48- Uso correcto da comida

« Tal como no sexo, também da comida se pode fazer uso sem pecado, se a ordem da razão for observada. E uma coisa é feita de acordo com a ordem da razão quando se dirige de forma adequada ao fim devido (...) O defeito do pecado vai da alma para o corpo e não vice-versa. Porque o pecado é uma desordem da vontade. Ora a comida tem a ver com o corpo imediatamente, não com a alma. Portanto, o consumo da comida não pode ser mau em si mesmo, excepto na medida em que é contrário à rectidão da vontade. Isto acontece de uma forma através da incompatibilidade com o fim para o qual a comida é tomada. Por exemplo, quando, por causa do prazer que se tira daí, um homem toma comida que é má para a sua saúde, seja pelo tipo ou pela quantidade consumida.

«De outra forma, isto pode acontecer por o uso da comida ser contrário à condição quer do consumidor, quer daqueles entre os quais vive. Por exemplo, se um homem é tão dedicado à comida que vai para lá dos seus meios, ou se afasta da forma habitual aos que o rodeiam.

«Da terceira forma, pode acontecer se algumas comidas sejam proibidas por lei por alguma razão especial. Assim, na lei antiga, algumas comidas eram proibidas pelo seu significado. No Egipto era proibido aos antigos comer carne, para que a agricultura não fosse prejudicada. Ou então se certos regulamentos proíbem o uso de certas comidas, para o domínio do corpo» (CG III 127)

49- Efeitos da gula e da luxúria

«Os vícios carnais, a gula e a luxúria, têm a ver com os prazeres do tacto em matéria de alimentação e sexo, e estes são os mais impetuosos de todos os prazeres do corpo. Por essa razão este vícios levam a que a atenção do homem fique firmemente fixada nas coisas corporais e que, em consequência, as operações humanas no que toca às coisas inteligíveis fiquem enfraquecidas. Mas mais, no entanto, pela luxúria do que pela gula, porque os prazeres sexuais são mais veementes que os da mesa. Por isso, a luxúria dá origem à cegueira da mente, que exclui quase totalmente o conhecimento das coisas espirituais, enquanto o embotar dos sentidos nasce da gula, que torna um homem fraco no que toca às mesmas coisas espirituais. Por outro lado, as virtudes contrárias, a abstinência e a castidade dispõem muito bem o homem para a perfeição dessas operações espirituais» (ST II-II 15, 3)