159- Duas naturezas em Cristo
«Orígenes disse que Cristo nasceu e veio a este mundo para salvar até os demónios e, portanto, no fim do mundo todos os demónios serão salvos. Mas contra isto está a Sagrada Escritura. Pois está escrito: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos” (Mt 24, 41). Para remover este erro, foi acrescentado no Credo: “e por nós homens, (e não por causa dos demónios) e para nossa salvação”. E nisto fica mais claro o amor de Deus por nós.
«Photinus pensava que Cristo tivesse nascido da Santíssima Virgem, mas acrescentou que ele era apenas um simples homem que, por uma vida boa e fazendo a vontade de Deus, mereceu ser feito filho de Deus, como os outros homens santos. Contra isso está escrito: “Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38). Se Cristo não estivesse no Céu não podia ter descido do Céu, e se fosse um simples homem não teria estado no Céu. Para remover este erro foi dito no Credo: “desceu dos céus”.
«Maniqueu dizia que Cristo foi sempre o Filho de Deus e desceu do Céu, mas não tinha carne verdadeira, só aparente. Isto é falso, pois não podia o Mestre da Verdade ter algo a ver com a falsidade. Como Ele mostrou o seu corpo verdadeiro, é porque o tinha mesmo. Por isso está escrito: “Apalpai e entendei que um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lc 24, 39). Para remover este erro foi dito “e encarnou”.
«Ebion, que era judeu, disse que Cristo nasceu da Santíssima Virgem, mas da forma humana normal. Mas isto é falso, pois o Anjo disse “o que nela foi gerado é obra do Espírito Santo” (Mt 1, 20) e por isso, os santos padres, para remover o erro, dizem “pelo Espírito Santo”
«Valentinus acreditava que Cristo foi concebido pelo Espírito Santo, mas pretendia que o Espírito Santo trouxera um corpo celeste que colocou na Virgem Santíssima e que este foi o corpo de Cristo. Pelo que a Virgem Santíssima nada teria contribuído para o nascimento de Cristo, a não com um lugar para Ele. Por isso disse que o corpo passou pela Virgem Santíssima como água pelo aqueduto. Mas isto é falso, pois o Anjo disse “O Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35), e o Apóstolo disse “Quando chegou a plenitude dos tempos enviou Deus o seu filho, nascido de uma mulher” (Gl 4, 4). Por isso acrescentaram ao Credo: “no seio da Virgem Maria”
«Arius e Apolinarius defenderam que, embora Cristo fosse o Verbo de Deus e nascido da Virgem Maria, não tinha alma, mas em vez da alma estaria a sua divindade. Isto é contrário à Escritura, pois Cristo diz: “A minha alma está agora conturbada” (Jo 12, 27) e também “A minha alma está triste até à morte” (Mt 26, 38). Para remover isto os padres acrescentaram “e se fez homem”. O homem, realmente, é composto de corpo e alma. Pelo que verdadeiramente, Cristo tinha tudo o que um homem tem, excepto o pecado.
«Todos estes erros e os demais que possam ser ditos, são destruídos pelo facto de Cristo se ter feito homem. O erro de Eutychetis (monofismo) é, em particular, destruído. Ele disse que a natureza de Cristo foi feita por uma mistura da natureza divina e humana, pelo que não era nem puramente Deus nem puramente homem. Isto não é verdade, pois assim não seria homem, o que é contra o que foi dito, que “se fez homem”.
«Isto destrui também o erro de Nestorius, que disse que o Filho de Deus só estava unido ao homem por habitação. Mas isto é falso, pois assim não seria “homem” mas seria “no homem”. E que ele se fez homem é claro pelas palavras do Apóstolo: “aparecendo como homem” (Fl 2, 7) “Porque procurais matar-me, a mim homem, que vos disse a Verdade que ouvi a Deus” (Jo 8, 40)” (In Symbolum Apostolorum, 3) |