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65- Acreditar no invisível«Alguns dizem que é loucura acreditar naquilo que não vemos, e que uma pessoa não deve acreditar naquilo que não vê. Respondo, em primeiro lugar, dizendo que a natureza imperfeita do nosso intelecto elimina a base desta dificuldade. Pois se o homem, por si, pudesse conhecer de forma perfeita todas as coisas visíveis e invisíveis, então seria loucura acreditar naquilo que não vê. Mas a nossa forma de conhecer é tão fraca que nenhum filósofo poderia investigar perfeitamente nem sequer a natureza de uma pequena mosca. Lemos até que um filósofo esteve trinta anos em solidão para conhecer a natureza da abelha. Se pois o nosso intelecto é tão fraco, não será antes loucura que, naquilo que toca a Deus, o homem apenas acredite no que pode conhecer por si mesmo ? E contra isto há a palavra de Job “Eis que Deus é grande, maior que a nossa ciência” (Job 36, 26, vulgata). «Em segundo lugar, podemos responder que, se um mestre dissesse algo relativo ao seu ramo da ciência e algum homem ignorante o contradissesse apenas pelo motivo que não o compreende, muito louco seria considerado este homem. Ora o intelecto dos Anjos excede muito mais o intelecto do maior dos filósofos do que o melhor filósofo excede o intelecto do homem ignorante. Portanto, o filósofo é louco se recusa acreditar naquilo que os Anjos dizem, e muito mais louco se recusa acreditar no que Deus diz. E contra isto está dito “Muitas coisas te foram mostradas acima da compreensão dos homens” (Eclo (Sir) 3, 25, vulgata). «Em terceiro lugar, poder-se-ia responder que se alguém quisesse acreditar apenas naquelas coisas que conhece com certeza, não poderia viver neste mundo. Como poderia alguém viver sem acreditar nos outros? Como poderia saber que este homem é o seu próprio pai? Por isso, é preciso que uma pessoa acredite nos outros naqueles assuntos que não pode saber perfeitamente por si mesmo. Mas ninguém é tão digno de credibilidade quanto Deus, e por isso os que não acreditam nas palavras da Fé não são sábios, mas loucos e orgulhosos. Como diz o Apóstolo “Ele é soberbo, nada entende” (1Tim 6, 4), e ainda “eu sei em quem coloquei a minha Fé, e estou seguro” (2Tim 1, 12). E está escrito “Vós, que temeis o Senhor, acreditai nele e a recompensa não vos faltará” (Eclo (Sir) 2, 8). «Finalmente, poder-se-ia também dizer que Deus prova a verdade das coisas que a Fé ensina. Assim, se um rei mandasse cartas marcadas com o seu selo, ninguém se atreveria a dizer que essas cartas não representam a vontade do rei. Da mesma forma, tudo o que os Santos acreditaram e nos deixaram acerca da Fé em Cristo está marcado com o selo de Deus. Esse selo consiste naquelas obras que nenhuma simples criatura poderia realizar; elas são os milagres pelos quais Cristo confirma as palavras dos Apóstolos e dos Santos. «Se disseres que ninguém testemunhou esses milagres, respondo desta forma. É um facto que todo o mundo adorava ídolos e que a Fé em Cristo era perseguida, como as histórias dos pagãos também informam. Mas agora todos estão virados para Cristo. Homens sábios, nobres e ricos, convertidos pelas palavras dos simples e pobres pregadores de Cristo. Ora este facto ou é um milagre ou não é. Se é miraculoso, tens o que pedistes, um facto visível. Se não é, então não pode haver maior milagre do que todo o mundo ter sido convertido sem milagres. E não precisamos ir mais longe.» (In Symbolum Apostolorum, prólogo) |
66- Fé e intelecto«Entre os actos do intelecto, alguns comportam uma adesão firme sem qualquer tipo de reflexão, como acontece quando consideramos as coisas de que temos ciência certa ou que compreendemos, pois uma tal consideração está já formada. Mas alguns actos do intelecto comportam uma adesão informe sem adesão firme, seja que ele não se inclina para nenhum lado, como acontece ao que duvida, seja que se inclina mais para um lado mas retido por motivo ligeiro, como acontece ao que tem uma suspeita, seja o que adere a um partido, mas com medo que o outro seja verdadeiro, como acontece ao que tem uma opinião. Mas o acto que consiste em crer contém uma adesão firme a um partido. E nisto o crente está na mesma situação do que tem a ciência e daquele que compreende. Mas, no entanto, o seu conhecimento não está no estado perfeito, como permitiria a visão evidente. Nisto ele encontra-se como o homem que tem dúvida, suspeita ou opinião» (ST II-II 2, 1) |
67- Elementos da fé«Convém aqui fazer quatro considerações sobre a Fé: «1. Primeiro, em que é que ela consiste. Porque ela implica um certo assentimento acompanhado de certeza àquilo que não se vê, pela vontade, pois segundo S. Agostinho “ninguém crê a não ser que queira” (In Evan. Ioan XXVI, 2). Nisto, aquele que crê difere daquele que duvida, pois este não dá o seu assentimento mais a um lado que ao outro; difere também daquele que tem uma opinião, pois este dá o seu assentimento a um lado não com certeza, mas com medo que a verdade esteja do outro lado; difere ainda do que sabe, que dá o seu assentimento pela certeza fundando-se numa necessidade de razão. Segundo estas distinções, a fé é intermediária entre a ciência e a opinião. «2. Em seguida, convém considerar se a fé é uma virtude. É manifesto que não é uma virtude se a tomamos pelo objecto da fé, por exemplo segundo este artigo do Símbolo «Quicumque»: “ora a fé católica consiste nisto: veneramos um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade”. Mas se a tomamos pelo hábito pelo qual nós acreditamos, ela às vezes é uma virtude, outras vezes não. Pois a virtude é o princípio de um acto perfeito. Ora um acto dependente de dois princípios não pode ser perfeito se falta a perfeição a um dos dois princípios: assim a equitação não pode ser perfeita se o cavalo não anda bem, ou se o cavaleiro não sabe conduzir o seu cavalo. Quanto ao acto de fé, que consiste em crer, ele depende da inteligência e da vontade movendo a inteligência até ao assentimento. É por isso que o acto de fé será perfeito se a vontade é aperfeiçoada pelo hábito da caridade e a inteligência pelo hábito da fé; ele não será se a caridade vem a faltar. É por isso que a fé formada pela caridade é uma virtude, mas não a fé informe. «3. Depois convém considerar que o hábito da fé, que é numericamente o mesmo, de informe que era sem a caridade torna-se virtude quando a caridade se lhe junta, porque a caridade estando fora da essência da fé, a sua vinda e o seu afastamento não muda a substância da fé. «4. Enfim, convém considerar que, tal como o corpo vive pela alma de uma vida natural, assim a alma vive de Deus pela vida da graça. Ora Deus habita primeiro na alma pela fé. “Que Deus habite pela fé nos vossos corações” (Ef 3, 17). Mas esta habitação só é perfeita se a fé for formada pela caridade, que, como diz a Epístola aos Colossenses, é “o vínculo da perfeição” (Col 3, 14), unindo-nos a Deus.” (Super Epistolam B. Pauli ad Romanos c.1, lect. 6) |
150- Duas verdades da fé«A nossa fé compreende sobretudo duas verdades: 1º o verdadeiro conhecimento de Deus, pois segundo a Epístola aos Hebreus (Hb 11, 6) “Aquele que se aproxima de Deus deve acreditar que Ele existe”. 2º O mistério da Incarnação do Verbo: “Vós que acreditais em Deus, acreditai também em mim”, diz o Senhor em S. João (Jo 14, 1)» (ST II-II 174, 6) |