180- Definição de milagre

«Um milagre propriamente dito acontece quando algo é feito fora da ordem da natureza. Mas não é suficiente para um milagre se algo é feito fora da ordem de qualquer natureza particular. Pois, se fosse assim, qualquer pessoa faria um milagre ao atirar uma pedra para cima, pois subir é contra a natureza da pedra. Por isso, para um milagre é preciso que seja contra a ordem de toda a natureza criada. Mas só Deus pode fazer isto, porque o quer que um anjo ou qualquer outra criatura faça pelo seu poder, isso é de acordo com a natureza criada, e portanto não é um milagre. Por isso, só Deus pode fazer milagres» (ST I 110, 4)

181- Falsos milagres

«Falando propriamente, como foi dito acima, milagres são aquelas coisas que são feitas fora da ordem de toda a natureza criada. Mas como nós não conhecemos todos os poderes da natureza criada, segue-se que quando algo é feito que nos parece fora da ordem da natureza criada, por um poder que nos é desconhecido, isso chama-se milagre em relação a nós. Por isso quando os demónios fazem algo pelo seu poder natural, essas coisas são chamadas “milagres” não em sentido absoluto, mas em referência a nós mesmos. Por esta forma os mágicos fazem milagres através dos demónios. E este são ditos ser feitos por “contratos privados”, na medida em que cada poder de uma criatura no universo pode ser comparada ao poder de uma pessoa privada numa cidade. Assim, quando um mágico faz algo por um pacto com o demónio, isto é feito como se fosse por um contrato privado.

«Por outro lado, a Justiça divina está em todo o universo como a lei pública numa cidade. Por isso os bons cristãos, quando fazem milagres através da Justiça divina, são ditos fazer milagres por “justiça pública”. Mas os maus cristãos por “sinais da justiça pública”, ao invocarem o nome de Cristo ou fazendo uso de outros sinais sagrados» (ST I 110, 4, 2)

183- Milagres de anjos e santos

«É evidente que só Deus pode fazer milagres pelo Seu próprio poder. Mas vemos que o império divino chega aos espíritos racionais inferiores, ou seja as almas dos homens, por meio dos espíritos superiores, ou seja os Anjos, como no caso da promulgação da Lei Antiga. Da mesma forma, o império divino pode, através dos espíritos angélicos ou humanos, chegar às criaturas corporais, pelas quais, de certa forma de falar, os decretos divinos são íntimos à natureza. Assim, os espíritos humanos e angélicos actuam como que instrumentos do poder divino para a realização de um milagre. Isto não significa que eles possuam um poder habitual permanente, pois nesse caso eles poderiam fazer milagres sempre que quisessem. De facto, S. Gregório declara isto como impossível (Dial. ii, 31) e prova esta asserção citando o exemplo de S. Paulo, que rezou para que o espinho lhe fosse retirado (2Co 12, 9), mas a sua oração não foi concedida, e de S. Bento, que contra a sua vontade foi detido pela tempestade, a qual fora concedida através da oração de sua irmã. O poder dos santos de cooperar com Deus na realização de milagres pode ser considerado como algo numa forma imperfeita chamada “intenções”, que não são permanentes e só são evocadas na presença de um agente principal, tal como a luz no ar e o movimento de um instrumento. Do mesmo modo, o dom gratuito que é a graça de milagres e de cura pode denotar um poder deste tipo. De forma que esta graça, sendo dada para que um homem possa operar sobrenaturalmente, é como a graça da profecia que é dada para que um homem saiba sobrenaturalmente, e pela sua virtude o profeta não pode profetizar quando ouve, mas apenas quando o espírito de profecia o move, como S. Gregório prova (Hom. in Ezech. i). Nem é estranho que deste modo Deus use as criaturas espirituais como instrumentos de forma a produzir efeitos maravilhosos na natureza corporal, pois vê-se que Ele também usa as criaturas corporais instrumentalmente para a santificação das criaturas espirituais, por exemplo nos sacramentos.» (De Potentia 6, 4)

184- Razões dos milagres

«Deus permite ao homem fazer milagres por duas razões. Primeiro, e principalmente, em confirmação da doutrina que um homem ensina. Pois como as coisas que pertencem à fé ultrapassam a razão humana, elas não podem ser provadas por argumentos humanos mas precisam de ser provados pelo argumento do poder divino. Para que, quando um homem faz obras que só Deus pode fazer, nós possamos acreditar que o que ele diz vem de Deus. Tal como, quando um homem é portador de cartas seladas com o anel do rei, deve ser acreditado que o que elas contêm expressa a vontade do rei.

«Segundo, de forma a tornar conhecida a presença de Deus num homem pela graça do Espírito Santo. Para que, quando um homem faz as obras de Deus nós possamos acreditar que Deus permanece nele pela Sua graça. Por isso está escrito (Gl 3, 5) “Aquele que vos dá o Espírito e faz milagres no meio de vós”» (ST III 43, 1)

185- Acreditar sem milagres

«Respondo que deve ser afirmado que ninguém é obrigado ao que está acima dos seus poderes, excepto na maneira que lhe é possível. No entanto, acreditar está acima dos poderes naturais do homem. Por isso, tal vem de um dom de Deus, como diz o Apóstolo em Ef 2, 8 “De graça fostes salvos pela fé, não por vós, pois ela é um dom de Deus” e em Fl 1, 29 “Porque, a vós foi dada a graça de assim actuardes por Cristo: não só a de n’Ele acreditar, mas também a de sofrer por Ele”. Um homem, portanto, só pode ser levado a acreditar na medida em que é ajudado por Deus a acreditar.

«Ora Deus ajuda alguém a acreditar de três formas. Primeiro através de um chamamento interior, sobre o qual Jo 6, 45 diz “Todo aquele que escutou o ensinamento que vem do Pai e o entendeu vem a mim” e Rm 8, 30 “Àqueles que predestinou, também os chamou”. Segundo, pelo ensinamento e pregação exteriores, de acordo com o Apóstolo em Rm 10, 17 “a fé surge da pregação, e a pregação surge pela palavra de Cristo”. Terceiro, pelos milagres exteriores, como 1Co 14, 22 diz que os sinais são dados àqueles a quem falta a fé, de forma a que por eles sejam elevados à fé. Se Cristo não tivesse feito milagres visíveis, ainda restariam as outras formas de levar à fé às quais os homens devem dar assentimento.Pois os homens devem acreditar na autoridade da Lei e dos profetas. Também devem não resistir ao chamamento interior, como diz Isaías (Is 50, 5) acerca dele mesmo “O Senhor Deus abriu os meus ouvidos, mas eu não resisti nem recuei” (como Act 7, 51 dizem acerca de alguns “Vós resistis ao Espírito Santo”)» (Quodlibet II 4, 1)