2- Jogo

«Tal como o homem necessita do descanso corporal para reconfortar o corpo, que não pode trabalhar sem parar porque a sua capacidade é finita e limitada a certos trabalhos, assim também se passa na alma, cuja capacidade é também limitada e determinada a certas operações. Por isso, quando se exercem algumas operações para lá da sua capacidade, fatiga-se, sobretudo porque nas operações da alma trabalha também o corpo, já que a alma, até a intelectiva, faz uso de forças que operam por meio de órgãos do corpo. Por outro lado, os bens sensíveis são co-naturais ao homem. Por isso, quando a alma se eleva acima do sensível mediante as obras da razão, aparece um cansaço na alma, quer o homem pratique obras da razão prática, quer da especulativa. Em ambos os casos sofre um cansaço da alma, tanto maior quanto maior é o esforço com que se aplica às obras da razão. E do mesmo modo que o cansaço corporal desaparece por meio do descanso corporal, também a agilidade espiritual se restaura mediante o repouso espiritual. Ora o descanso da alma é o deleite, como já dissemos (I-II, 25, 2; 31, 1, 2). Por isso é conveniente proporcionar um remédio contra o cansaço da alma mediante algum deleite, procurando um relaxamento da tensão do espírito. Assim lêmos nas Collationibus Patrum, que o evangelista S. João, quando alguns se escandalizavam por encontrá-lo jogando com os seus discípulos, mandou a um deles, que tinha um arco, que atirasse uma flecha. Depois de tê-lo feito muitas vezes, perguntou-lhe se podia fazê-lo ininterruptamente, ao que o outro respondeu que, se o fizesse, partiria o arco. S. João fez notar, então, que se quebraria também a alma humana se se mantivesse sempre na mesma tensão.

«Estes ditos ou feitos, nos quais não se busca senão o deleite da alma, chamam-se diversões ou jogos. Por isso é necessário fazer uso deles de vez em quando para dar algum descanso à alma. Isto é o que diz o Filósofo: “Na conservação desta vida é preciso descansar mediante o jogo. Deve, portanto, fazer-se uso dele”. (IV Ethic c.8, n.1)» (ST II-II 168, 2)

3- Excesso no jogo

«No que toca aos jogos, há que evitar três coisas. A primeira e principal é que este deleite se busque em obras ou palavras torpes ou nocivas. A este respeito diz Cícero, (I De Offic.), que “há jogos que são grosseiros, insolentes, dissolutos e obscenos”. Em segundo lugar, há que evitar que a gravidade do espírito se perca totalmente. Por isso diz S. Ambrósio (I De Offic.): “Tenhamos cuidado que, aligeirando o peso do espírito, não percamos a harmonia formada pelo concerto das boas obras”. E também Cícero diz a este respeito, em I De Offic., que “assim como não permitimos a às crianças qualquer tipo de jogos, mas apenas aqueles que não são alheios às acções honestas, procuremos também que no nosso jogo haja uma chispa de engenho”. Em terceiro lugar há que procurar, como em todos os actos humanos, que o jogo se acomode à dignidade da pessoa e ao tempo, quer dizer, que seja “digno do tempo e do homem”, como diz Cícero na mesma passagem.» (ST II-II 168, 2)

«Considera-se excesso ao jogo tudo o que ultrapassa a norma da razão. Isto pode suceder de dois modos. Em primeiro lugar, nas acções que se realizam no jogo, quando é, segundo Cícero, “grosseiro, insolente, dissoluto e obsceno”; quer dizer, quando, por causa do jogo, têm lugar palavras ou acções torpes ou que fazem dano ao próximo em matéria grave. Nestes casos, o excesso no jogo é claramente pecado mortal.

«Em segundo lugar, pode haver excesso no jogo por mal nas circunstâncias devidas, como fazer uso dele em lugar ou tempo indevido ou faltar à conveniência da dignidade da pessoa ou profissão. Isto pode ser, em alguns casos, pecado mortal pelo excesso de paixão posta no jogo, cujo prazer se prefere ao amor a Deus, indo, portanto, contra os preceitos de Deus ou da Igreja. Às vezes, pelo contrário, é pecado venial, quando a afeição ao jogo não é tão grande que possa levar a cometer alguma acção contrária a Deus.» (ST II-II 168, 3)

4- Defeito no jogo

«Tudo quanto, na ordem humana, vai contra a razão, é vicioso. Ora é contra a razão mostrar-se incómodo para com os outros, ou seja, não lhes proporcionar nada agradável e impedir os deleites dos outros. Sobre isso diz Séneca: “Comporta-te sabiamente, de modo que ninguém te considere áspero nem te despreze por vil”. Mas quem peca por defeito no jogo “não só não diz nada divertido, mas torna-se pesado para todos”porque, por exemplo, não aceita nem sequer os divertimentos moderados dos outros. Os que assim se comportam são “duros e rústicos” como diz Aristóteles em IV Ethic.

«Mas, como o jogo é útil pelo deleite e descanso que proporciona, e o deleite não se busca por si mesmo na vida humana, mas “em ordem à acção”, como se diz em IX Ethic., a falta de jogo é menos viciosa que o excesso do mesmo. Por isso diz o Filósofo, en IX Ethic. , que “há que ter poucos amigos para se deleitar, porque na vida basta um pouco de deleite como condimento, do mesmo modo que um pouco de sal é suficiente na comida”.»(ST II-II 168, 4)

5- Valor dos comediantes

«Quanto ao terceiro ponto devemos dizer que, como ficou dito, o jogo é necessário às relações da vida humana. Ora a todas as coisas que são necessárias às relações da vida humana se pode atribuir algum emprego lícito. Assim, o ofício de comediante, que é ordenado ao alívio dos homens, não é em si ilícito nem cai em estado de pecado, desde que pratique o divertimento moderadamente, ou seja, sem usar palavras ou acções ilícitas no jogo, ou sem jogar com fins ou em tempos indevidos. E mesmo que, na ordem humana, não desempenhem outro ofício relacionado com os homens, desempenham outras actividades sérias e virtuosas em relação a si mesmo e a Deus: quando oram, tratam de dominar as suas paixões e o seu modo de agir ou até dão esmola aos pobres. Por isso, os que lhes pagam com moderação não pecam, mas realizam acções justas ao pagar os seus serviços.

«Mas os que gastam os seus recursos inutilmente no jogo, ou mantêm os comediantes que praticam jogos e divertimentos ilícitos, pecam por favorecê-los no pecado.» (ST II-II 168, 3, 3)