208- Orar continuamente

«Podemos falar da oração de duas formas. Primeiro considerando-a em si mesma. Segundo, considerando-a na sua causa. A causa da oração é o desejo da caridade, da qual a oração deve surgir. Este desejo deve ser em nós contínuo, quer actualmente quer virtualmente, pois a virtude deste desejo permanece em tudo o que fazemos por caridade, e nós devemos fazer “todas as coisas para glória de Deus” (1Co 10, 31). Deste ponto de vista a oração deve ser contínua. Por isso diz S. Agostinho (ad Probam, Ep. cxxx, 9) “Fé, esperança e caridade são em si mesmas uma oração de anseio contínuo”.

«Mas a oração, considerada em si mesma, não pode ser contínua porque temos de nos ocupar noutras obras, como diz S. Agostinho (ibidem) “nós rezamos a Deus com os nossos lábios em certos intervalos e tempos, para com esses sinais nos admoestarmos a nós mesmos, notando o nosso progresso nesse desejo, e excitando-nos a aumentá-lo”.

«Ora a quantidade de uma coisa deve ser proporcional ao seu fim, como a quantidade do remédio é proporcional à saúde. Por isso, é conveniente que a oração dure o suficiente para excitar o fervor do desejo interior. Mas quando excede esta medida, de forma que não possa ser continuada sem causar tédio, ela não deve ser prolongada. Por isso diz S. Agostinho “Diz-se que os irmãos no Egipto fazem orações frequentes mas muito curtas, como se fossem jaculatórias rápidas, para que a atenção vigilante e erecta, que é tão necessária à oração, não enfraqueça e embote a intenção pela pressão prolongada. Fazendo assim eles tornam bem claro, não só que a atenção não pode ser forçada se formos incapazes de a manter, mas também que, se conseguirmos continuar, ela não deve ser quebrada demasiado cedo”. Assim como isto deve ser considerado na oração privada, acerca da atenção da pessoa que reza, também o devemos considerar nas orações públicas, acerca da devoção do povo.» (ST II-II 83, 14)

212- Orar continuamente

«Oramos continuamente seja pela continuidade do desejo, como acabámos de dizer, seja porque não deixamos de rezar nos momentos fixados, seja por razão da eficácia da oração, quer no próprio orante, que fica mais devoto, mesmo depois da oração, seja ainda num outro, por exemplo se pelos seus benefícios incita outros a rezar por vós, mesmo depois da oração.» (ST II-II 83, 14, 4)

213- Para que rezamos

«Nós não rezamos para mudar a ordem estabelecida por Deus, mas para obter aquilo que Deus decidiu realizar por meio das orações dos santos» (ST II-II 83, 2)

214- Deus não precisa da oração

«Nós testemunhamos a Deus honra e reverência não por Ele, porque em Si mesmo Ele está cheio de uma tal glória que a criatura não lhe pode acrescentar nada, mas por nós. Pois reverenciar Deus e honrá-lo é, de facto, sujeitar-lhe o nosso espírito, que encontra nisso a sua perfeição. Com efeito, todas as coisas encontram a sua perfeição na sujeição ao que lhe é superior» (ST II-II 81, 7)

215- O que nos motiva à oração

«Os assuntos relativos à divindade são, em si mesmos, o mais forte incentivo ao amor e, consequentemente, à devoção, porque Deus é sumamente amável. Mas a fraqueza do espírito humano, tal como tem necessidade de ser conduzido pela mão até ao conhecimento divino, implica que nós não cheguemos ao amor das coisas divinas sem a ajuda de realidades sensíveis adaptadas ao nosso conhecimento. Primeira entre elas está a humanidade de Cristo, de acordo com as palavras do prefácio do Natal “para que conhecendo Deus visivelmente nós sejamos conduzidos ao amor das coisas invisíveis”. Por isso os assuntos relacionados com a humanidade de Cristo são o principal incentivo à devoção, levando-nos como uma mão que nos guia, embora a devoção tenha por objecto assuntos relacionados com a divindade.» (ST II-II 82, 3, 2)

216- Oração distraída

«Deixar propositadamente a nossa mente vaguear durante a oração é pecado e impede a oração de ter fruto. É contra isto que S. Agostinho diz na sua Regra (Ep. ccxi) “Quando rezais a Deus com salmos e hinos, deixai a vossa mente atender ao que os vossos lábios pronunciam”. Mas vaguear sem intenção não priva a oração dos seus frutos. Por isso diz S. Basílio (De Constit. Monach. i) “Se estais tão verdadeiramente enfraquecidos pelo pecado que sois incapazes de rezar com atenção, procurai o mais que puderdes dominar-vos, e Deus vos perdoará, vendo que estais incapazes de estar na Sua presença de forma adequada, não por negligência, mas por fraqueza”» (ST II-II 83, 13, 3)

217- Atenção na oração

«Esta questão tem lugar principalmente na oração vocal. Ao tratar de resolvê-la temos de ter em conta que dizemos que uma coisa é necessária de dois modos. Primeiro, como meio de melhor chegar ao fim. E neste sentido a atenção é absolutamente necessária à oração.

«Do segundo modo diz-se que algo é necessário quando sem ele uma coisa não pode atingir o seu efeito. Ora os efeitos da oração são três. O primero, comum a todos os actos informados pela caridade, é o mérito. Para este efeito não se requer necessariamente que a atenção se mantenha do princípio ao fim, mas a virtualidade da intenção inicial, com que alguém se aproxima da oração, faz meritória a oração inteira, tal como sucede nos demais actos meritórios. O segundo efeito é próprio da oração, e consiste em implorar. Também basta para consegui-lo a primeira intenção, que é aquela em que Deus se fixa principalmente. Mas se esta primeira intenção falta, a oração não é nem meritória nem impetratória, pois “Deus não escuta a oração que se faz sem intenção”, como diz São Gregório. O terceiro efeito da oração é o que se produz no acto de orar, ou seja, uma certa regeneração espiritual da alma. Para isto requer-se necessariamente a atenção enquanto se ora. Como se lê em 1 Cor 14, 14: “Se oro só com a minha língua, o meu espírito não disfruta”.

«Deve ter-se em conta, no entanto, que a atenção que pode prestar-se à oração é de três tipos. Uma é a atenção às palavras, para que não se digam erros; a segunda é a atenção ao sentido das palavras; a terceira é a atenção à finalidade da oração, ou seja, a Deus e àquilo por que se ora. Esta é, sem dúvida, a mais necessária, e podem tê-la até os mais ignorantes. E por vezes esta intenção que eleva a alma esquece todo o mais, como diz Hugo de São Victor.» (ST II-II 83, 13)

220- Pai Nosso

«A Oração do Senhor é a absolutamente perfeita pois, como diz S. Agostinho (ad Probam Ep. cxxx, 12), “se rezarmos rectamente e adequadamente, não podemos dizer nada mais do que está contido nesta oração de nosso Senhor”. A oração é, com efeito, como que o intérprete dos nossos desejos diante de Deus. Só podemos pedir rectamente algo na nossa oração se o pudermos desejar rectamente. Ora a oração do Senhor não só pede tudo o que podemos desejar rectamente, mas também na ordem em que o devemos desejar. Assim, esta oração não apenas nos ensina a pedir, mas também a ordenar as nossas afeições.

«Ora é evidente que o objecto dos nossos desejos deve ser, em primeiro lugar, o fim e, em segundo lugar, os meios para o atingir. O nosso fim é Deus, para O qual tende o movimento do nosso coração a dois títulos. Primeiro, queremos a glória de Deus e, segundo, queremos gozar da glória de Deus. Trata-se primeiro do amor que nós temos ao próprio Deus e depois do amor pelo qual nos amamos a nós mesmos em Deus. Daí o nosso primeiro pedido ser “Santificado seja o Vosso nome”, que exprime o nosso desejo da glória de Deus, e o segundo “Venha a nós o Vosso reino”, pelo qual pedimos para chegar à glória de Deus e ao seu reino.

«Para atingir este fim, há dois tipos de meios. Uns levam-nos lá por sua essência, outros por acidente. O que nos conduz lá essencialmente é o bem útil a este fim bendito. Ora uma coisa é útil de duas formas. Primeiro de uma forma directa e principal: tudo o que, sob forma de mérito, nos leva à beatitude, fazendo-nos obedecer a Deus. É o objecto do pedido “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu”. Depois de uma forma instrumental e que vem, de certa maneira, cooperar na nossa actividade meritória. É a este propósito que dizemos “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, quer entendamos por isto o pão sacramental, cujo uso quotidiano é proveitoso ao homem, e no qual todos os outros sacramentos estão contidos; quer o pão do corpo, pelo qual entendemos “todas as necessidades da vida”, segundo S. Agostinho (ad Probam, Ep. cxxx, 11). A Eucaristia é, de facto, o primeiro dos sacramentos e o pão é o alimento fundamental. É o que indica o Evangelho de S. Mateus que diz “supersubstancial”, quer dizer “principal”, como explica S. Jerónimo.

«Por acidente, somos dirigidos à beatitude pela remoção de obstáculos. Ora existem três obstáculos no caminho da beatitude. 1º O pecado, que nos exclui directamente do Reino, segundo S. Paulo (1Co 6, 9) “Nem os imorais, nem os idólatras, etc herdarão o Reino de Deus”, o que nos faz dizer “Perdoai-nos as nossas ofensas”. 2º A tentação que nos impede de guardar a vontade de Deus. Daí este pedido “Não nos deixeis cair em tentação”, pelo qual pedimos, não para não sermos tentados, mas para não sermos vencidos pela tentação, que é “cair em tentação”. 3º As penas da vida presente, que é um tipo de obstáculo a uma vida suficiente, e a isto referimo-nos pelas palavras: “Livrai-nos do mal”» (ST II-II 83, 9)