151- Cristo e a Redenção

«Porque o nosso Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, para “salvar o Seu povo dos seus pecados” (Mt 1, 21), como anunciou o Anjo, se mostrou na Sua Pessoa ser o caminho da verdade, pelo qual nós possamos atingir a bem-aventurança da vida eterna pela ressurreição, é necessário, para completar todo o assunto da Teologia, e depois de considerar o fim último da vida humana e as virtudes e vícios, que se seguisse a consideração do próprio Salvador de todos e dos benefícios concedidos por Ele ao género humano.» (ST III prólogo)

160- Espanto perante a Paixão

«Isto, que Cristo tenha morrido por nós, é um facto tão tremendo que o nosso intelecto mal o consegue compreender, porque não cai de nenhuma forma na nossa compreensão normal. É isso que o Apóstolo diz “vou fazer, ainda em vossos dias, uma obra tal que não acreditaríeis, se alguém vo-la narrasse” (Act 13, 41) e “realizo, em vossos dias, uma obra, que vós não acreditaríeis se fosse contada” (Hab 1, 5). A Graça de Deus é tão grande e o seu amor por nós é tal que não podemos compreender o que Ele fez por nós.» (In Symbolum Apostolorum, 4)

161- Necessidade da Incarnação

Seria necessário à restauração do género humano que Deus incarnasse?

«Respondo dizendo que uma coisa é dita ser necessária para certo fim de dois modos. Primeiro, quando o fim não pode ser obtido sem ela; como a comida é necessária para a preservação da vida humana. Em segundo lugar, quando o fim é atingido melhor e mais convenientemente com ela, como um cavalo é necessário para uma viagem. Do primeiro modo não era necessário que Deus incarnasse para a restauração da natureza humana. Pois Deus no Seu poder omnipotente podia ter restaurado a natureza humana de muitas outras formas. Mas do segundo modo era necessário que Deus incarnasse para a restauração da natureza humana. Assim S. Agostinho diz (De Trin. xii, 10): “Mostraremos que não faltavam outros meios a Deus, a cujo poder todas as coisas estão igualmente sujeitas; mas que não havia meio mais adequado para curar a nossa miséria”

«E tal pode ser visto em relação à “promoção do bem no homem”.

«Primeiro no que toca à fé, que se torna mais certa ao acreditar no próprio Deus que fala. Por isso S. Agostinho diz (De Civ. Dei xi, 2): “Para que o homem pudesse dirigir-se com mais segurança para a verdade, a própria Verdade, o Filho de Deus, tendo assumido a natureza humana, estabeleceu e fundou a fé.”

«Em segundo lugar, no que toca à esperança, que é pela Incarnação muito fortalecida. Assim S. Agostinho diz (De Trin. xiii): “Nada era tão necessário para aumentar a nossa esperança do que mostrar-nos quão profundamente Deus nos amava. E que nos daria uma prova mais forte disto, do que o Filho de Deus se ter feito nosso companheiro na natureza humana ?”

«Em terceiro lugar, no que respeita à caridade, que é muito inflamada por ela. Pelo que S. Agostinho diz (De Catech. Rudib. iv): “Que maior causa há para a vinda do Senhor do que mostrar o amor de Deus por nós ?” E depois acrescenta: “Se fomos lentos a amar, ao menos apressemo-nos a retribuir o amor.”

«Em quarto lugar, no que toca à recta acção, na qual Ele nos dá um exemplo. Por isso nos diz S. Agostinho num sermão (xxii de Temp.): “O homem, que podia ser visto, não devia ser seguido; mas Deus, que devia ser seguido, não podia ser visto. Por isso, para que fosse mostrado ao homem o que podia ser visto pelo homem e a Quem o homem devia seguir, Deus se fez homem.”

«Em quinto lugar, no que toca à plena participação na divindade, que é a verdadeira felicidade do homem e a finalidade da vida humana; e que nos é concedida pela humanidade de Cristo. Pois diz S. Agostinho num sermão (xiii de Temp.): “Deus fez-se homem para que o homem pudesse ser feito Deus.”

«E a Incarnação também foi útil para a nossa “remoção do mal”

«Primeiro porque o homem é ensinado a não preferir o diabo a si mesmo, nem a honrá-lo a ele que é o autor do pecado. Diz assim S. Agostinho (De Trin. xiii, 17): “Dado que a natureza humana é tão unida a Deus a ponto de se tornar uma única pessoa, que esses espíritos orgulhosos não ousem a antecipar-se ao homem, pois não têm corpos.”

«Em segundo lugar, porque somos por ela ensinados quão grande é a dignidade do homem, e assim não a sujemos com o pecado. Por isso S. Agostinho diz (De Vera Relig. xvi): “Deus mostrou-nos o alto lugar que a natureza humana ocupa entre as criaturas, na medida em que Ele aparece aos homens como homem verdadeiro.” E o papa Leão diz num sermão sobre o Natal (xxi): “Reconhece, oh cristão, a tua dignidade; e sendo feito companheiro da natureza divina, recusa-te a voltar pelas más acções à tua antiga miséria.”

«Em terceiro lugar, porque “de forma a abandonar a presunção do homem, a graça de Deus foi confiada em Jesus Cristo, sem nenhum mérito nosso anterior”, como diz S. Agostinho (De Trin. xiii, 17).

«Em quarto lugar, “o orgulho do homem, que é o maior obstáculo no nosso caminho para Deus pode ser curado por tão grande humildade," como diz Agostinho no mesmo local.

«Em quinto lugar, de forma a libertar os homens da escravidão do pecado, como diz S. Agostinho (De Trin. xiii, 13), “devia ser feito de forma que o diabo fosse vencido pela justiça do homem Jesus Cristo,” e isto foi feito por Cristo nos ter resgatado. Ora um simples homem não poderia resgatar toda a raça humana, e não cabia a Deus resgatar; por isso devia Jesus Cristo ser homem e Deus. Pelo que o papa Leão diz no mesmo sermão: “A fraqueza é assumida pela força, a baixeza pela majestade, a mortalidade pela eternidade, para que um único Mediador entre Deus e o homem pudesse morrer como um e pudesse ressuscitar como o outro –este era o remédio que nos era conveniente. Se Ele não fosse Deus, não nos teria trazido o remédio; e se não fosse homem, não nos teria dado o exemplo.”

«E há muitas outras vantagens, acima da compreensão do homem.» (ST III 1, 2)

162- Conveniência da Paixão                        

Será que a Paixão de Cristo era o meio mais conveniente para a libertação do homem?

«Respondo dizendo que um meio é tanto mais adequado a um fim quanto obtém para esse fim um maior número de vantagens. Mas, pelo facto de o homem ser libertado pela Paixão de Cristo, muitas outras vantagens, para além da redenção dos pecados, foram conseguidas para a sua salvação.

«(1) Por ela o homem conhece quanto Deus o ama, e por isso é levado a amá-Lo. E é nesse amor que consiste a perfeição da salvação humana. Por isso o Apóstolo diz (Rm 5, 8) “A prova de que Deus nos ama é que Cristo, quando ainda éramos pecadores, morreu por nós”.

«(2) Pela Paixão, Cristo deu-nos um exemplo de obediência, de humildade, de constância, de justiça e das outras virtudes necessárias à salvação. Por isso está escrito (1Pe 2, 21) “Cristo sofreu por nós, dando-nos o exemplo, para que sigamos os seus passos”

«(3) Cristo, pela sua Paixão não apenas libertou o homem, mas também lhe mereceu a graça da justificação e a glória da beatitude, como diremos adiante.

«(4) Pela Paixão, o homem compreende que é obrigado a manter-se puro de todo o pecado, quando pensa que foi resgatado pelo sangue de Cristo, como diz S. Paulo (1Co 6, 20) “Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate. Portanto, glorificai a Deus no vosso corpo”

«(5) A Paixão conferiu ao homem uma dignidade mais alta. Vencido e enganado o homem pelo diabo, um homem devia vencê-lo por sua vez; e como o homem tinha merecido a morte, um homem devia, morrendo, vencer a morte. Por isso S. Paulo nos diz (1Co 15, 57) “Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo”
«Por todas estas razões, valia mais que fossemos libertados pela Paixão de Cristo do que pela simples vontade de Deus” (ST III 46, 3)

163- Sentido da Cruz

«É preciso dizer que a morte de Cristo pode ser abordada de três pontos de vista. Primeiro sobre o ponto de vista da razão mesma de morte. Está escrito no livro da Sabedoria: “Deus não fez a morte” (Sb 1, 13), quer dizer, na natureza humana, mas ela foi introduzida pelo pecado. É por isso que a morte de Cristo, vista sob o ponto de vista da razão comum, não foi aceite por Deus na intenção de reconciliar, porque Deus “não se alegra na perdição dos vivos” (Sb 1, 13).

«Depois, a morte de Cristo pode ser vista segundo o acto daqueles que matam, o que desagrada soberanamente a Deus. É por isso que Pedro lhes diz: “Vós acusastes o Santo e o Justo e exigistes que fosse libertado para vós um assassino” (Act 3, 14). A morte de Cristo, assim considerada, não pode pois ser uma causa de reconciliação, mas antes uma causa de indignação.

«Enfim, ela pode ser vista enquanto procede da vontade do Cristo sofredor, vontade que foi disposta a suportar a morte pela sua obediência ao Pai: “Ele humilhou-se a si próprio, fazendo-se obediente” ao Pai, “até à morte, e morte de cruz” (Fl 2, 8), e também pela sua caridade para com os homens. “Cristo amou-nos e se entregou por nós em oblação a Deus, como oferta e sacrifício de odor suave” (Ef 5, 2). E assim a morte de Cristo foi meritória e satisfatória pelos nossos pecados, e foi aceite por Deus a ponto que ela chega para a reconciliação de todos os homens, mesmo daqueles que mataram Cristo, alguns deles tendo sido salvos pelos sua oração, quando disse: “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34)» (Super Romanos c.5, lect. 2)

164- Escravidão e libertação do homem

«No que toca ao poder que o diabo exercia sobre os homens antes da paixão de Cristo, três pontos de vista entram em linha de conta. Primeiro, o do homem que, pelo seu pecado mereceu ser deixado ao poder do pecado, cuja tentação o tinha dominado. Segundo, o ponto de vista de Deus que o homem tinha ofendido ao pecar, e que em virtude da justiça, o tinha abandonado ao poder do diabo. Terceiro, o do demónio que, pela sua vontade muito perversa, impedia o homem de atingir a sua salvação.

«Ora, primeiro, o homem foi libertado do poder do demónio pela paixão de Cristo, na medida em que esta era a causa da remissão dos pecados. Segundo, ela libertou-nos do poder do demónio, na medida em que nos reconciliou com Deus. Terceiro, ela libertou-nos do poder do demónio na medida em que este ultrapassou a medida do poder que Deus lhe tinha concedido, ao conspirar para a morte de Cristo. que não merecera a morte, porque Ele era sem pecado.» (ST III 49, 2).

165- Necessidade da Ressurreição

Seria necessário que Cristo ressuscitasse?

«Respondo que era necessário que Cristo ressuscitasse, podemos vê-lo por cinco razões.

«(1) Para glorificação da justiça divina. É próprio exaltar aqueles que se humilham por causa de Deus, como se diz em S. Lucas (1, 52) “Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes”. Como Cristo se tinha humilhado até à morte de cruz por caridade e por obediência a Deus, era adequado que Deus o exaltasse até à ressurreição gloriosa. Foi da Sua pessoa que o salmista disse (139(138), 2): “Tu sabes” quer dizer, aprovas, “quando me sento”, ou seja, a minha humilhação e a minha paixão, “e quando me levanto”, quer dizer a minha glorificação na ressurreição, como diz a Glosa.

«(2) Para instrução da nossa fé. Pela ressurreição, a nossa fé na divindade de cristo é confirmada pois, diz S. Paulo (2Co 13, 4) “Ele foi crucificado pela sua fraqueza, mas está vivo pelo poder de Deus”. E também está escrito (1Co 15, 14) “Se Cristo não ressuscitou a nossa pregação é vazia e também é vã a vossa fé”. E o Salmista afirma (30(29), 10) “Que ganhas Tu no meu sangue”, quer dizer, com a efusão do meu sangue, “com a minha descida” como por uma escada de males, “à corrupção”. Como se dissesse: não há nenhuma utilidade. “Se, com efeito, eu não ressuscitar logo, e se o meu corpo se corromper”, explica a Glosa, “não anunciarei a ninguém, não ganharei ninguém”.

«(3) Para o levantar da nossa esperança. Ao ver ressuscitar Cristo, que é a nossa cabeça, esperamos ressuscitar também. Assim está escrito (1Co 15, 12) “Se nós pregamos que Cristo ressuscitou dos mortos, como é que alguns de vós dizem que não há ressurreição dos mortos ?” E Job (19, 25) assegurava “Eu sei”, pela certeza da fé, “que o meu Redentor”, Cristo, “está vivo”, ressuscitado de entre os mortos “e que no último dia me levantarei do pó ... tal é a esperança que está fixada no meu coração”.

«(4) Para a formação moral dos fiéis. S. Paulo disse (Rm 6, 4) “Assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da glória do Pai, assim também nós possamos caminhar numa vida nova”, e adiante (9-11) “Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre ... assim também considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus”

«(5) Para completar a obra da nossa salvação. Se, ao morrer, Ele suportou os nossos males afim de nos livrar deles, ao ressuscitar Ele foi glorificado para nos conduzir ao bem segundo esta palavra (Rm 4, 25) “Ele entregou-se pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação”» (ST III 53, 1)