161- Necessidade da Incarnação
Seria necessário à restauração do género humano que Deus incarnasse?
«Respondo dizendo que uma coisa é dita ser necessária para certo fim de dois modos. Primeiro, quando o fim não pode ser obtido sem ela; como a comida é necessária para a preservação da vida humana. Em segundo lugar, quando o fim é atingido melhor e mais convenientemente com ela, como um cavalo é necessário para uma viagem. Do primeiro modo não era necessário que Deus incarnasse para a restauração da natureza humana. Pois Deus no Seu poder omnipotente podia ter restaurado a natureza humana de muitas outras formas. Mas do segundo modo era necessário que Deus incarnasse para a restauração da natureza humana. Assim S. Agostinho diz (De Trin. xii, 10): “Mostraremos que não faltavam outros meios a Deus, a cujo poder todas as coisas estão igualmente sujeitas; mas que não havia meio mais adequado para curar a nossa miséria”
«E tal pode ser visto em relação à “promoção do bem no homem”.
«Primeiro no que toca à fé, que se torna mais certa ao acreditar no próprio Deus que fala. Por isso S. Agostinho diz (De Civ. Dei xi, 2): “Para que o homem pudesse dirigir-se com mais segurança para a verdade, a própria Verdade, o Filho de Deus, tendo assumido a natureza humana, estabeleceu e fundou a fé.”
«Em segundo lugar, no que toca à esperança, que é pela Incarnação muito fortalecida. Assim S. Agostinho diz (De Trin. xiii): “Nada era tão necessário para aumentar a nossa esperança do que mostrar-nos quão profundamente Deus nos amava. E que nos daria uma prova mais forte disto, do que o Filho de Deus se ter feito nosso companheiro na natureza humana ?”
«Em terceiro lugar, no que respeita à caridade, que é muito inflamada por ela. Pelo que S. Agostinho diz (De Catech. Rudib. iv): “Que maior causa há para a vinda do Senhor do que mostrar o amor de Deus por nós ?” E depois acrescenta: “Se fomos lentos a amar, ao menos apressemo-nos a retribuir o amor.”
«Em quarto lugar, no que toca à recta acção, na qual Ele nos dá um exemplo. Por isso nos diz S. Agostinho num sermão (xxii de Temp.): “O homem, que podia ser visto, não devia ser seguido; mas Deus, que devia ser seguido, não podia ser visto. Por isso, para que fosse mostrado ao homem o que podia ser visto pelo homem e a Quem o homem devia seguir, Deus se fez homem.”
«Em quinto lugar, no que toca à plena participação na divindade, que é a verdadeira felicidade do homem e a finalidade da vida humana; e que nos é concedida pela humanidade de Cristo. Pois diz S. Agostinho num sermão (xiii de Temp.): “Deus fez-se homem para que o homem pudesse ser feito Deus.”
«E a Incarnação também foi útil para a nossa “remoção do mal”
«Primeiro porque o homem é ensinado a não preferir o diabo a si mesmo, nem a honrá-lo a ele que é o autor do pecado. Diz assim S. Agostinho (De Trin. xiii, 17): “Dado que a natureza humana é tão unida a Deus a ponto de se tornar uma única pessoa, que esses espíritos orgulhosos não ousem a antecipar-se ao homem, pois não têm corpos.”
«Em segundo lugar, porque somos por ela ensinados quão grande é a dignidade do homem, e assim não a sujemos com o pecado. Por isso S. Agostinho diz (De Vera Relig. xvi): “Deus mostrou-nos o alto lugar que a natureza humana ocupa entre as criaturas, na medida em que Ele aparece aos homens como homem verdadeiro.” E o papa Leão diz num sermão sobre o Natal (xxi): “Reconhece, oh cristão, a tua dignidade; e sendo feito companheiro da natureza divina, recusa-te a voltar pelas más acções à tua antiga miséria.”
«Em terceiro lugar, porque “de forma a abandonar a presunção do homem, a graça de Deus foi confiada em Jesus Cristo, sem nenhum mérito nosso anterior”, como diz S. Agostinho (De Trin. xiii, 17).
«Em quarto lugar, “o orgulho do homem, que é o maior obstáculo no nosso caminho para Deus pode ser curado por tão grande humildade," como diz Agostinho no mesmo local.
«Em quinto lugar, de forma a libertar os homens da escravidão do pecado, como diz S. Agostinho (De Trin. xiii, 13), “devia ser feito de forma que o diabo fosse vencido pela justiça do homem Jesus Cristo,” e isto foi feito por Cristo nos ter resgatado. Ora um simples homem não poderia resgatar toda a raça humana, e não cabia a Deus resgatar; por isso devia Jesus Cristo ser homem e Deus. Pelo que o papa Leão diz no mesmo sermão: “A fraqueza é assumida pela força, a baixeza pela majestade, a mortalidade pela eternidade, para que um único Mediador entre Deus e o homem pudesse morrer como um e pudesse ressuscitar como o outro –este era o remédio que nos era conveniente. Se Ele não fosse Deus, não nos teria trazido o remédio; e se não fosse homem, não nos teria dado o exemplo.”
«E há muitas outras vantagens, acima da compreensão do homem.» (ST III 1, 2) |