26- Mentira
Artigo 3 – Será que toda a mentira é pecado?
«No que toca ao terceiro ponto, parece que nem toda a mentira é pecado:
«Objecções 1. Porque é evidente que os evangelistas não pecaram ao escrever os Evangelhos. Mas parece que eles disseram algumas coisas falsas, pois os seus relatos das palavras de Cristo e de outros, frequentemente diferem uns dos outros, pelo que evidentemente um deles deve ter dado um descrição falsa. Portanto nem toda mentira é um pecado.
«2. Além disso, ninguém é recompensado por Deus pelo pecado. Mas as parteiras do Egipto foram beneficiadas por Deus por uma mentira, pois está escrito: “Deus erigiu as suas casas” (Ex 1, 21). Por isso uma mentira não é pecado.
«3. Além disso, os actos dos santos são relatados na Escritura para serem modelos da vida humana. Mas lemos que vários homens muito santos mentiram. Assim é-nos dito (Gn 12 e 20) que Abraão disse que a sua mulher era sua irmã. Jacob também mentiu quando disse que era Esaú, e ainda recebeu uma benção (Gn 27, 27-29). Judite é louvada (Jd 15, 10-11), apesar de ter mentido a Holofernes. Por isso, nem toda a mentira é pecado.
«4. Além disso, uma pessoa deve escolher o mal menor para evitar o maior. Por isso um médico corta um membro para que o corpo todo não pereça. Mas vem menos mal de se levantar uma opinião falsa na mente de uma pessoa do que de alguém matar ou ser morto. Por isso, uma pessoa pode legitimamente mentir para impedir outro de cometer assassínio, ou para salvá-lo de ser morto.
«5. Além disso, é uma mentira deixar de cumprir o que se prometeu. Mas não se é obrigado a cumprir tudo o que se prometeu, pois S. Isidoro diz (Synonym. ii) “quebra a tua promessa quanto prometeste o mal”. Por isso nem toda a mentira é um mal.
«6. Além disso, uma mentira é pecado porque por ela enganamos o próximo. Por isso diz S. Agostinho (Lib. De Mend. xxi): “Quem pensa que há qualquer tipo de mentira que não é pecado engana-se vergonhosamente, pois pensa ser um homem honesto quando engana os outros”. Mas nem toda a mentira é causa de engano, pois ninguém é enganado por uma mentira brincalhona. Estas mentiras são ditas, não com o propósito de serem acreditadas, mas apenas com a finalidade de dar prazer. Por isso também encontramos expressões hiperbólicas na Escritura. Por isso nem toda a mentira é pecado.»
«Sed contra. Mas, pelo contrário, está escrito (Eclo (Sir) 7, 14) “Não digas qualquer tipo de mentira”
«Respondo: Uma acção que é naturalmente má em género não pode, de maneira nenhuma, ser boa e legítima, pois para uma acção ser boa é preciso que todos os elementos que para ela concorrem sejam bons. Pois o bem resulta de uma causa íntegra, enquanto o mal resulta de um qualquer defeito, como diz S. Dionísio (Div. Nom. iv). Ora uma mentira é má no que respeita ao seu género. Ela é uma acção que recai sobre uma matéria indevida. Pois como as palavras são os sinais dos actos intelectuais, é anti-natural e indevido que alguém signifique por palavras algo que não está na sua mente. Por isso diz o Filósofo (Ethic. iv, 7) que “mentir é em si mesmo um mal que deve ser rejeitado, enquanto a veracidade é boa e digna de louvor”. Por isso toda a mentira é um pecado, como também S. Agostinho declara (Contra Mend. i).
«SOLUÇÕES: À primeira objecção digo que, é ilegítimo dizer que qualquer asserção falsa está contida quer no Evangelho, quer em qualquer Escritura canónica, ou que os seus autores disseram falsidades, porque assim a fé seria privada da sua certeza, que é baseada na autoridade da Sagrada Escritura. Que as palavras de várias pessoas sejam relatadas de formas diferentes no Evangelho e noutros livros sagrados não constitui uma mentira. Por isso diz S. Agostinho (De Consens. Evang. ii) “quem tem inteligência para entender que, para compreender a verdade é necessário chegar ao seu sentido, concluirá que não deve ser perturbado, quaisquer que sejam as palavras pelas quais esse sentido é expresso”. Por isso é evidente, como ele acrescenta, (De Consens. Evang. ii) “não devemos pensar que alguém está mentir se várias pessoas não descrevem da mesma forma e com as mesmas palavras aquilo que eles se lembram de ter visto ou ouvido”.
«À segunda objecção digo que, as parteiras foram recompensadas, não por terem mentido, mas pelo seu temor de Deus, e pela sua boa vontade, que depois as levou a dizer uma mentira. Por isso é dito expressamente (Ex 2, 21) “e porque as parteiras temeram a Deus, Deus erigiu as suas casas”. Mas a mentira subsequente não é meritória.
«À terceira objecção digo que na Sagrada Escritura, como S. Agostinho observa (Lib. De Mend. v), os actos de certas pessoas são relatados como exemplos de perfeita virtude, e não devemos acreditar que essas pessoas fossem mentirosos. Se, no entanto, algumas das suas afirmações parecem ser falsas, devemos entender essas afirmações como figurativas e proféticas. Por isso S. Agostinho diz (Lib. De Mend. v) “Devemos acreditar que o quer que seja relatado daqueles que, em tempos proféticos, são mencionados como dignos de crédito, foi dito ou feito por eles profeticamente”. Como Abraão, “quando disse que Sara era sua irmã, ele desejava ocultar a verdade, mas não dizer uma mentira, pois ela é chamada sua irmã porque é filha do pai dele”, diz S. Agostinho (QQ. Super. Gen. xxvi; Contra Mend. x; Contra Faust. xxii). Por isso o próprio Abraão afirma (Gn 20,12) “ela é realmente minha irmã, a filha do meu pai, mas não de minha mãe”, sendo sua parente do lado do pai. A afirmação de Jacob ser Esaú, o primogénito de Isaac, foi dita num sentido místico, pois a primogenitura era-lhe devida por direito. Ele fez uso deste tipo de linguagem movido pelo espírito de profecia, para significar um mistério, que o povo mais novo, os gentios, iria suplantar o mais velho, os judeus.
«Alguns, no entanto, são apresentados na Escritura, não por causa da sua virtude perfeita, mas por uma certa disposição virtuosa, vendo que era por causa de certo sentimento louvável que eram movidos a fazer certas coisas indevidas. É assim que Judite é louvada, não por ter mentido a Holofernes, mas pelo seu desejo de salvar o povo, por cuja finalidade ela se expôs ao perigo. Mas também se pode dizer que as suas palavras contém alguma verdade em sentido místico.
«À quarta objecção digo que uma mentira é pecadora, não apenas porque ofende o próximo, mas também por ser desordenada, como foi dito antes neste artigo. Não é permitido fazer nada de desordenado para evitar injúrias ou defeitos de outro, como não é permitido roubar para dar esmola, excepto talvez em caso de necessidade, quando todas as coisas são comuns. Por isso não é legítimo dizer uma mentira para livrar um outro de qualquer perigo. No entanto é legítimo ocultar a verdade prudentemente, sob alguma dissimulação, como diz S. Agostinho (Contra Mend. x).
«À quinta objecção digo que um homem não mente enquanto tem a pretensão de cumprir o que prometeu, porque não fala de forma diferente do que tem na mente. Mas se ele não cumpre a promessa, parece agir de má fé, ao mudar de ideias. Pode, no entanto, ser desculpado por duas razões. Primeiro, se prometeu algo evidentemente ilegítimo, porque pecou ao prometer, e fez bem ao mudar de ideias. Segundo, se as circunstâncias mudaram no que toca às pessoas ou ao assunto em questão. Pois, como diz Séneca (De Benef. iv) para um homem estar ligado a uma promessa, é necessário que tudo se mantenha inalterado. Em caso contrário, nem ele mente ao prometer, pois prometeu o que pretendia fazer dadas as circunstâncias subentendidas, nem está de má-fé quando não cumpre a promessa, porque as circunstâncias não são as mesmas. Por isso o Apóstolo, embora não tenha ido a Corinto, apesar de ter prometido ir (2Co 1), não mentiu, porque surgiram obstáculos que o impediram.
«À sexta objecção digo que uma acção pode ser considerada de duas formas. Primeiro, em si mesma. Segundo, no que toca ao agente. Assim, uma mentira brincalhona, pelo próprio género da acção, é de natureza a enganar. No entanto, na intenção de quem a diz, não é dita para enganar, nem engana pelo modo como é dita. Não há semelhança na expressões hiperbólicas ou de qualquer tipo de figurativas que encontramos na Sagrada Escritura. porque, como diz S. Agostinho (Lib. De Mend. v), “não é mentira fazer ou dizer qualquer coisa figurativamente, porque cada afirmação tem de ser referida à coisa afirmada. E quando uma coisa é dita ou feita figurativamente, ela afirma aquilo que aqueles para quem ela é dirigida compreendem que ela significa.» (ST II-II 110, 3) |