130- Espírito Santo e liberdade
«Devemos observar que os filhos de Deus são conduzidos pelo Espírito Santo, não como se fossem escravos, mas como livres. Pois, como ser livre é ser causa das próprias acções, somos ditos fazer livremente o que fazemos por nós próprio. Ora isso é o que fazemos voluntariamente, pois o que fazemos involuntariamente fazemo-lo, não livremente mas sob coerção. Esta coerção pode ser absoluta, quando a causa é totalmente exterior, e o paciente não contribui com nada para a acção, por exemplo quando um homem é levado a mover-se pela força. Ou pode ser parcialmente voluntária, quando o homem deseja fazer ou suportar aquilo que é menos oposto à sua vontade, para evitar aquilo que lhe é mais oposto. Ora o Espírito Santo inclina-nos a actuar de tal forma que façamos o acto voluntariamente, na medida em que Ele causa que sejamos amigos de Deus. Por isso os filhos de Deus são conduzidos a agir livremente e por amor, não escravizados e por medo. Por isso diz o Apóstolo (Rm 8, 15) “Não recebestes o espírito de escravidão que vos encha de medo, mas o espírito de adopção”.
«A vontade é dirigida para aquilo que é verdadeiramente bom. De forma que quando, por paixão ou por um hábito mau ou má disposição, um homem se afasta do que é verdadeiramente bem, ele actua servilmente, na medida em que é conduzido a algo de exterior, se considerarmos a direcção natural da vontade. Mas se considerarmos o acto da vontade, como inclinada para algo que é aparentemente bom, ele actua livremente quando segue a paixão ou o acto mau, mas actuará servilmente se, enquanto a sua vontade permanece a mesma, ele reprime o que deseja por medo da lei que proíbe o cumprimento do seu desejo. Do mesmo modo, o Espírito Santo, por amor inclina a vontade para o verdadeiro bem para o qual ela é naturalmente dirigida. Ele elimina assim quer a escravidão pela qual o homem, escravo da paixão e pecado, actua contra a ordem da vontade, e a escravidão pela qual um homem actua contra a inclinação da sua vontade, e em obediência da lei, como escravo e não amigo da lei. Por isso o Apóstolo diz (2Co 3, 17) “Onde está o Espírito do Senhor está a liberdade” e (Gl 5, 18) “Se fores conduzido pelo Espírito, não está sob a lei”. Por essa razão é que o Espírito Santo é dito mortificar as obras da carne, na medida em que os sofrimentos da carne não nos afastam do verdadeiro bem, para o qual o Espírito Santo nos conduz pelo amor, de acordo com Rm 8, 13: “se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis”» (CG IV, 22) |