119- Definição de liberdade

«De acordo com o Filósofo (Metaph. i, 2), aquilo que é “livre é causa de si mesmo”. Portanto age livremente aquele que age por iniciativa própria. Ora um homem opera por sua iniciativa se opera por um hábito conforme à sua natureza, pois o hábito inclina como uma segunda natureza. Se, no entanto, o hábito fosse contrário à natureza, o homem não operaria segundo o que ele mesmo é, mas segundo alguma corrupção que lhe tivesse corrompido a natureza. Assim pois, sendo a graça do Espírito Santo como um hábito interior infuso que nos move a operar bem, Ele faz-nos executar livremente o que convém à graça e evitar tudo o que a ela é contrario.» (ST I-II 108,1, 2)

122- Tipos de liberdade

«Visto que a vontade se diz livre enquanto não está sujeita à necessidade, a liberdade da vontade pode ser considerada sob três aspectos. (1) em relação ao seu acto, na medida em que pode querer ou não querer (velle vel non velle), (2) em relação ao seu objecto, na medida em que poder querer isto ou aquilo (velle hoc vel illud), mesmo se um é contrário ao outro, e (3) em relação à sua ordenação ao fim, enquanto pode escolher o bem ou o mal (velle bonum vel malum).

«No que toca ao primeiro destes três aspectos há liberdade da vontade em qualquer estado da natureza com referência a qualquer objecto, pois o acto de qualquer vontade está em potência em relação a qualquer objecto. No que toca ao segundo, existe liberdade em relação a alguns objectos, ou seja em relação aos que estão dirigidos ao fim, e não ao próprio fim, e isto em qualquer estado da natureza. Quanto ao terceiro, não existe liberdade nem em relação a todos os objectos, mas apenas em alguns, aos meios que se dirigem ao fim, nem em qualquer estado da natureza, mas apenas naqueles onde a natureza pode falhar.

Onde não existe falha na compreensão e comparação, não pode existir vontade do mal quando se trata dos meios, como é claro nos bem-aventurados. Por esta razão está escrito (S. Anselmo, De lib. arb., 1.) que querer o mal não é liberdade, nem qualquer parte dela, embora seja um sinal da liberdade.» (De Veritate 22, 6)

128- Liberdade e lei divina

«A obrigação do preceito não se opõe à liberdade senão daquele cujo espírito está desviado daquilo que lá está prescrito» (ST II-II 44, 1, 2)

129- Penitência e liberdade

«No momento da justificação do ímpio, o movimento do livre-arbítrio para Deus, que é o acto da Fé animada pela Caridade, e o movimento do livre-arbítrio detestando o pecado, que é o acto da penitência, são simultâneos. No entanto, destes dois actos, o primeiro tem uma prioridade de natureza sobre o segundo, porque é em virtude do acto de amor de Deus que o acto da virtude da penitência se opõe ao pecado» (ST III 85, 6)

130- Espírito Santo e liberdade

«Devemos observar que os filhos de Deus são conduzidos pelo Espírito Santo, não como se fossem escravos, mas como livres. Pois, como ser livre é ser causa das próprias acções, somos ditos fazer livremente o que fazemos por nós próprio. Ora isso é o que fazemos voluntariamente, pois o que fazemos involuntariamente fazemo-lo, não livremente mas sob coerção. Esta coerção pode ser absoluta, quando a causa é totalmente exterior, e o paciente não contribui com nada para a acção, por exemplo quando um homem é levado a mover-se pela força. Ou pode ser parcialmente voluntária, quando o homem deseja fazer ou suportar aquilo que é menos oposto à sua vontade, para evitar aquilo que lhe é mais oposto. Ora o Espírito Santo inclina-nos a actuar de tal forma que façamos o acto voluntariamente, na medida em que Ele causa que sejamos amigos de Deus. Por isso os filhos de Deus são conduzidos a agir livremente e por amor, não escravizados e por medo. Por isso diz o Apóstolo (Rm 8, 15) “Não recebestes o espírito de escravidão que vos encha de medo, mas o espírito de adopção”.

«A vontade é dirigida para aquilo que é verdadeiramente bom. De forma que quando, por paixão ou por um hábito mau ou má disposição, um homem se afasta do que é verdadeiramente bem, ele actua servilmente, na medida em que é conduzido a algo de exterior, se considerarmos a direcção natural da vontade. Mas se considerarmos o acto da vontade, como inclinada para algo que é aparentemente bom, ele actua livremente quando segue a paixão ou o acto mau, mas actuará servilmente se, enquanto a sua vontade permanece a mesma, ele reprime o que deseja por medo da lei que proíbe o cumprimento do seu desejo. Do mesmo modo, o Espírito Santo, por amor inclina a vontade para o verdadeiro bem para o qual ela é naturalmente dirigida. Ele elimina assim quer a escravidão pela qual o homem, escravo da paixão e pecado, actua contra a ordem da vontade, e a escravidão pela qual um homem actua contra a inclinação da sua vontade, e em obediência da lei, como escravo e não amigo da lei. Por isso o Apóstolo diz (2Co 3, 17) “Onde está o Espírito do Senhor está a liberdade” e (Gl 5, 18) “Se fores conduzido pelo Espírito, não está sob a lei”. Por essa razão é que o Espírito Santo é dito mortificar as obras da carne, na medida em que os sofrimentos da carne não nos afastam do verdadeiro bem, para o qual o Espírito Santo nos conduz pelo amor, de acordo com Rm 8, 13: “se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis”» (CG IV, 22)