6- Alma do homem e do animal

Artigo 3 – As almas dos animais irracionais são subsistentes?

«No que toca ao terceiro ponto, parece que as almas dos animais irracionais são subsistentes:

«Objecções 1. O homem pertence ao mesmo género que os outros animais. Mas, como já demonstrámos (a. 2), a alma do homem é algo subsistente. Portanto, as almas dos outros animais também são subsistentes.

«2. Além disso, a relação entre o sensitivo e o sensível é semelhante à que existe entre o intelectivo e o inteligível. Mas o entendimento conhece o inteligível sem o corpo. Por isso, os sentidos apreendem o sensível sem o corpo. Por outro lado, as almas dos animais irracionais são sensitivas. Por isso são subsistentes pela mesma razão que o é a alma do homem, que é intelectiva.
«3. Além disso, a alma dos animais irracionais move o corpo. E o corpo não move, mas é movido. Por isso, a alma do animal irracional realiza alguma operação sem o corpo.

«Sed contra. Mas, pelo contrário, está o que se diz no livro De Ecclesia Dogmatica,cap.xvi, xvii. «Acreditamos que só o homem tem uma alma substantiva; as almas dos animais não são substantivas»

«Respondo: Os antigos filósofos não punham distinção alguma entre os sentidos e o entendimento, e, como foi dito (ST I 75, 1 e ST I 50, 1), referiam os dois a um princípio corpóreo. Platão, pelo seu lado, distinguiu entre entendimento e sentidos, mas atribui cada um deles a um princípio incorpóreo, estabelecendo que é à alma, enquanto tal, que compete entender e sentir.

«Por sua vez, Aristóteles sustentou que, entre as operações da alma, só o entendimento se realiza sem órgão corporal. Pelo contrário, o sentir e as operações próprias da alma sensitiva é claro que se realizam com alguma mudança corporal, como, ao ver, a pupila muda com a espécie de cor. O mesmo sucede com outras operações. Resulta evidente, assim, que a alma sensitiva não tem, por si mesma, nenhuma operação própria, mas toda operação da alma sensitiva está unida ao corpo. De tudo isto se conclui que as almas dos animais irracionais, como não operam por si mesmas, não são subsistentes, pois em cada um há semelhança entre ser e operar.

«SOLUÇÕES: À primeira objecção digo que, o homem, mesmo que pertença ao mesmo género dos outros animais, distingue-se deles pela espécie. A diferença de espécie deve-se à diferença de forma. Não é necessário que toda a diferença de forma produza diversidade de género.

«À segunda objecção digo que, de certo modo, a relação entre o sensitivo e o sensível é semelhante à relação entre o intelectivo e o inteligível, ou seja, enquanto ambos estão orientados potencialmente para os seus objectos. Mas também de certo modo elas são diferentes, enquanto só o sensitivo é que recebe a acção do sensível pela mutação corporal. É por isso que a excessiva intensidade do sensível anula o sentido. Isto não sucede com o entendimento, pois o entendimento, entendendo aquilo que é mais sublime, pode depois entender muito melhor o que é menos sublime. Se, além disso, ao entender se cansa o corpo, isto só é acidentalmente, ou seja, enquanto que o entendimento necessita da cooperação das forças sensitivas com as quais se preparam as imagens.

«À terceira objecção digo que a força motriz é dupla. 1) Uma ordena o movimento. É a força apetitiva. A sua operação na alma sensitiva não se dá sem o corpo, pois a ira, a alegria e todas as paixões deste tipo se dão com alguma mudança corporal. 2) Outra executa o movimento pelo qual os membros se tornam aptos para obedecer à ordem do apetite. O seu acto não é mover, mas ser movido. Daqui que resulte claro que mover não é um acto da alma sensitiva realizada sem o corpo.» (ST I 75, 3)

13- Deus é a origem de tudo

«Deus está em todas as coisas, não como uma parte da sua essência, não como um acidente, mas como o agente que está presente naquilo em que age. (...) Deus, sendo o ser por essência, é necessário que o ser criado seja o seu efeito próprio, como queimar é o efeito próprio do fogo. E este efeito Deus produ-lo nas coisas não apenas quando as coisas começam a ser, mas enquanto elas são mantidas no ser, como a luz é causada no ar pelo sol, enquanto o ar estiver iluminado. Assim, na medida em que uma coisa existe, é necessário que Deus lhe esteja presente, e isso segundo a maneira como ela possui o ser. Ora o ser é em cada coisa o que há de mais íntimo e que penetra no seu mais profundo (...) Assim, é necessário que Deus esteja em todas as coisas, no seu íntimo» (ST I 8, 1)

16- Deus é o fim de tudo

«A bondade divina é o fim de todas as coisas» (ST I 44, 4)

17- Deus é o fim de tudo

«Todas as coisas desejam Deus como seu fim, quando desejam alguma coisa boa, quer este desejo seja intelectual, sensível ou natural i.e. sem conhecimento, porque nada é bom e desejável a não ser na medida em que participa na semelhança com Deus» (ST I 44, 4, 3)

22- Tudo vem de Deus e vai para Deus

«Na sua emanação a partir do primeiro Princípio, as criaturas realizam uma espécie de circuito, de movimento giratório, retornando todas as coisas, como ao seu fim, àquele primeiro princípio de onde saíram. Deve também notar-se que o seu retorno ao fim opera-se pelas mesmas causas da sua saída do princípio. Já dissemos atrás (d.13, q.1, a.1) que a processão das pessoas [divinas] é a razão suprema da produção das criaturas pelo primeiro princípio. Ela é portanto também a razão do regresso ao fim. Nós fomos criados pelo Filho e pelo Espírito Santo, e é ainda por eles que nós somos unidos ao nosso fim (...) Assim, há duas maneiras de considerar a processão das pessoas nas criaturas. Em primeiro lugar, como razão da produção das coisas: é esta processão que está em causa, se considerarmos os dons naturais que nos fazem subsistir; S. Dionísio diz assim que a sabedoria ou a bondade divina “procedem” nas criaturas (...) Em segundo lugar, como razão do regresso ao fim: então consideramos apenas os dons que nos unem de perto a Deus, Fim último, que são a graça santificante e a glória.» (Sententiae I 14, 2, 2)

86- Deus é diferente do universo

«Por termos afirmado que Deus é somente ser, não devemos cair no erro daqueles que disseram que Deus é aquele ser universal pelo qual qualquer coisa formalmente é. Ora, o ser que é Deus é de tal condição que nenhum acréscimo lhe pode ser feito. Daí inferir-se que, pela sua pureza mesma, é um ser distinto de todo o outro ser» (De ente et essentia c. 6, nº63)

87- Deus é o ser de tudo

«Todo o ser, de qualquer maneira que exista, existe necessariamente por Deus. Porque se um ser se encontra noutro por participação é necessário que seja causado aí por aquilo a que ele pertence por essência. Por exemplo, o ferro é levado à incandescência pelo fogo. Ora mostrámos antes que Deus é o próprio ser subsistente em si. E mostrámos em seguida que o ser subsistente não pode ser senão único. Por exemplo, se a brancura existisse por si mesmo, ela seria forçosamente única, pois as brancuras só são múltiplas por causa dos sujeitos que as recebem. Resulta pois que todos os seres para lá de Deus, não são o seu próprio ser, mas participam do ser. É pois necessário que todos os seres que se diversificam porque participam diversamente do ser, na medida em que têm mais ou menos perfeição, sejam causados por um único ser primeiro, que é absolutamente perfeito» (ST I 44, 1)

90- Todo o universo ama a Deus

«Amar a Deus acima de todas as coisas é conatural ao homem, tal como é a todas as criaturas, não apenas racionais mas irracionais, e mesmo inanimadas, segundo o modo de amar que convém a cada criatura. A razão disso é que é natural a cada ser procurar e amar coisas da forma como nasceu apto para fazer, pois “todas as coisas actuam de acordo como são naturalmente feitas” como está dito (Phys. ii, 8). Ora é manifesto que o bem da parte é para o bem do todo. Por isso, tudo o que existe, pelo seu apetite e amor natural, ama o seu próprio bem por causa do bem comum de todo o universo, que é Deus. Por isso diz S. Dionísio (Div. Nom. iv) “Deus conduz tudo para o amor de Si mesmo”. Por isso, o homem no estado íntegro de natureza, referia o amor de si próprio e de todas as coisas ao amor de Deus como seu fim. Assim, ele amava Deus mais do que a si mesmo e acima de todas as coisas. Mas no estado de natureza corrompida, o homem não atinge isto no apetite da sua vontade racional, a qual, a não ser que seja curado pela graça de Deus, segue o seu bem privado. Por causa da corrupção da natureza.» (ST I-II 109, 3)

92- O fim do universo é exterior

«Como o fim de uma coisa corresponde ao seu princípio, não é possível ignorar o fim das coisas, sendo conhecido o seu princípio. Assim, pois, sendo o princípio das coisas algo extrínseco a todo o universo, ou seja Deus, como foi demonstrado (q.44 a.1), então necessariamente o fim das mesmas coisas tem de ser também algum bem extrínseco a elas.

«Isto tem uma razão evidente. É evidente que o bem tem carácter de fim. Vemos que o fim particular de cada coisa é um bem particular, e também que o fim universal de todas as coisas é o Bem Universal. O Bem Universal é aquele que é bem em virtude da sua essência; ou seja, que é essencialmente bom e é a essência da bondade. O bem particular é aquele que é bem por participação. Ora é evidente que, em todo o conjunto das criaturas, nenhuma é boa a não ser por participação. Portanto, o bem que é o fim de todo o universo, tem de ser necessariamente exterior a todo o universo.» (I 103, 2)

«O Filósofo faz a divisão dos fins refe rindo-se às artes. Destas, umas têm por fim a execução mesma da arte. Por exemplo, o fim do tocador de cítara é tocar cítara. Outras têm, pelo contrário, por fim algo já realizado. Por exemplo, o fim do construtor não é construir, mas é a casa. Para além disso, uma coisa extrínseca pode ser o fim não apenas enquanto seja executada, mas também como possuída ou obtida, ou até como representada. Por exemplo, dizemos que Hércules é o fim da estátua que dele se faz para representá-lo. Portanto, pode-se dizer que o bem extrínseco a todo o universo é o fim do governo dos seres enquanto bem obtido e enquanto bem representado. Porque a ele tenderão por natureza todas as coisas: quer a participar do bem, quer a assemelhar-se a ele no possível.» (I 103, 2, 2)