126- Graça e liberdade

«Deve ser observado que mesmo quem tem a graça, pede a Deus que possa perseverar no bem. Tal como a vontade livre não é suficiente para este efeito, a perseverança no bem, sem a ajuda externa de Deus, também um hábito infuso não é suficiente para essa finalidade. Porque os hábitos que são infusos por Deus em nós, no estado presente desta vida não removem completamente do livre-arbítrio a sua inclinação para o mal, embora dêem ao livre-arbítrio uma certa estabilidade no bem. Por isso, quando dizemos que o homem necessita a ajuda da graça para a perseverança final, não queremos dizer que, para além da graça habitual anteriormente infusa em ordem às boas obras, ele necessite de uma outra graça para poder perseverar. Mas queremos dizer que, mesmo quando ele tem todos os hábitos gratuitamente infundidos, o homem ainda necessita da assistência da divina providência, que o governa externamente.» (CG III 155)

127- Graça, liberdade e mérito

«Devemos notar que, embora um homem seja incapaz de, pelo movimento do seu livre-arbítrio, merecer ou adquirir a graça divina, ele pode no entanto impedir-se de a receber. Porque está escrito de alguns que disseram (Job 21, 14) “Afasta-te de nós, não desejamos o conhecimento dos Teus caminhos” e (Job 24, 13) “Eles aborrecem a luz”. E como está no poder da vontade livre impedir ou não impedir a recepção da graça divina, aquele que coloca um obstáculo no caminho da recepção da graça é merecedor de censura. Porque Deus, pelo seu lado, está preparado para dar a graça a todos, porque Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tim 2, 4). Mas só são privados da graça aqueles que colocam a si mesmos obstáculos à graça. Assim também, aquele que fecha os olhos quando o sol brilha é censurado se ocorre um acidente, embora ele só seja capaz de ver porque a luz do sol lho permite» (CG III 159)