29- Providência divina

«Há uma grande diferença entre quem se preocupa com uma coisa particular e aquele cuja providência é universal, porque aquele que provê a uma coisa particular elimina tanto quanto pode todos os defeitos daquilo que está sujeito ao seu cuidado. Pelo seu lado, aquele que provê universalmente permite que permaneçam alguns pequenos defeitos, para que o bem do todo não seja diminuído. Por isso, a corrupção e os defeitos nas coisas naturais são dita contrárias a uma certa natureza particular. Mas eles estão de acordo com o plano da natureza universal, na medida em que o defeito de um concorre para o bem de outro, ou até para o bem universal. Pois a corrupção de um é a geração de outro e através disto uma espécie é mantida em existência. Como Deus, portanto, provê universalmente a todo o ser, pertence à Sua Providência permitir alguns defeitos em efeitos particulares, para que o bem do universo não seja prejudicado, pois se todo o mal fosse eliminado, muito bem ficaria ausente do universo. Um leão deixaria de viver se não houvesse morte de animais. E não haveria a paciência dos mártires se não existissem perseguições tirânicas. Isto diz S. Agostinho (Enchiridion xi), “o Deus sumamente bom, de nenhum modo permitiria existir algum mal nas suas obras, se não fosse tão omnipotente e bom para até do mal tirar o bem”. Por estes argumentos, agora respondidos, é que alguns achavam que as coisas que as coisas corruptíveis, por exemplo coisas casuais ou más, estariam subtraídas à Providência divina» (ST I 22, 2, 2)

120- A Providência não viola a liberdade

«Como afirma S. Dionísio no capítulo quarto de De divin. nom. : “À providência divina não corresponde destruir a natureza das coisas, mas conservá-la. Por isso move todas as coisas segundo a sua condição; assim, das causas necessárias seguem-se efeitos com necessidade, enquanto que de causas contingentes se seguem efeitos de forma contingente. Assim, pois, porque a vontade é um princípio activo, não determinado a uma só coisa, mas que se relaciona indiferentemente com muitas, Deus a move sem a determinar com necessidade a uma só coisa, mas conservando o seu movimento contingente e não necessário, salvo naquilo para que se move por natureza» (ST I-II 10, 4)

168- Providência e contingentes

Capítulo 140- Que, permanecendo a Providência divina, muitas coisas são contingentes

«A contingência dos efeitos ou das causas não pode perturbar a certeza da divina Providência. Três coisas parecem garantir a certeza da Providência: a infalibilidade da divina antevisão, a eficácia da divina vontade e a sabedoria da divina disposição, que descobrem vias adequadas de obter um efeito. Nenhum destes factores é oposto à contingência das coisas.

«O conhecimento infalível de Deus abraça até as coisas futuras casuais, na medida em que Deus contempla na Sua eternidade os acontecimentos futuros como existindo actualmente. Mas tratámos deste ponto atrás.

«Além disso, a vontade de Deus, como é a causa universal das coisas, decide não só que algo vai acontecer, mas que ela vai acontecer desta ou daquela maneira. A eficácia da vontade divina exige não só que aquilo que Deus quer acontecerá, mas que acontecerá da forma que Ele deseja. Mas Ele deseja que algumas coisas aconteçam necessariamente e que outras aconteçam contingentemente, pois ambas são necessárias para a perfeição das coisas. Para que os acontecimento ocorrem de ambas as formas, Ele aplica causas necessárias a algumas coisas e causas contingentes a outras. Desta forma, com algumas coisas acontecendo necessariamente e outras contingentemente, a divina vontade é cumprida eficazmente.

Além disso, é claro que a certeza da Providência é salvaguardada pela sabedoria da disposição divina, sem prejuízo da contingência das coisas. Pois até a Providência exercida pelo homem é capaz de, perante uma causa que pode falhar o seu efeito, ajudá-la de forma a que consiga esse resultados sem falhar. Assim se passa com o médico que exerce a sua arte curativa, e o vinhateiro que emprega o remédio apropriado contra a esterilidade das vides. Muito mais, portanto, a sabedoria da economia divina consegue que as causas, embora sendo contingentes deixadas a si mesmas e falhem o seu efeito, ele seja conseguido inevitavelmente quando certas medidas suplementares são empregues. E isto não elimina a contingência do efeito. É evidente portanto que a contingência das coisas não exclui a certeza da divina Providência» (Compendium I 140)