46- Origem do prazer

«A natureza introduziu o prazer nas operações que são necessárias à vida humana. Por isso, a ordem natural requer que o homem faça uso desses prazeres, na medida em que eles são necessários para o bem-estar do homem, no que toca à preservação, quer do indivíduo quer da espécie. Portanto, se alguém rejeitasse o prazer a ponto de omitir coisas que são necessárias à preservação da natureza, esse cometeria pecado, ao agir contra a ordem da natureza. Isto pertence ao vício da insensibilidade» (ST II-II 142, 1)

47- Prazer no estado de inocência

«Os animais não têm razão. Ora o homem fica, de certa forma, como eles no acto sexual, porque não pode moderar a concupiscência. No estado de inocência nada  aconteceria que não estivesse regulado pela razão, não porque o deleite dos sentidos fosse menor, como dizem alguns (pelo contrário, o prazer sensível seria tanto maior em proporção com a maior pureza da natureza e a maior sensibilidade do corpo), mas porque a força da concupiscência não se atiraria de forma tão desordenada a tal prazer, sendo dominada pela razão, cujo papel não é diminuir o prazer sensual, mas impedir que a força da concupiscência se prenda a ele de forma imoderada. Por “imoderada” quero dizer ir para lá dos limites da razão, como uma pessoa sóbria não tira menos prazer na comida tomada com moderação que o glutão, mas a sua concupiscência permanece menos em tais prazeres (...) Por isso a continência não seria louvável no estado da inocência, mas é louvável no nosso estado presente, não porque remove a fecundidade, mas porque exclui o prazer desordenado. Nesse estado a fecundidade teria existido sem luxúria.» (ST I 98, 2, 3)