20- A felicidade é a visão de Deus

«A visão da Essência Divina enche a alma com todas as coisas boas, pois une-a com a fonte de toda a bondade» (ST, I-II,5,4)

21- A felicidade é a visão de Deus

«A felicidade última do homem consiste na visão sobrenatural de Deus» (ST II-II 2, 3)

94- Fim último do homem

«Aquilo em que um homem repousa como no seu fim último domina as suas afeições, pois disso ele tira regras para toda a sua vida. É por isso que se diz dos gulosos que “fazem do ventre o seu Deus” (Fil 3, 19) porque nas delícias desse género eles colocam o seu fim último. E Jesus disse-nos (Mt 6, 14) “não se pode servir a dois senhores”, que não estejam subordinados um ao outro. Por isso é impossível que um homem tenha vários fins últimos não subordinados uns aos outros» (ST I-II 1, 5 sc)

95- Fim último sempre presente

«Não é necessário para isso que tenhamos sem cessar o fim último no espírito quando desejamos ou fazemos alguma coisa. A influência activa de uma intenção primeira vinda do fim último persiste em cada movimento do apetite em toda a matéria, mesmo quando não pensamos actualmente no fim último. Um homem a caminho não pensa no termo da viagem a cada passo» (ST I-II 1, 6, 3)

104- Felicidade

«S Agostinho escreveu (De Trin. XIII, 3): “Todos os homens se unem no desejo de um fim último, que é felicidade”» (ST I-II 1, 7, sc)

«Podemos considerar o fim último de dois modos, primeiro quanto à sua essência de fim último e depois quanto ao que se encontra nesse fim. No primeiro caso, todos coincidem em desejar o fim último, porque todos desejam alcançar a sua própria perfeição, e isto é o essencial do fim último, como já foi dito (a.5). Mas no que respeita a determinar aquilo em que se encontra o fim último, não coincidem todos os homens, pois uns desejam as riquezas como bem perfeito, outros os prazeres, e outros qualquer outra coisa. Do mesmo modo, o doce é agradável a todos os gostos, mas uns preferem a doçura do vinho, outros a do mel, outros a de qualquer outra coisa. No entanto, deve-se considerar propriamente como doçura mais agradável a que satisfaz o gosto mais refinado. De igual modo deve-se considerar como bem mais perfeito o desejado como fim último por quem tem o afecto bem disposto.» (ST I-II 1, 7)

106- A felicidade não é criada

«É impossível que a felicidade do homem esteja em algum bem criado. Porque a felicidade é o bem perfeito que acalma totalmente o apetite; senão não seria o fim último, se ainda ficasse algo de apetecível. Mas o objecto da vontade, que é o apetite humano, é o bem universal. Ora está claro que só o bem universal pode acalmar a vontade do homem. Isto, porém, não se encontra em algo criado, mas só em Deus, porque toda a criatura tem uma bondade participada. Portanto, só Deus pode encher a vontade do homem, como se diz no Sl 103(102), 5: “É Ele quem enche de bens o teu desejo”. Logo a felicidade do homem consiste em Deus só.» (ST I-II 2, 8)

107- Bem-aventuranças

«Estas bem-aventuranças estão muito convenientemente enumeradas. Para isto ser evidente deve ser observado que a felicidade consiste em uma de três coisas: pois alguns atribuíram-na a uma vida sensual, outros a uma vida activa, e outros a uma vida contemplativa. Ora estes três tipos de felicidade estão em relações diferentes com a beatitude futura, em cuja esperança somos ditos ser felizes. Pois a felicidade sensual, sendo falsa e contrária à razão, é um obstáculo à futura bem-aventurança; enquanto a felicidade na vida activa é uma disposição para a futura beatitude; e a felicidade contemplativa, se perfeita, é a própria essência da futura beatitude, e se imperfeita, é um princípio dela.

«E por isso, Nosso Senhor, em primeiro lugar, indica certas bem-aventuranças removendo o obstáculo da felicidade sensual. Pois uma vida de prazer consiste em duas coisas. Primeiro na abundância de bens externos, sejam eles riquezas ou honras. Delas o homem é afastado por uma virtude, ao usá-los com moderação, e por um dom, de forma mais excelente, ao desprezá-los de todo. Assim a primeira bem-aventurança é: “Bem-aventurados os pobres em espírito”, que se pode referir, quer ao desprezo das riquezas, quer ao desprezo das honras, que resulta da humildade. Em segundo lugar, a vida sensual consiste em seguir as inclinações das paixões, sejam irascíveis ou concupiscíveis. O homem é afastado das paixões irascíveis por uma virtude, que as mantém dentro dos limites prescritos pela regra da razão, e por um dom, de forma mais excelente, para que o homem, de acordo com a vontade de Deus, não seja de todo perturbado por elas. Por isso a segunda bem-aventurança é “Bem- aventurados os mansos”. O homem é afastado das paixões concupiscíveis por uma virtude, ao usar estas paixões com moderação, e por um dom, para que, se necessário, as afaste completamente; ou antes, para que, se for preciso, faça uma escolha deliberada do sofrimento. Por isso a terceira bem-aventurança é “Bem- aventurados os que choram”.

«A vida activa consiste principalmente nas relações do homem com o seu próximo, quer por dever, quer por gratuidade expontânea. Para a primeira somos dispostos por uma virtude, para que não recusemos fazer o nosso dever para com o nosso próximo, o que pertence à justiça, e por um dom, para que façamos o mesmo com mais empenhamento, ao cumprir as obras da justiça com um desejo ardente, como o apetite fervente com que come e bebe um homem esfomeado e cheio de sede. Por isso a quarta bem-aventurança é: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”. No que toca aos favores expontâneos somos aperfeiçoados por uma virtude, para que demos quando a razão dite que devemos dar, por exemplo aos nossos amigos e outros que nos estão unidos, o que pertence à virtude da liberalidade, e por um dom, para que, pela reverência a Deus, consideremos apenas as necessidades daqueles a quem a nossa bondade gratuita se dirige: por isso está escrito (Lc 14, 12-13): “Ao dares um almoço ou jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos,” etc“mas chama os pobres, estropiados” etc.; que, propriamente, é ter misericórdia. Por isso a quinta bem-aventurança é: “Bem-aventurados misericordiosos”.

«As coisas que se referem à vida contemplativa são, quer a própria bem-aventurança final, quer um certo começo dela. E elas não são incluídas nas bem-aventuranças como méritos, mas como recompensas. Mas os efeitos da vida activa, que dispõem para a vida contemplativa, estão incluídos nas bem-aventuranças. Ora o efeito da vida activa, no que toca às virtudes e dons pelos quais o homem é aperfeiçoado em si mesmo, é a limpeza do coração do homem, para que não seja sujo pelas paixões: por isso a sexta bem-aventurança é “Bem-aventurados os puros de coração”. Mas no que se refere às virtudes e dons pelos quais o homem é aperfeiçoado em relação ao seu próximo, o efeito da vida activa é a paz, de acordo com (Is 32, 17) “A obra da justiça será a paz”. Por isso a sétima bem-aventurança é “Bem aventurados os obreiros da paz”»(ST I-II 69, 3)

121- O homem quer a felicidade

«A liberdade de opção propriamente dita tem a ver com a escolha. Mas a escolha trata dos meios que levam a um fim. O fim último é desejado naturalmente por todos os seres. Por isso todos os homens, pelo simples facto de terem intelecto, desejam naturalmente a felicidade como seu fim último, e fazem-no com tão imóvel fixidez de propósito que ninguém pode desejar ser infeliz. Mas isto não é incompatível com a liberdade da vontade, que apenas se estende aos meios que levam ao fim. O facto de um homem colocar a sua felicidade num bem particular enquanto outro a coloca noutro, não é característico de qualquer destes homens na medida em que são homens, pois nessas avaliações e desejos os homens manifestam grandes diferenças. Esta variedade é explicada pela condição de cada homem. Por “condição” quero dizer as paixões e hábitos adquiridos por cada homem, pelo que se a condição de um homem sofresse mudança, um outro bem parecer-lhe-ia mais desejável.

«Isto aparece claramente no facto de alguns homens serem levados pela paixão a desejar algum bem como o melhor. Quando a paixão, seja da ira ou da luxúria, afrouxa eles já não têm a opinião desse bem que antes tinham» (Compendium I 174)