23- Cristo é a salvação

«O que liberta a raça humana da perdição é necessário para a salvação do homem. Mas o mistério da Incarnação é isso mesmo, de acordo com Jo 3,16 “Deus amou de tal modo o mundo que entregou o Seu Filho único para todo o que n’Ele crê não pereça mas tenha a vida eterna” Assim era necessário para a salvação do homem que Deus incarnasse» (ST III 1, 2, sc)

24- Cristo é a cabeça de todos os homens

«Se considerarmos em geral todas as épocas do mundo, Cristo é a cabeça de todos os homens, mas em graus diferentes: 1º primeiro e antes de tudo, ele é a cabeça daqueles que lhe estão unidos em acto pela glória; 2º Ele é a cabeça daqueles que lhe estão unidos em acto pela caridade; 3º daqueles que lhe estão unidos em acto pela fé; 4º daqueles que lhe estão unidos em potência mas que, nos desígnios da predestinação divina, o serão um dia em acto; 5º Ele é cabeça daqueles que lhe estão unidos em potência e que não o serão jamais em acto, como os homens que vivem neste mundo e não são predestinados. Estes, quando deixarem esta vida, deixarão inteiramente de ser membros de Cristo, pois não estão mais em potência de Lhe serem unidos» (ST III 8, 3)

125- Liberdade de Cristo

«A vontade de Cristo, embora determinada ao bem, não estava determinada a este ou aquele bem. Por isso pertencia a Cristo fazer uma escolha pelo seu livre-arbítrio, como fazem os bem-aventurados» (ST III 18, 4, 3)

156- Natureza divina e humana de Cristo

«Como está dito do Filho de Deus que Ele nasceu, sofreu, foi sepultado e ressuscitou, não na Sua natureza divina mas na Sua natureza humana, também está dito que Ele subiu ao Céu, não na Sua natureza divina, mas na Sua natureza humana. Na Sua natureza divina, Ele nunca deixou o Céu, como sempre esteve presente em todo o lado. Ele indica isto mesmo ao dizer “Nenhum homem subiu ao Céu senão Aquele que desceu do Céu, o Filho do homem, que está no Céu” (Jo 3, 13). Por isto é-nos dado a entender que Ele desceu do Céu ao assumir uma natureza terrena, mas de tal forma que Ele continuou a permanecer no Céu.» (Compendium I 240)

157- Cristo é Filho de Deus

«O próprio Cristo Jesus em muitas ocasiões chamou a Deus seu Pai, e a Si mesmo Filho de Deus. Quer os Apóstolos, quer os Padres colocaram nos artigos da Fé que Cristo é o Filho de Deus, dizendo “E (também acredito) em Jesus Cristo, Seu (i.e. de Deus) único Filho”.

«Houve no entanto alguns heréticos que tomaram isto de forma perversa. Photinus, por exemplo, acreditava que Cristo não era o Filho de Deus, mas um homem bom, que por uma vida boa e fazendo a vontade de Deus, mereceu ser dito filho de Deus por adopção. E assim, Cristo, que viveu uma vida boa e fez a vontade de Deus, mereceu ser chamado filho de Deus. Além disso, este erro não considerava Cristo como existindo antes da Santíssima Virgem, mas achava que ele começara a existir só quando foi concebido.

«E deste modo ele cometia dois erros. Primeiro quando afirmava que Cristo não era o verdadeiro Filho de Deus na sua natureza. E segundo, que Cristo na sua natureza completa só começou a existir no tempo. A nossa Fé, no entanto, mantém que Ele é o Filho de Deus na Sua natureza, e que Ele existe desde toda a eternidade. Contra estes erros temos a autoridade da Sagrada Escritura.

«Contra o primeiro erro, é dito que Cristo não é apenas o Filho, mas o Filho unigénito do Pai. “O Filho único, que está voltado para o seio do Pai, este O deu a conhecer.” (Jo 1, 18). E contra o segundo erro está dito, “antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8, 58). É evidente que Abraão viveu antes da Santíssima Virgem. Os Padres juntaram ao outro Símbolo (i.e. o Credo de Niceia), contra o primeiro erro, “Filho unigénito de Deus”, e contra o segundo, “nascido do Pai antes de todos os séculos”.

«Sabelius disse que Cristo existia realmente antes da Santíssima Virgem, mas defendia que a pessoa do Pai não era diferente da pessoa do Filho. Assim era o próprio Pai que incarnara, e deste modo a pessoa do Pai é a mesma do Filho. Isto é um erro porque elimina a Trindade de pessoas em Deus, e contra isto há a autoridade: “eu não estou só, mas comigo está o Pai que me enviou” (Jo 8, 16). É claro que ninguém pode ser enviado de si mesmo. Sabelius erra portanto, e por isso o Símbolo dos Padres diz “Deus de Deus, Luz da Luz”, isto é, devemos acreditar que é Deus, Filho de Deus Pai e que o Filho é luz da luz do Pai.

«Arius, embora dissesse que Cristo existia antes da Virgem Santíssima e que a pessoa do Pai é diferente da pessoa do Filho, fez no entanto uma tripla atribuição a Cristo. Primeiro que o Filho de Deus era uma criatura; segundo, que Ele não é desde toda a eternidade, mas foi formado por Deus no tempo, como a mais nobre das criaturas; terceiro, que o Deus Filho não é da mesma natureza do Deus Pai e, portanto, não é Deus verdadeiro.

«Do mesmo modo isto é um erro e contrário à Sagrada Escritura. Está escrito: “Eu e o Pai somos Um” (Jo 10, 30), quer dizer, em natureza. E portanto, como o Pai existe desde sempre, também o Filho; e como o Pai é verdadeiro Deus, também o é o Filho. Que Cristo é uma criatura, como defendia Arius, é negado no Símbolo pelos Padres: “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”; contra a ideia que Cristo não existe desde toda a eternidade, o Símbolo diz “gerado não criado”; e contra o que se diz que Ele não é da mesma substância do Pai, acrescenta-se no Símbolo “consubstancial ao Pai”.» (In Symbolum Apostolorum, 2)

158- Cristo e as duas naturezas

«Surgiram duas heresias no que toca ao mistério da união das duas naturezas em Cristo. A primeira era a que confundia as naturezas. Assim Eutyches e Dioscorus defenderam que das duas naturezas resultou uma só natureza, pelo que confessavam que Cristo fosse “de duas naturezas” (que eram distintas antes da união) mas não “em duas naturezas” (a distinção de naturezas tendo terminado depois da união).

«A segunda foi a heresia de Nestorius e Teodoro de Mopsuestia, que separava as pessoas. Eles defendiam que a Pessoa do Filho de Deus era distinta da Pessoa do filho do homem, e que elas estavam mutuamente unidas; primeiro “por habitação” na medida em que o Verbo de Deus permanecia no homem como num templo; segundo, “por unidade de intenção”, na medida em que a vontade daquele homem estava sempre em acordo com a vontade de Deus; terceiro, “por operação” na medida em que aquele homem era o instrumento do Verbo de Deus; quarto, “por dignidade de honra”, pois toda a honra dada ao Filho de Deus era igualmente dada ao filho do homem, por causa da sua união com o filho de Deus; quinto, “por equívoco”, i.e. comunicação de nomes, pois dizemos que este homem é Deus e Filho de Deus. É claro de todos estes modos que se trata de uma união por acidente.

«Alguns mestres posteriores, pensando evitar estas heresias, caíram nelas por ignorância.» (ST III 2, 6)

159- Duas naturezas em Cristo

«Orígenes disse que Cristo nasceu e veio a este mundo para salvar até os demónios e, portanto, no fim do mundo todos os demónios serão salvos. Mas contra isto está a Sagrada Escritura. Pois está escrito: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos” (Mt 24, 41). Para remover este erro, foi acrescentado no Credo: “e por nós homens, (e não por causa dos demónios) e para nossa salvação”. E nisto fica mais claro o amor de Deus por nós.

«Photinus pensava que Cristo tivesse nascido da Santíssima Virgem, mas acrescentou que ele era apenas um simples homem que, por uma vida boa e fazendo a vontade de Deus, mereceu ser feito filho de Deus, como os outros homens santos. Contra isso está escrito: “Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38). Se Cristo não estivesse no Céu não podia ter descido do Céu, e se fosse um simples homem não teria estado no Céu. Para remover este erro foi dito no Credo: “desceu dos céus”.

«Maniqueu dizia que Cristo foi sempre o Filho de Deus e desceu do Céu, mas não tinha carne verdadeira, só aparente. Isto é falso, pois não podia o Mestre da Verdade ter algo a ver com a falsidade. Como Ele mostrou o seu corpo verdadeiro, é porque o tinha mesmo. Por isso está escrito: “Apalpai e entendei que um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lc 24, 39). Para remover este erro foi dito “e encarnou”.

«Ebion, que era judeu, disse que Cristo nasceu da Santíssima Virgem, mas da forma humana normal. Mas isto é falso, pois o Anjo disse “o que nela foi gerado é obra do Espírito Santo” (Mt 1, 20) e por isso, os santos padres, para remover o erro, dizem “pelo Espírito Santo”

«Valentinus acreditava que Cristo foi concebido pelo Espírito Santo, mas pretendia que o Espírito Santo trouxera um corpo celeste que colocou na Virgem Santíssima e que este foi o corpo de Cristo. Pelo que a Virgem Santíssima nada teria contribuído para o nascimento de Cristo, a não com um lugar para Ele. Por isso disse que o corpo passou pela Virgem Santíssima como água pelo aqueduto. Mas isto é falso, pois o Anjo disse “O Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35), e o Apóstolo disse “Quando chegou a plenitude dos tempos enviou Deus o seu filho, nascido de uma mulher” (Gl 4, 4). Por isso acrescentaram ao Credo: “no seio da Virgem Maria”

«Arius e Apolinarius defenderam que, embora Cristo fosse o Verbo de Deus e nascido da Virgem Maria, não tinha alma, mas em vez da alma estaria a sua divindade. Isto é contrário à Escritura, pois Cristo diz: “A minha alma está agora conturbada” (Jo 12, 27) e também “A minha alma está triste até à morte” (Mt 26, 38). Para remover isto os padres acrescentaram “e se fez homem”. O homem, realmente, é composto de corpo e alma. Pelo que verdadeiramente, Cristo tinha tudo o que um homem tem, excepto o pecado.

«Todos estes erros e os demais que possam ser ditos, são destruídos pelo facto de Cristo se ter feito homem. O erro de Eutychetis (monofismo) é, em particular, destruído. Ele disse que a natureza de Cristo foi feita por uma mistura da natureza divina e humana, pelo que não era nem puramente Deus nem puramente homem. Isto não é verdade, pois assim não seria homem, o que é contra o que foi dito, que “se fez homem”.

«Isto destrui também o erro de Nestorius, que disse que o Filho de Deus só estava unido ao homem por habitação. Mas isto é falso, pois assim não seria “homem” mas seria “no homem”. E que ele se fez homem é claro pelas palavras do Apóstolo: “aparecendo como homem” (Fl 2, 7) “Porque procurais matar-me, a mim homem, que vos disse a Verdade que ouvi a Deus” (Jo 8, 40)” (In Symbolum Apostolorum, 3)