28- Deus existe?

Artigo 2 – Deus existe?

«No que toca ao terceiro ponto, parece Deus não existe:
«Objecções 1. Um dos contrários, sendo infinito, destrói o outro totalmente. E como, pelo nome de Deus, se entende um bem infinito, se existisse Deus, o mal não existiria. O mal, porém, existe no mundo. Logo, Deus não existe..

«2. O que se pode fazer com menos não se deve fazer com mais. Ora, tudo o que no mundo aparece pode ser feito por outros princípios, supondo que Deus não exista; pois, o natural reduz-se ao princípio, que é a natureza; e o proposital, à razão humana ou à vontade. Logo, nenhuma necessidade há de se supor a existência de Deus..

«Sed contra. Mas, pelo contrário, está o que se diz na Escritura (Ex. 3, 14), da pessoa de Deus: “Eu sou aquele que sou”.
«Respondo: Por cinco vias se pode provar a existência de Deus. A primeira e mais manifesta é a procedente do movimento. É certo e verificado pelos sentidos que alguns seres estão em movimento neste mundo. Ora, todo aquele que está em movimento, é movido por outro. Porque nada está em movimento senão enquanto está em potência, relativamente àquilo em que é movido, e um ser move na medida em que está em acto. Pois mover não é senão levar alguma coisa da potência ao acto. Assim, o quente actual, como o fogo, torna a madeira, que é quente em potência, em quente actual e dessa maneira, a move e altera. Ora, não é possível uma coisa estar em acto e em potência ao mesmo tempo, sob o mesmo ponto de vista, mas só em pontos de vista diversos; pois, o quente actual não pode ser simultaneamente quente em potência, mas é frio em potência. Logo, é impossível uma coisa ser motora e movida ou mover-se a si própria, no mesmo ponto de vista e do mesmo modo, pois tudo o que é movido há-de sê-lo por outro. Se, portanto, o motor também se move, é necessário que seja movido por outro, e este por outro. Ora, não se pode assim proceder até ao infinito, porque não haveria nenhum primeiro motor e, por consequência, outro qualquer; pois, os motores segundos não movem, senão movidos pelo primeiro, como não se move o bordão sem ser movido pela mão. Logo, é necessário chegar a um primeiro motor, movido por nenhum outro, ao qual todos dão o nome de Deus.

«A segunda via procede da natureza da causa eficiente. Pois, descobrimos que há certa ordem das causas eficientes nos seres sensíveis; porém, não concebemos, nem é possível que uma coisa seja causa eficiente de si própria, pois seria anterior a si mesma; o que não pode ser. Mas é impossível, nas causas eficientes, proceder-se até o infinito; pois, em todas as causas eficientes ordenadas, a primeira é causa da intermédia, e esta é causa da última, sejam as intermédias muitas ou uma só. E, tal como removida a causa, fica removido o efeito, se nas causas eficientes não houver primeira, não haverá intermédia nem última. Procedendo-se ao infinito, não haverá primeira causa eficiente, nem efeito último, nem causas eficientes intermédias, o que evidentemente é falso. Logo, é necessário admitir uma causa eficiente primeira, à qual todos dão o nome de Deus.

«A terceira via, procedente do possível e do necessário, é a seguinte. Vemos que certas coisas podem ser e não ser, pois vê-se que são geradas e se corrompem. Ora, é impossível sempre terem existidos todos os seres de certa natureza, pois o que pode não ser, algum tempo não foi. Se, portanto, todas as coisas podem não ser, houve algum tempo em que nenhuma existia. Mas, se tal fosse verdade, ainda agora nada existiria pois, o que não é só pode começar a existir por uma coisa já existente; ora não existindo nenhum ser, é impossível que algum comece a existir, e portanto, nada existiria, o que, evidentemente, é falso. Logo, nem todos os seres são só possíveis, mas é forçoso que algum dentre eles seja necessário. Ora, tudo o que é necessário ou tem de fora a causa de sua necessidade ou não a tem. Mas não é possível proceder ao infinito, nos seres necessários, que têm a causa da própria necessidade, como também o não é nas causas eficientes, como já se provou. Por isso é forçoso admitir um ser por si necessário, não tendo de fora a causa da sua necessidade, sendo antes a causa da necessidade dos outros; e a tal ser, todos chamam Deus.

«A quarta via procede dos graus que se encontram nas coisas. Assim, nelas se encontram em proporção maior e menor o bem, a verdade, a nobreza e outros atributos semelhantes. Mas “mais” e “menos” são atributos de coisas diferentes, enquanto elas se aproximam mais ou menos de um máximo. Assim, o mais quente é o que mais se aproxima do máximo quente. Existe, portanto, algo que é o mais verdadeiríssimo, óptimo e nobilíssimo e, por consequente, maximamente ser; pois, as coisas maximamente verdadeiras são maximamente seres, como diz o Filósofo (Metaph. ii). Ora, o que é maximamente tal num género, é causa de tudo o que esse género compreende. Assim o fogo, maximamente quente, é causa de todos os quentes, como no mesmo lugar se diz. Logo, há um ser, causa do ser, e da bondade, e de qualquer perfeição em tudo quanto existe, e chama-se Deus.

«A quinta procede do governo das coisas. Pois, vemos que algumas, como os corpos naturais, que carecem de conhecimento, operam em vista de um fim; o que se conclui de operarem sempre ou frequentemente do mesmo modo, para conseguirem o que é óptimo; donde resulta que chegam ao fim, não pelo acaso, mas pela intenção. Mas, os seres sem conhecimento não tendem ao fim sem serem dirigidos por um ente conhecedor e inteligente, como a seta pelo arqueiro. Logo, há um ser inteligente pelo qual todas as coisas naturais se ordenam ao fim, e a que chamamos Deus.

«SOLUÇÕES: À primeira objecção digo que, como diz S. Agostinho (Enchiridion xi), “o Deus sumamente bom, de nenhum modo permitiria existir algum mal nas suas obras, se não fosse tão omnipotente e bom para até do mal tirar o bem”. Logo, pertence à infinita bondade de Deus permitir o mal para deste fazer jorrar o bem..

«À segunda objecção digo que, como a natureza opera para um fim determinado sob a direcção de um agente superior, é necessário que as coisas feitas por ela ainda se relacionem com Deus, como à sua causa primeira. Da mesma forma, todas as coisas que são feitas propositadamente devem-se relacionar com alguma causa mais elevada, pala lá da razão e vontade humanas, pois elas são mutáveis e deficientes. Pois todas as coisas que são móveis e susceptíveis de defeito reduzem-se a algum princípio primeiro imóvel e por si necessário, como se demonstrou.» (ST I 2, 3)

68- O nome de Deus

«Três razões explicam porque“O que é” é, em supremo grau, o nome próprio de Deus.

1) Pelo seu significado. Pois não significa alguma forma, mas o próprio ser. Daqui sai que, como o ser de Deus é a sua mesma essência, o que não pode ser dito de nada mais, como já ficou demonstrado ( Q.3 a.4), é evidente que, entre todos os outros nomes, este é o que em grau supremo propriamente indica a Deus, pois tudo é designado pela sua forma.

2) Pela sua universalidade. Pois todos os outros nomes, ou são menos comuns, ou, se lhe são equivalentes, acrescentam-lhe no entanto algum conceito que, de certo modo, o informam e determinam. Mas nesta vida o nosso entendimento não pode conhecer a essência de Deus, como ela é em si mesma, mas qualquer que seja o modo que aplique para compreender o que entende de Deus, nunca atingirá tudo o que Deus é em si mesmo. E assim, alguns nomes, quanto menos são determinados e mais comuns e absolutos, tanto mais propriamente são dados a Deus por nós. Por isso diz S. João Damasceno: “Entre todos os nomes que se dão a Deus, o principal é ‘O que é ’; pois este nome abarca- O todo, e inclui o mesmo ser como um mar infinito e indeterminado de sustância”. Pois qualquer outro nome determina de algum modo a sustância da coisa; mas este nome“O que é” não determina nenhum modo de ser, mas que está referido a todos; por isso lhe chama mar infinito de substância.

3) Pela sua co-significação. Pois significa existir no presente. E isso em grau supremo diz-se propriamente de Deus, cujo existir não conhece o passado nem o futuro, como diz S. Agostinho (em De Trin., V)» (ST I 13, 11)

69- Que se pode dizer sobre Deus

«Quando se sabe que algo existe, falta averiguar como é para que se possa chegar a saber o que é. Mas nós de Deus não podemos saber o que é mas o que não é, não temos meio de considerar como Ele é, mas antes como não é. Portanto, o primeiro tema a ser tratado (a.3-11) será como Ele não é; o segundo (a.12), como é conhecido por nós; e o terceiro (a.13) como Lhe chamar.

«Aquilo que Deus não é pode demostrar-se não Lhe aplicando tudo o que é incompatível com Ele: a composição, o movimento e coisas parecidas. Primeiro investigaremos a sua simplicidade (a.3), quando se lhe remove a composição. E como a simplicidade nas coisas corporais é imperfeita e divisível, em segundo lugar investigaremos a sua perfeição (a.4-6). Em terceiro lugar, a sua infinitude (a.7-8). Em quarto lugar, a sua imutabilidade (a.9-10). Em quinto lugar, a sua unidade (a.11).» (ST I 3, prólogo)

75- Paixões em Deus

«É claro do que foi dito que nenhuma das nossas emoções, propriamente falando, pode existir em Deus, excepto a alegria e o amor. E mesmo essas não estão n’Ele como estão em nós, como paixões.

«Que a alegria ou gozo está em Deus é confirmado pela autoridade da Escritura. Pois está dito no Salmo “delícias eternas à tua direita” (Sl 16(15), 11), falando da Divina Sabedoria, que é Deus como provámos. “Há mais alegria no Céu por um só pecador que se converte” (Lc 15, 10). Também o Filósofo diz ( Ethic. 7) que Deus alegra-se com um simples gozo.

«A Escritura também menciona o amor de Deus. “Tu que amas o povo” (Dt 33, 3). “Eu te amei com um amor eterno” (Jer 31, 3). “Pois o próprio Pai vos ama” (Jo 16, 27). Certos filósofos (cf. 1 Metaph. iv. i.) também ensinaram que o amor de Deus é o princípio das coisas, de acordo com o que diz S. Dionísio (Div. Nom. iv.) que o amor de Deus não lhe permitiu ser improdutivo.
«Deve, no entanto ser observado que as outras emoções que pela sua natureza específica não são aplicáveis a Deus, são aplicadas a Deus na Sagrada Escritura não em sentido próprio, como vimos, mas metaforicamente, por causa da semelhança quer dos efeitos, quer de alguma emoção precedente.

«Digo, em primeiro lugar, em semelhança dos efeitos porque por vezes a Sua vontade, por ordenação da sua Sabedoria, tende para um efeito para o qual uma pessoa é inclinada por meio de uma paixão deficiente. Assim um juiz pune por justiça, como um homem irritado pune por raiva. Do mesmo modo, por vezes Deus é dito estar irado, na medida em que, pela ordenação da sua Sabedoria, Ele quer punir alguém, como está dito no Salmo: “pois a Sua ira se acende depressa” (Sl 2, 12). Ele é dito ser misericordioso, na medida em que, pela sua benevolência, elimina a infelicidade do homem, tal como nós fazemos pela paixão da misericórdia. Por isso diz o Salmo: “O Senhor é clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia” (Sl 145(144), 8). Por vezes diz-se que Ele se arrepende, na medida em que, de acordo com o decreto eterno e imutável da Sua providência, Ele reconstrui o que antes destruiu, ou destrói o que antes fez, como fazem normalmente aqueles que são movidos pelo arrependimento. Por isso está escrito: “arrependo-me de ter feito os homens” (Gn 6, 7). Que isto não pode ser tomado no sentido próprio vê-se na passagem: “o Triunfador de Israel não poupará e não será movido pelo arrependimento” (1Rs 15, 29).

«Digo, em segundo lugar, em semelhança de alguma emoção precedente, pois o amor e a alegria, que estão em Deus em sentido próprio, são os princípios de todas as emoções: o amor por forma de princípio do movimento, a alegria por forma de fim. É por isso que até um homem irado se alegra enquanto pune, por ter conseguido o seu fim. Do mesmo modo, Deus é dito sofrer, na medida em que certas coisas acontecem contrariamente à quelas que Ele ama e aprova, assim como nós sofremos por aquilo que acontece contra a nossa vontade. Isso vê-se na passagem: “O Senhor viu e pareceu-lhe mau que não houvesse direito. Viu que não havia ninguém, espantou-se de que ninguém interviesse” (Is 59, 15-16).

«Pelo que foi dito, podemos refutar o erro de alguns Judeus que atribuem a Deus ira, sofrimento, arrependimento, e todos as paixões semelhantes no seu sentido próprio, sem discriminar entre as expressões próprias e metafóricas da Escritura .» (CG I 91)