7- Virtude do Estudo

«Como o dissemos, a estudiosidade não trata directamente do próprio conhecimento, mas do desejo e aplicação em adquiri-lo. É preciso julgar diferentemente, por um lado, o conhecimento da verdade e, por outro lado, o desejo e a aplicação que conduzem a ela. Com efeito, o conhecimento da verdade, falando absolutamente, é bom. Pode, no entanto, ser mau por acidente, em razão das suas consequências, por exemplo quando alguém se orgulha do conhecimento da verdade, como diz S. Paulo (1 Co 8,1) “A ciência incha”; ou quando um homem se serve dele para pecar.

«Pelo contrário, o desejo ou a aplicação ao conhecimento da verdade podem ser rectos ou perversos. De um primeiro modo quando, tendendo pela sua aplicação ao conhecimento da verdade, se junta acidentalmente um elemento mau; é o caso daqueles que se aplicam à ciência da verdade afim de retirar um motivo de orgulho. É o que diz S. Agostinho no seu livro De Moribus Eccles. c. 21: “Há alguns que, abandonando a virtude e sem saber quem é Deus e quão grande é a majestade da natureza imutável, crêem que fazem algo de grande quando estudam esta massa universal de matéria a que chamamos mundo. Disto nasce-lhes uma soberba tão grande que lhes faz crer que vivem no mesmo céu, sobre o qual discutem com frequência”. De igual modo, aqueles que têm interesse em aprender algo para pecar possuem um interesse vicioso, como nos mostra Jer 9,5: “Ensinaram a sua língua a dizer mentiras preocuparam-se em trabalhar para operar com iniquidade”. De outra forma ainda pode haver vício em razão precisamente da desordem no desejo e aplicação em aprender a verdade. E isto de quatro maneiras.

«1º Quando um estudo menos útil nos arranca ao estudo que a necessidade nos impõe. É por isso que S. Jerónimo escreve: “Nós vemos padres que, tendo abandonado os Evangelhos, e os Profetas, lêem comédias e cantam poemas de amor dos bucólicos.” (Ep. 21 Ad Damasum).

«2º Quando se procura ser instruído por aquele a quem não nos é permitido dirigir: é o caso daqueles que interrogam os demónios sobre o futuro, o que é uma curiosidade supersticiosa. É por isso que S. Agostinho diz “Não sei se os filósofos não foram desviados da verdade pela sua curiosidade viciosa em consultar os demónios” (De Vera Religi.c.4).

«3º Quando um homem deseja conhecer a verdade sobre as criaturas sem as referir ao fim verdadeiro, quer dizer ao conhecimento de Deus. É por isso que S. Agostinho afirma: “Na consideração das criaturas não se deve exercer uma vã e perecível curiosidade, mas fazer delas um degrau para chegar ao que é imortal e durável” (De Vera Religi.c.29)

«4º Quando se procura conhecer a verdade ultrapassando as possibilidades do nosso próprio talento, porque então se cai facilmente no erro. É por isso que se lê no Eclesiastes (3,21) “Não procures o que é demasiado difícil para ti, não prescrutes o que está acima das tuas forças” E lemos em seguida “Muitos se desencaminharam na sua presunção, uma pretensão culpável a desviar os seus pensamento”» (ST II-II 167, 1)

8- Memória

«Há quatro procedimentos que ajudam o homem a progredir na memória. O primeiro modo é procurar algumas semelhanças com as coisas que tentamos recordar, mas que não sejam imagens correntes, já que sempre nos surpreendem mais as coisas estranhas e lhes prestamos maior e mais intensa atenção. É por isso que recordamos melhor as coisas da nossa infância. Assim é necessário procurar essas semelhanças ou imagens, porque as realidades simples e espirituais se apagam mais facilmente da memória, a não ser que sejam associadas a alguma semelhança corporal, já que o conhecimento humano é mais poderoso no que toca ao sensível. Daí que a memória resida também na parte sensível.

«Em segundo lugar é preciso organizar devidamente as coisas que se pretendem conservar na memória, para poder passar facilmente de um objecto a outro. Por isso escreve o Filósofo no livro De mem. et reminisc. c.2:Às vezes os lugares parecem ajudar-nos a recordar. E a causa disso está em que se passa rapidamente de um a outro”.

«Em terceiro lugar deve-se pôr interesse e amor no que queremos recordar, pois com quanto mais firmeza fiquem impressas as coisas na alma, tanto menos facilmente se apagam.“Daí que” –como afirma também Túlio Cícero na sua Rhetorica liv.3 c.19.– “o interesse conserva íntegras as figuras das representações.”

«Finalmente, é conveniente pensar com frequência no que queremos recordar. Por esse motivo afirma o Filósofo no livro De mem. et reminisc. c.1 que“a reflexão conserva a memória”, porque, como escreve também no mesmo lugar, “o costume é como uma natureza”. Por isso precisamente recordamos com rapidez as coisas que estamos acostumados a considerar, como se de um modo natural passássemos de uma coisa a outra» (ST II-II 49, 1, 2)

9- Método de Estudo

Um dos textos mais famosos de S. Tomás é uma carta que escreveu a um seu confrade da Ordem Dominicana, frei João, sobre o método de estudar, a «Epistola De Modo Studendi». Hoje ainda persiste entre os especialistas a discussão sobre a autoria deste pequeno texto. Grande parte duvida da sua autenticidade, enquanto outros a defendem. As dúvidas vêm do facto de ela não constar nas listas primitivas de obras do santo. O que não admira muito, dado tratar-se de uma carta particular. O texto dessa carta é o seguinte:

«Já que me pediste, frei João meu irmão caríssimo em Cristo, que te indicasse o modo como se deve proceder para ir adquirindo o tesouro do conhecimento, devo dar-te a seguinte indicação: deves optar pelos riachos e não por entrar imediatamente no mar, pois é a partir do fácil que o difícil deve ser atingido. E, assim, eis o que te aconselho sobre como deve ser a tua vida:

1. Exorto-te a ser tardo para falar e lento para ir ao locutório.

2. Abraça a pureza de consciência.

3. Não deixes de te aplicar à oração.

4. Ama frequentar tua cela, se queres ser conduzido à adega do vinho da sabedoria.

5. Mostra-te amável com todos,

6. Não te ocupes em nada das acções dos outros;

7. Com ninguém permitas excesso de familiaridades, pois a excessiva familiaridade produz o desprezo e suscita ocasiões de atraso no estudo.

8. Não te metas em questões e ditos mundanos.

9. Evita, sobretudo, a dispersão intelectual.

10. Não descuides em seguir o exemplo dos homens santos e honrados.

11. Não atentes à condição de quem fala, mas ao que diz de bom e confia-o à memória.

12. Aquilo que lês e ouves, faz por entender.

13. Certifica-te do que for duvidoso.

14. Esforça-te por abastecer o depósito de tua mente, como quem anseia por encher ao máximo possível um vaso.

15. Não busques o que está para lá do teu alcance.

Seguindo este método produzirás, enquanto tiveres vida, folhas e frutos na vinha do Senhor dos exércitos e poderás atingir o que queres.
Saudações.

Tomás de Aquino»