32- Humildade
«OBJECÇÃO 3. Ninguém deve fazer o que vá em detrimento de outro. Mas submeter-se a outro mediante a humildade pode ir em detrimento de outro ante o qual se humilha, porque este poderia orgulhar-se e desprezá-lo. Por isso diz S. Agostinho na Regra: «Não seja que, ao observar excessivamente a humildade, se perca a autoridade no governo. Logo o homem não deve submeter-se a todos mediante a humildade.» (ST II-II 161, 3, obj.3)
«Podem considerar-se no homem duas coisas: o que é de Deus e o que é do homem. É do homem tudo o que é defeituoso, enquanto que é de Deus tudo o que pertence à salvação e à perfeição, conforme o que se diz em Os 13,9: “A tua perdição é obra tua, Israel. A tua força é só minha”. Ora a humildade, como já dissemos (a.1 ad 5; a.2 ad 3), ocupa-se propriamente da reverência pela qual o homem se submete a Deus. Por isso, todo o homem, no que é seu, deve submeter-se a quem quer que seja seu próximo no que toca ao que há de Deus nele.
«Mas a humildade não exige que o homem submeta o que há de Deus em si ao que há de Deus noutro, porque os que participam dos dons de Deus sabem que os possuem, conforme o que se diz em 1 Cor 2,12: «Para que conheçamos os dons que Deus nos concedeu». Por isso, sem faltar à humildade, podemos preferir os dons que recebemos de Deus aos dons de Deus que aparecem nos outros, tal como diz o Apóstolo em Ef 3,5: «Não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, em gerações passadas, como agora foi revelado aos seus santos Apóstolos».
«De igual modo, a humildade não exige que o homem submeta o que há seu em si mesmo ao que há de homem no próximo. Senão conviria que todos se reconhecessem mais pecadores que os demais. É assim que o Apóstolo, em Gl 2,15, diz, sem faltar à verdade: “Nós somos judeus de nascimento, não pecadores da gentilidade”.
«No entanto, pode alguém acreditar que há no próximo alguma coisa boa que ele não possui ou pode ver em si mesmo algo mau de que o outro carece, e quanto a isso, pode submeter-se a ele por meio da humildade.» (ST II-II 161, 3)
À terceira objecção digo que a humildade, como as demais virtudes, mostra-se preferencialmente na interioridade da alma. Por isso pode o homem submeter-se a outro mediante um acto interior da alma sem contribuir para o seu dano espiritual. Isto é o que S. Agostinho diz na Regra. Mas nos actos externos de humildade, como nos das outras virtudes, há que mostrar a devida moderação, para que não vão em detrimento de outro. Mas se alguém faz o que deve e isso serve de ocasião de pecado a outros, isso não é culpa do que se comporta humildemente, porque este não trata de escandalizar, mesmo que o outro se escandalize. (ST II-II 161, 3, 3) |