134- Legitimidade do trabalho

«Devemos observar que no Evangelho, nosso Senhor não proibiu o trabalho, mas a ansiedade mental sobre as necessidades da vida. Pois Ele não disse: “não trabalheis”, mas “não vos inquieteis” (Lc 12, 29). Ele prova a sua afirmação com um argumento a fortiori. Pois se a divina Providência mantém as aves e os lírios, que são de uma condição mais baixa, e não podem trabalhar como os homens para ganhar o seu sustento, muito mais pode fornecer ao homem, que é de uma condição mais elevada, e a quem foram dados os meios de obter o seu pão pelo seu trabalho. Por isso ele não deve ser ansiosamente solícito sobre as necessidades da sua vida.» (CG III 135)

135- Sentido do trabalho

«O trabalho manual dirige-se a quatro coisas. Primeiro e principalmente a obter comida, pelo que foi dito ao primeiro homem “Comerás o pão com o suor do teu rosto” (Gn 3, 19) e está escrito “Comerás do trabalho das tuas mãos” (Sl 128(127), 2). Segundo, ele está dirigido a remover a ociosidade da qual nascem muitos males; por isso está escrito “Manda” o teu servo “para o trabalho, para que não fique ocioso, porque a ociosidade ensina muitos males” (Eclo 33, 28). Terceiro, é dirigido para refrear a concupiscência, pois é um meio de afligir o corpo, pelo que está escrito “nas fadigas, nas vigílias, nos jejuns, na castidade” (2Co 6, 5-6). Em quarto lugar, é dirigido à esmola, pois está escrito “Aquele que era ladrão, não torne a roubar; pelo contrário, trabalhe seriamente para realizar o bem com as próprias mãos a fim de ter com que suprir aos necessitados.” (Ef 4, 28)

«Consequentemente, na medida em que o trabalho manual se dirige a obter comida, ele cai debaixo da necessidade do preceito na medida em que é necessário para esse fim. Como o que se dirige a um fim deriva a sua necessidade desse fim, sendo de facto tão necessário quanto o fim não pode ser obtido sem ele. Consequentemente quem não tem outros meios de vida é obrigado a trabalhar com as suas mãos, qualquer que seja a sua condição. É isto que é significado pelas palavras do Apóstolo. “quem não trabalha não coma” (2Tes 3, 19), como se dissesse, “a necessidade do trabalho manual é igual à necessidade de comer”. Assim, se um pudesse viver sem comer, não seria obrigado a trabalhar com as suas mãos. O mesmo se aplica àqueles que têm outros meios legítimos de vida, pois ninguém pode fazer o que o que não se pode fazer legitimamente. Por isso vemos que o Apóstolo prescreveu o trabalho manual como remédio para o pecado daqueles que ganham a vida por meios ilícitos. Pois o Apóstolo ordenou o trabalho primeiro para evitar o roubo, como aparece:

“Aquele que era ladrão, não torne a roubar; pelo contrário, trabalhe seriamente para realizar o bem com as próprias mãos a fim de ter com que suprir aos necessitados.” (Ef 4, 28), Em segundo lugar, para evitar cobiçar a propriedade dos outros, como está escrito “Procurai viver com serenidade, ocupando-vos de vossas próprias coisas e trabalhando com vossas mãos, como recomendamos. É assim que vivereis honradamente aos olhos dos estranhos e não precisareis da ajuda de ninguém.” (2Tes 4, 11). Terceiro, para evitar as actividades desacreditadas pelas quais alguns procuram ganhar a vida. Por isso está escrito “Enquanto estivemos convosco, nós incutimo-vos a máxima: quem não quiser trabalhar, não terá direito de comer. É que ouvimos que entre vós há alguns que vivem na ociosidade, sem fazer nada, ocupados apenas de coisas fúteis. (nomeadamente, como a Glosa explica, “que ganham a vida com coisas ilegítimas”) A estes ordenamos e exortamos em Nosso Senhor Jesus Cristo que trabalhem tranquilamente e comam o pão que ganharem.” (2 Tes 3, 10-12). Por isso afirma S. Jerónimo (Super epist. ad Galat. Pref. Liv.. ii) que o Apóstolo diz isto “não tanto na sua capacidade de mestre, mas por causa das culpas do povo”.

«Deve no entanto ser observado que sob o trabalho manual estão compreendidos todas essas ocupações humanas pelas quais um homem pode legitimamente ganhar a vida, seja usando as suas mãos, os seus pés, ou a sua língua. Pois os vigilantes, correios, e outros semelhantes que vivem do seu trabalho são vistos como vivendo da obra das suas mãos, pois, como a mão é o “órgão dos órgãos” [De Anima iii, 8], trabalho manual refere todos os tipos de trabalho, pelo qual o homem pode legitimamente ganhar a sua vida.

«Na medida em que o trabalho manual é a remoção da ociosidade, ou a aflição do corpo, não cai debaixo da necessidade do preceito se o consideramos em si mesmo, pois há muitos outros meios além do trabalho manual de afligir o corpo e remover a ociosidade. A carne é afligida pelos jejuns e vigílias, e a ociosidade é removida pela meditação da Sagrada Escritura e pelo louvor divino. Por isso uma glosa ao Salmo 118, 82 “Os meus olhos consomem-se na tua promessa” diz: “não está ocioso o que medita apenas na Palavra de Deus, nem é melhor o que trabalha fora do que se dedica ao estudo de conhecer a verdade”.» (ST II-II 187, 3)