169- Ensino

«Tal como há duas formas de uma pessoa se curar da doença, pela acção da natureza ou graças à natureza ajudada pela medicina, também há duas maneiras de adquirir a ciência. Uma é quando a razão natural chega por si própria ao conhecimento do que ignorava, o que se chama invenção. A outra é quando alguém externo traz o seu suporte à razão natural, e chama-se a isso ensino. Acrescento que em toda a produção, seja ela natural ou assistida pela arte, esta última opera da mesma maneira e pelos mesmos modos que a própria natureza. A natureza dá saúde ao que está doente com frio, aquecendo-o. O médico faz o mesmo. É por isso que se diz que «a arte imita a natureza» (Aristóteles Phys. II,2, 194, a.21). Ora passa-se o mesmo na aquisição da ciência. O que ensina conduz os outros para o conhecimento procedendo como aquele que se conduz a si mesmo, pela via da invenção, até à ciência do que ignora.

«Ora afim de chegar pela via da invenção ao conhecimento, a razão progride aplicando princípios comuns, evidentes em si mesmos, a coisa determinadas. Assim passa daí a conclusões particulares, e depois destas a outras. Pode dizer-se então que um homem ensina um outro quando expõe a outro, por meio de sinais, aquele processo que a sua própria razão natural seguiu. Assim o discípulo chega ao conhecimento do que ignorava graças à ajuda do que lhe é exposto, que lhe serve de certo modo de instrumento...

«Como se diz que o médico é causa da saúde no doente pela acção da natureza, diz-se que o homem é causa da ciência de um outro na medida em que ela é engendrada neste pela actividade natural da sua própria razão. Eis o que é ensinar! É neste sentido que se diz que um homem ensina um outro, ou que é o seu mestre. É neste sentido que o Filósofo escreve no primeiro livro dos Segundos Analíticos: “a demonstração é um silogismo que faz saber”.

«Por outro lado, se alguém apresenta a outro proposições que não estão ligadas a princípios evidentes por si mesmos, ou quando não é manifesto que o estejam, ele não cria ciência mas antes a opinião ou a fé.

«Isto também pode ser provocado de outra maneira graças aos princípios inatos. Com efeito, é a partir de princípios evidentes em si mesmos que cada um considera como certo aquilo que deles sai de maneira necessária. Aquilo que lhes é contrário, é totalmente rejeitado. Quanto ao resto, pode-se conceder ou não o assentimento.

«Quanto à luz da razão, graças à qual os princípios nos são conhecidos, ela é olocada em nós por Deus, de forma semelhante como em nós coloca a verdade inata. É por isso que, como o ensino humano não pode ser eficaz senão em virtude desta luz, que é claro que só Deus ensina interiormente, como a natureza é que dá a saúde pelo interior e é o agente principal da cura. No entanto podemos dizer que o homem cura e ensina, no sentido que dissemos acima.» (De Veritate 11, 1)

170- Ensino

«O conhecimento que está no mestre é o mesmo que está no discípulo no que toca à coisa conhecida, pois é a mesma verdade objectiva que é conhecida pelos dois (...) O mestre dirige o discípulo de coisas conhecidas ao conhecimento do desconhecido de uma forma dupla. Primeiro, propondo-lhe certas ajudas ou meios de instrução, que o seu intelecto pode usar para a aquisição da ciência. Por exemplo, ele pode pô-lo diante de proposições menos universais, mas que o discípulo consegue julgar a partir do conhecimento anterior; ou pode propor-lhe certos exemplos sensíveis, seja por forma de semelhança, oposição, ou coisa do género, pelo qual o intelecto do aprendiz é dirigido ao conhecimento da verdade anteriormente desconhecida. Em segundo lugar, fortalecendo o intelecto do aprendiz, não por um poder activo como de uma natureza superior, como explicámos atrás acerca da iluminação angélica, porque todos os intelectos humanos são do mesmo grau na ordem natural, mas na medida em que propõe ao discípulo a ordem dos princípios às conclusões, devido ele não ter suficiente poder de junção para conseguir tirar as conclusões dos princípios. Por isso o Filósofo diz (Poster. i, 2) que “a demonstração é um silogismo que faz saber”. Desta forma um demonstrador faz com que o seu ouvinte saiba.» (ST I 117, 1)

«Um professor só traz ajuda externa, como o médico que cura. Mas tal como é a natureza interior que é a causa principal da cura, assim também a luz interior do intelecto é a causa principal do conhecimento. Mas ambas vêm de Deus» (ST I 117, 1, 1)

«O mestre não causa a luz inteligível no discípulo nem causa as espécies inteligíveis directamente. Mas ele move o seu discípulo pelo ensino, de forma que este, pelo poder do seu intelecto, forma conceitos inteligíveis, cujos sinais lhe são propostos de fora» (ST I 117, 1, 3)

171- Acesso ao conhecimento

«O homem atinge o conhecimento da verdade de duas formas. Primeiro, por meio de coisas que ele recebe de outro. Para este meio, no que toca às coisas que ele recebe de Deus, ele precisa de oração (oratio), de acordo com “Eu pedi [a Deus] e o espírito da sabedoria veio até mim” (Sb 7,7). Quanto à verdade que ele recebe do homem, precisa de audição (auditus), no que toca à palavra falada, e leitura (lectio) no que recebe pela escrita. Em segundo lugar, ele precisa de se aplicar ao estudo pessoal, e isso requer meditação (meditatio)» (ST II-II 180 3, 4)

172- Métodos de ensino

«Quando se instrui alguém numa ciência começa-se por lhe dar uma introdução geral» (ST II-II 122, 3, 4)

173- Métodos de ensino

«O ensino implica o perfeito domínio do saber naquele que ensina» (De Veritate 11, 2)

174- Métodos de ensino

«O sábio ou erudito é qualificado para ensinar na medida em que é apto a traduzir o conceito interior, a fim de levar outro à inteligência da verdade» (ST II-II 181, 3, 2)