220- Pai Nosso
«A Oração do Senhor é a absolutamente perfeita pois, como diz S. Agostinho (ad Probam Ep. cxxx, 12), “se rezarmos rectamente e adequadamente, não podemos dizer nada mais do que está contido nesta oração de nosso Senhor”. A oração é, com efeito, como que o intérprete dos nossos desejos diante de Deus. Só podemos pedir rectamente algo na nossa oração se o pudermos desejar rectamente. Ora a oração do Senhor não só pede tudo o que podemos desejar rectamente, mas também na ordem em que o devemos desejar. Assim, esta oração não apenas nos ensina a pedir, mas também a ordenar as nossas afeições.
«Ora é evidente que o objecto dos nossos desejos deve ser, em primeiro lugar, o fim e, em segundo lugar, os meios para o atingir. O nosso fim é Deus, para O qual tende o movimento do nosso coração a dois títulos. Primeiro, queremos a glória de Deus e, segundo, queremos gozar da glória de Deus. Trata-se primeiro do amor que nós temos ao próprio Deus e depois do amor pelo qual nos amamos a nós mesmos em Deus. Daí o nosso primeiro pedido ser “Santificado seja o Vosso nome”, que exprime o nosso desejo da glória de Deus, e o segundo “Venha a nós o Vosso reino”, pelo qual pedimos para chegar à glória de Deus e ao seu reino.
«Para atingir este fim, há dois tipos de meios. Uns levam-nos lá por sua essência, outros por acidente. O que nos conduz lá essencialmente é o bem útil a este fim bendito. Ora uma coisa é útil de duas formas. Primeiro de uma forma directa e principal: tudo o que, sob forma de mérito, nos leva à beatitude, fazendo-nos obedecer a Deus. É o objecto do pedido “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu”. Depois de uma forma instrumental e que vem, de certa maneira, cooperar na nossa actividade meritória. É a este propósito que dizemos “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, quer entendamos por isto o pão sacramental, cujo uso quotidiano é proveitoso ao homem, e no qual todos os outros sacramentos estão contidos; quer o pão do corpo, pelo qual entendemos “todas as necessidades da vida”, segundo S. Agostinho (ad Probam, Ep. cxxx, 11). A Eucaristia é, de facto, o primeiro dos sacramentos e o pão é o alimento fundamental. É o que indica o Evangelho de S. Mateus que diz “supersubstancial”, quer dizer “principal”, como explica S. Jerónimo.
«Por acidente, somos dirigidos à beatitude pela remoção de obstáculos. Ora existem três obstáculos no caminho da beatitude. 1º O pecado, que nos exclui directamente do Reino, segundo S. Paulo (1Co 6, 9) “Nem os imorais, nem os idólatras, etc herdarão o Reino de Deus”, o que nos faz dizer “Perdoai-nos as nossas ofensas”. 2º A tentação que nos impede de guardar a vontade de Deus. Daí este pedido “Não nos deixeis cair em tentação”, pelo qual pedimos, não para não sermos tentados, mas para não sermos vencidos pela tentação, que é “cair em tentação”. 3º As penas da vida presente, que é um tipo de obstáculo a uma vida suficiente, e a isto referimo-nos pelas palavras: “Livrai-nos do mal”» (ST II-II 83, 9) |