61- Fora da Igreja não há salvação

«A realidade do sacramento é a unidade do corpo místico de Cristo, fora do qual não pode haver salvação, pois não se pode entrar na salvação fora da Igreja, como no tempo do dilúvio também não havia sal vação fora da Arca, que representa a Igreja como di z 1Pe 3, 20-21.» (ST III 73, 3)

84- Três Jerusaléns

«O olho de David considera duas coisas: a primeira estava próxima porque ela era visual; a outra estava afastada porque revestia um sentido figurado.

«A primeira, porque lemos que David construía os muros de Jerusalém, mas não os tinha completado, e que uma vez terminados esses muros, o templo devia ser construído. É por isso que ele diz: “pela vossa bondade, tratai Sião com benevolência, reconstruí os muros de Jerusalém ”. E uma vez reconstruídos os muros, o templo seria edificado. “Então vos agradareis dos sacrifícios devidos, etc ”. Tudo isto respeitava ao aspecto material.

«Mas se nos referirmos ao sentido figurado, então é preciso dizer que há duas Jerusaléns. A celeste: “a Jerusalém do alto é livre, é ela que é a nossa mãe ” (Ga 4, 26). A outra é a Igreja presente, à imagem desta: “Eu vi a Cidade santa, a nova Jerusalém ” (Ap 21, 2). E cada uma tem os seus próprios muros. Os muros da Jerusalém celeste são as defesas da eternidade e da imortalidade que os santos obtiveram graças a Cristo: “Aquele que ressuscitou a Cristo Jesus dará também a vida a vossos corpos mortais ” (Rm 8, 11). Os muros da Jerusalém presente, quer dizer da Igreja, são os sacramentos da graça e os doutores: “Vós não vos elevastes contra o adversário, vós não vos opusestes como muralha para a casa de Israel, a fim de aguentar firme o combate no dia do Senhor” (Ez 13, 5)» (Super Salmos 50, vers. 20)

166- O cristão é de Cristo

«Um cristão é alguém que é de Cristo. Diz-se que alguém é de Cristo não só por ter Fé em Cristo, mas também porque o Espírito de Cristo nele actua para fazer actos virtuosos, de acordo com Rom 8, 9: “quem não tem o Espírito de Cristo não lhe pertence” e também porque, pela imitação de Cristo, ele está morto para os pecados, como está escrito “os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e os seus desejos” (Gl 5, 24). Assim, sofrer como um cristão é não apenas sofrer pela confissão da sua Fé, o que se faz por palavras, mas também sofrer por fazer alguma boa obra , ou por evitar qualquer pecado, por causa de Cristo, porque tudo isto cai sob o testemunho da Fé» (ST II-II 124, 5, 1)

195- Igreja

«Sobre ela deve saber-se que “igreja” é o mesmo que “assembleia”. Por isso a Santa Igreja é o mesmo que a assembleia dos fiéis, e cada cristão é um membro da mesma Igreja, da qual é dito: “aproximai-vos de mim, ignorantes, entrai para a escola da disciplina” (Eclo 51, 31). A Igreja tem quatro condições essenciais: que seja una, santa, católica e forte e firme

«Quanto ao primeiro, deve ser dito que a Igreja é una. Embora vários hereges tenham fundado várias seitas, elas não pertencem à Igreja, pois não passam de outras tantas divisões. Dela é dito: “Uma só é a minha pomba; a minha perfeita é única” (Ct 6, 8) A unidade da Igreja provém de três fontes:

«Primeiro, a unidade da fé, porque todos os cristãos que pertencem ao corpo da Igreja acreditam na mesma doutrina. “Exorto-vos ... a que sede todos unânimes no falar, e não haja entre vós divisões” (1Cor 1, 10). E também: “Um só Senhor, uma só fé, um só baptismo” (Ef 4, 5)

«Segundo, a unidade da esperança, porque todos são fortalecidos na esperança de chegar à vida eterna. Por isso o Apóstolo diz: “Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados por vossa vocação para uma só esperança.” (Ef 4, 4)

«Terceiro, a unidade da caridade, porque todos são unidos no amor de Deus, e uns aos outros no amor mútuo: “Eu lhes dei a glória que Tu Me destes, para que sejam um, como Nós somos um” (Jo 17, 22). (...) Ninguém pode ser indiferente à Igreja, ou permitir-se ser desligado ou expulso dela; pois existe apenas uma Igreja na qual os homens são salvos, tal como fora da Arca de Noé ninguém podia ser salvo.

«No que respeita ao segundo ponto, a santidade, (...) os fiéis desta Igreja são feitos santos por quatro motivos:
«Primeiro, tal como uma igreja é limpa materialmente quando é consagrada, também os fiéis são lavados no sangue de Cristo: “Jesus Cristo ... que nos amou e nos lavou dos nossos pecados no Seu próprio sangue” (Ap 1, 5) E também: “Para santificar o povo pelo seu próprio sangue, Ele sofreu do lado de fora da porta” (Hb 13, 12)

«Segundo, tal como existe a unção da igreja, também os fiéis são ungidos com uma unção espiritual para serem santificados. De outra forma não seriam cristãos, pois Cristo significa Ungido. A unção é a graça do Espírito Santo: “Aquele que nos fortalece convosco em Cristo e nos dá a unção é Deus” (2Cor 1, 21) E também: “Sois santificados ... em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1Cor 6, 11).

«Terceiro, os fiéis são santificados pela Trindade que habita na Igreja, pois onde quer que Deus habite, esse lugar é santo. “O lugar que pisas é sagrado” (Js 5, 16 e Gn., 28, 16) E também: “A santidade é o adorno da Tua casa, Oh Senhor” (Sl. 93(92), 5.).

«Finalmente, os fiéis são santificados porque Deus é invocado na Igreja: “Mas tu estás no meio de nós, Senhor, e o Teu nome é invocado sobre nós. Não nos abandoneis!” (Jr 14, 9) Tenhamos pois atenção, vendo-nos assim santificados, para que a nossa alma, que é o templo de Deus, não seja suja pelo pecado: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós ? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá” (1Cor 3, 16-17).

«A Igreja é Católica, ou seja, universal, por três motivos

«Primeiro, a Igreja é universal no lugar, porque ela está em todo o mundo. (...): “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15) (...) A Igreja tem três partes: uma está na terra, a outra no céu e a terceira no purgatório.

«Segundo, a Igreja é universal no que toca às condições da humanidade, pois nenhuma excepção é feita, nem senhor nem escravo, nem homem nem mulher: “Não há escravo nem livre, não há homem nem mulher” (Gl 3, 28)

«Terceiro, a Igreja é universal no tempo. Alguns disseram que a Igreja existirá só até certa altura. Mas isto é falso, pois a Igreja começou a existir no tempo de Abel e durará até ao fim do mundo: “Eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt 28, 20). Ou melhor, até depois do fim do mundo, pois ela continuará a existir no céu.

«Quanto ao último ponto, Igreja é firme. Uma casa é dita ser firme se tem alicerces sólidos. O alicerce principal da Igreja é Cristo: “Quanto ao fundamento, ninguém pode colocar outro diverso do que foi posto: Jesus Cristo." (1Cor 3, 11). Os alicerces secundários, porém, são os Apóstolos e o seu ensino. Por isso, a Igreja é firme. (...)

«A firmeza de uma casa é evidente se, quando ela é violentamente atingida, não cai. A Igreja, do mesmo modo, não pode ser destruída, nem pela perseguição nem pelo erro. De facto, a Igreja cresce durante as perseguições (...). No que toca ao erro, quanto mais erros surgirem, mais certamente a verdade aparecerá (...). Nem será destruída a Igreja pelas tentações dos demónios. Pois ela é como uma torre para a qual fogem todos os que fazem guerra ao diabo (...). A Igreja de Pedro floresce na fé e está livre do erro. Isto, no entanto, não é para admirar, pois o Senhor disse a Pedro: “Eu, porém, orei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. Quando, porém te converteres, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 32)» (In Symbolum Apostolorum, 9)

196- Poder da Igreja de hoje

«Não é legítimo [à Igreja] conceder dispensa da lei natural (...) Isto é verdade no que se refere a coisas pertencendo à lei natural, e às que são essenciais aos sacramentos e à fé. Mas naquelas que devem a sua instituição aos Apóstolos, como a Igreja tem o mesmo poder hoje como então de estabelecer ou eliminar, ela pode conceder dispensas através daquele que detém o primado.» (ST Sup. 66, 5, 2)