25- Ignorância
«Se a ignorância causa involuntariedade é na medida em que despoja do conhecimento, que é uma condição necessária da voluntariedade, como foi declarado acima (a.1). Mas nem toda a ignorância despoja alguém deste conhecimento. Nesse sentido temos de ter em conta que a ignorância tem uma relação tripla com o acto da vontade: num sentido “concomitante”, noutro “consequente” e num terceiro “antecedente”.
«”Concomitantemente” quando o que é feito é ignorado, mas de forma que, mesmo que fosse sabido, também seria feito. Assim, a ignorância não induz a desejar que isto seja feito, mas acontece que uma coisa é, ao mesmo tempo, feita e não conhecida. No exemplo citado, um homem quer matar o seu inimigo, mas mata-o em ignorância, pensando matar um veado. Ignorância deste tipo, afirma o Filósofo (Ethic. iii, 1), não causa involuntariedade, porque não é causa de nada que seja repugnante à vontade; ela causa antes “não-voluntariedade”, porque não se pode querer um acto que se ignora.
«A ignorância é “consequente” ao acto da vontade na medida em que a própria ignorância é voluntária. Isto passa-se de duas formas, de acordo com os dois tipos mencionados de voluntário (a.3). Primeiro se o acto de vontade se refere à ignorância, quando um homem deseja não saber, para poder ter uma desculpa para pecar, ou não ser impedido de pecado, de acordo com Job 21,14 “Desejamos não ter o conhecimento dos teus caminhos”. É o que chamamos “ignorância afectada”. De outra forma, chamamos ignorância voluntária aquela que se refere àquilo que qualquer um pode e deve saber. É assim que, como dissemos acima (a.3), “não agir” e “não querer” podem chamar-se voluntários. Esta ignorância pode produzir-se quando não consideramos em acto o que podemos e devemos considerar; é a “ignorância de má escolha”, que tem a sua fonte numa paixão ou hábito; ou por outro lado porque não se dá ao trabalho de adquirir o conhecimento que se devia ter. É neste sentido que a ignorância dos princípios gerais da lei, que se é suposto conhecer, é voluntária, sendo devida a negligência. Sendo voluntária de uma ou de outra destas formas, a ignorância não pode ser causa de involuntário absoluto. No entanto causa involuntariedade num certo sentido, na medida em que precede o movimento da vontade para o acto, movimento que não se teria dado se houvesse conhecimento.
«A ignorância é “antecedente” ao acto da vontade quando não é voluntária e, no entanto, é a causa do desejo do homem, que ele não quereria de outra forma. Assim, o homem poderá desconhecer certas circunstâncias do seu acto, que ele não era suposto saber, tendo como resultado que ele faz o que não faria se conhecesse essa circunstância. Por exemplo, um homem, depois de tomar precaução devida, pode não saber que alguém vem pela estrada e, ao disparar uma seta, mata um passante. Essa ignorância causa involuntariedade absoluta.» (ST I-II 6, 8) |