nO com piedade e respeito. Então, estendido por terra, fraco de corpo, mas forte de espírito, foi ao encontro do seu Senhor, deitando lágrimas. Depois de lhe terem apresentado o Santíssimo corpo do Senhor, perguntaram-lhe, como se faz a todo o cristão para se assegurar da sua fé neste sacramento essencial, se ele acreditava que esta hóstia consagrada era o verdadeiro corpo do Filho de Deus, que nasceu das entranhas da Virgem Maria e foi suspenso do patíbulo da cruz, que morreu por nós e ressuscitou ao terceiro dia. Ele respondeu com uma voz clara, com vibrante devoção, e deitando lágrimas: “Se nesta vida pode haver sobre este sacramento uma ciência maior que aquela que nos é dada pela fé, nesta eu respondo que sei verdadeiramente, e com toda a certeza que este Deus é verdadeiramente homem, Filho de Deus Pai e da Virgem mãe. Creio de todo o meu coração e confesso pela minha boca o que o padre afirmou acerca deste Santíssimo Sacramento.” Pronunciou então as palavras cheias de piedade, que os presentes não puderam reter e que foram, segundo dizem, estas:

 


Adoro te devote

Adoro te devote, latens Deitas,
Quæ sub his figuris vere latitas:
Tibi se cor meum totum subiicit,
Quia te contemplans totum deficit.
Visus, tactus, gustus in te fallitur,
Sed auditu solo tuto creditur.
Credo quidquid dixit Dei Filius:
Nil hoc verbo Veritatis verius.
In cruce latebat sola Deitas,
At hic latet simul et humanitas;
Ambo tamen credens atque confitens,
Peto quod petivit latro pænitens.
Plagas, sicut Thomas, non intueor;
Deum tamen meum te confiteor.
Fac me tibi semper magis credere,
In te spem habere, te diligere.
O memoriale mortis Domini!
Panis vivus, vitam præstans homini!
Præsta meæ menti de te vivere
Et te illi semper dulce sapere.
Pie pellicane, Iesu Domine,
Me immundum munda tuo sanguine.
Cuius una stilla salvum facere
Totum mundum quit ab omni scelere.
Iesu, quem velatum nunc aspicio,
Oro fiat illud quod tam sitio;
Ut te revelata cernens facie,
Visu sim beatus tuæ gloriæ.
Amen.

Adoro-te devotamente, divindade escondida,
Que sob esta figura verdadeiramente Te escondes:
A Ti o meu coração se submete,
Porque te contemplando tudo falta.
Visão, tacto e paladar em Ti falham,
Só o ouvido tudo crê.
Creio em tudo o que disse o Filho de Deus:
A verdade da Verdade é melhor recebida.
Na cruz escondia-se só a divindade,
Mas aqui esconde-se também a humanidade;
No entanto ambos acredito e confesso,
Peço o que pedia o ladrão penitente.
Chagas, como Tomé viu, não vejo,
Mas, meu Deus, em Ti confio.
Faz-me sempre mais em Ti acreditar,
Em Ti esperar, Te amar.
Oh memorial da morte do Senhor!
Pão vivo, vida dás ao homem!
Concede à minha alma de Ti viver,
Pelo Teu sabor sempre ser alimentado.
Senhor Jesus, pio pelicano,
A mim imundo lava o Teu sangue.
Do qual uma só gota chega para salvar
Todo o mundo de todos os pecados.
Jesus, que velado agora contemplo,
Rezo para que se faça o que tanto anseio;
Que a Tua face revelada eu olhe.
E bem-aventurado veja a Tua glória.
Amen.

E recebendo este Sacramento, disse:
Oração à hora da morte

«Sumo te pretium redemptionis anime mee, sumo te viaticum peregrinationis mee, pro cuius amore studui, vigilavi et laboravi; te predicavi, te docui, nichil umquam contra te dixi, sed si quid dixi, ignorans dixi nec sum pertinax in sensu meo; sed si quid male dixi de hoc sacramento et aliis, totum relinquo correctioni sancte Romane Ecclesie, in cuius obedientia nunc transeo ex hac vita»

«Recebo-Te a Ti, preço da redenção da minha alma. Recebo-Te a Ti, viático da minha peregrinação, por cujo amor estudei, vigiei, trabalhei, preguei e ensinei. Nunca disse nada contra Ti. Se o fiz, foi por ignorância, e não sou persistente na minha opinião. Mas o que de mal eu disse deste sacramento ou de outras coisas, tudo entrego à correcção da santa Igreja Romana, de cuja obediência eu nunca me desviei nesta vida»

«Diz-se do nosso doutor que, no momento da elevação do corpo de Nosso Senhor, tinha o hábito de dizer: “Vós Cristo, rei da glória, vós sois o filho eterno do Pai ...” até ao fim [do hino Te Deum], com grande devoção e deitando lágrimas.«Depois de ter recebido o sacramento, pediu, com uma devoção que só podia acrescentar ao seu mérito e dar aos outros exemplo, que lhe fosse trazido no dia seguinte o óleo da santa unção, o sacramento dos moribundos, afim que o Espírito desta unção, que o tinha enviado para guiar os seus companheiros, o conduzisse ao Céu a que aspirava. Pouco tempo depois de o ter recebido, entregou ao Senhor a sua alma, que ele tinha conservado tão santa quanto a tinha recebido. Ela deixou o corpo tão alegremente que parecia viver maravilhosamente fora deste.

«Feliz doutor que correu tão ligeiro no estádio, que travou corajosamente o combate e que obteve uma vitória triunfal! Ele merecia dizer como o Apóstolo: “Combati até ao fim o bom combate, acabei a minha corrida, guardei fé. E agora eis que está preparada para mim a coroa de glória” (2Tm 4, 7-8), coroa que ele era verdadeiramente digno de receber pelo seu estudo da doutrina inspirada!»(Tocco c. LVI-LVIII)

topo