111- Virtude é o meio

Toda a virtude, pela sua essência mesmo, ordena o homem ao bem. O que é próprio da virtude moral é assegurar a perfeição da parte apetitiva da alma numa matéria determinada. Ora um movimento apetitivo tem por medida e por regra no que toca aos seus objectos a própria razão. E o bem de tudo o que é ponderado e regulado consiste que seja conforme à sua regra, como o bem nas obras de arte é que elas sigam as regras da arte. Por consequência, neste domínio, o mal é, pelo contrário, estar em desacordo com a sua regra e medida. O que acontece porque vai para lá da medida ou porque fica para cá, como salta aos olhos em tudo o que se regula e se mede. E por isso vemos claramente que o bem da virtude moral consiste num ajustamento à medida da razão. Ora é claro que ajustamento ou conformidade é um meio entre o excesso e o defeito. Isto mostra claramente que a virtude moral consiste num meio». (ST I-II 64, 1)

112- Obtenção das virtudes

«Como foi dito, a virtude vem aperfeiçoar o homem em vista do bem. Ora o bem consiste essencialmente, diz S. Agostinho “na medida, na beleza, e na ordem” ou, segundo a Sabedoria (Sb 11, 20) na “conta, peso e medida”. É preciso pois que o bem do homem seja visto segundo uma regra. Esta regra é dupla, como dissemos, é a razão humana e a lei divina. E como a lei divina é uma regra superior, estende-se a mais coisas, de forma que tudo o que é regulado pela razão humana o é também pela lei divina, mas não o recíproco.

«Portanto, a virtude do homem ordenada ao bem que é medido segundo a regra da razão humana pode ser causada por actos humanas, na medida em que esses actos procedem da razão, sob cujo poder e regra se realiza o bem pretendido. Pelo contrário, a virtude que ordena o homem ao bem medido pela lei divina e não mais pela razão humana, esta virtude não pode ser causada por actos humanos, cujo princípio é a razão; mas ela é causada em nós unicamente pela operação divina.» (ST I-II 63, 2)

113- Tipos de virtudes

«As virtudes distinguem-se em três géneros: pois umas são as virtudes teologais; outras, as intelectuais e outras, as morais. As virtudes teologais são aquelas pelas quais a mente humana se une a Deus; as intelectuais, aquelas pelas quais se aperfeiçoa a própria razão; e as morais aquelas pelas quais se aperfeiçoam as faculdades apetitivas para obedecer à razão.» (ST I-II 68, 8)

116- Diferenças entre as virtudes

«Nos assuntos morais tem de ser forçosamente o caso que as virtudes de diferentes espécies têm de tratar de assuntos diferentes, chegando ao meio de formas diferentes. Por exemplo, nos assuntos do concupiscível, a razão chega ao meio por meio da restrição, pelo que a virtude estabelecida nestes assuntos está mais próxima do defeito do que do excesso, como o próprio nome de “Temperança” indica. Mas nos assuntos de arrojo e medo, a razão chega ao meio não restringindo mas atacando. Por isso nestes assuntos a virtude está mais próxima do excesso que do defeito, como o próprio nome “Fortaleza” indica. Vemos o mesmo noutros assuntos relacionados com as virtudes. Também, pela sua oposição às virtudes, os pecados diferem em espécie de acordo com os diferentes assuntos, por exemplo homicídio, adultério, roubo.» (De Malo II,6)