186- Presença na Eucaristia

«A presença do verdadeiro corpo e sangue de Cristo neste sacramento não pode ser detectada pelos sentidos, nem pelo entendimento, mas apenas pela fé, que se apoia na divina autoridade. Por isso, sobre o texto “Este é o meu corpo que será entregue por vós” (Lc 22, 19), S. Cirilo diz “Não duvidemos que é verdade, mas tomai antes as palavras do Salvador com fé, pois Ele é a Verdade. Ele não mente”

«Esta presença é conveniente, em primeiro lugar para a perfeição da Nova Lei. Pois os sacrifícios da Antiga Lei continham apenas em figura o verdadeiro sacrifício da Paixão de Cristo, como está dito “A Lei é apenas a sombra dos bens futuros e não a verdadeira realidade das coisas” (Hb 10,1). Portanto era preciso que o sacrifício da Nova Lei instituído por Cristo tivesse algo mais, ou seja, contivesse o próprio Cristo crucificado, não apenas em significação ou figura, mas na própria verdade. E assim este sacramento, que contém o próprio Cristo, aperfeiçoa todos os outros sacramentos, nos quais se encontra apenas uma participação da virtude de Cristo, como diz Dionísio (Eccl. Hier. iii).

«Em segundo lugar, é conveniente ao amor de Cristo, pelo qual Ele assumiu um corpo verdadeiro e a nossa natureza, para nossa salvação. Porque é uma marca especial da amizade viver junto com os amigos, como diz o Filósofo (Ethic. ix). Ele prometeu-nos a Sua presença corporal como recompensa dizendo “Onde está o cadáver aí se reúnem também os abutres” (Mt 24, 28). Entretanto, Ele não nos privou da sua presença corporal durante o tempo da nossa peregrinação mas une-nos a Si na verdade do Seu corpo e sangue. Por isso diz “Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue permanece em Mim e Eu nele” (Jo 6, 57). Por isto, este sacramento é o símbolo da suprema caridade e o conforto da nossa esperança, pois opera uma tão íntima união entre Cristo e nós.

«Em terceiro lugar, esta presença real pertence à perfeição da fé, que deve ser tão firme no que toca à humanidade de Cristo quanto à sua divindade, como é dito “Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim” (Jo 14 ,1). Como a fé se refere a coisas invisíveis, tal como Cristo nos apresenta invisivelmente a sua divindade, também neste sacramento Ele nos mostra a Sua carne de forma invisível.

«Alguns, desprezando estas considerações, professaram que o corpo e sangue de Cristo não se encontram neste sacramento a não ser como num símbolo. Isto deve ser rejeitado como herético, pois é contrário às palavras de Cristo. É por isso que Berengário, iniciador desta heresia, foi depois forçado a repudiá-lo e a confessar a verdadeira fé.» (ST III 75, 1)

187- Transubstanciação eucarística

Feita a conversão do pão no corpo de Cristo ou do vinho no sangue, os acidentes de ambos permanecem. Por isto é evidente que as dimensões do pão ou do vinho não são convertidas nas dimensões do corpo de Cristo, mas a substância na substância. Assim, a substância do corpo ou do sangue de Cristo está neste sacramento pela força do sacramento, mas não as dimensões do corpo ou do sangue de Cristo. Pelo que é evidente que o corpo de Cristo está neste sacramento pelo modo da substância e não pelo modo da quantidade. A totalidade própria da substância está contida indiferentemente nas pequenas e nas grandes quantidades. Assim toda a substância do ar está numa grande ou pequena porção de ar e toda a natureza humana está num homem grande ou pequeno. Pelo que toda a substância do corpo e do sangue de Cristo está contida neste sacramento depois da consagração, tal como antes se continha ali a substância do pão e do vinho.» (ST III 76, 1, 3)

191- Meditação sobre o Corpo de Deus

«Os imensos benefícios que a liberalidade divina concedeu ao povo cristão conferem-lhe uma dignidade inestimável. Não existe nem existiu, com efeito, uma nação grande que tivesse deuses que se aproximassem tanto quanto o nosso Deus se aproxima de nós (cf. Dt 4, 7). O Filho único de Deus querendo tornar-nos participantes da Sua divindade, tomou a nossa natureza e fez-Se homem para fazer de nós deuses. E além disso, tudo aquilo que tomou da nossa natureza, tudo Ele nos conferiu para nossa salvação, pois é para nossa reconciliação que Ele ofereceu a Deus Pai o Seu corpo como hóstia sobre o altar da cruz. Ele derramou o Seu sangue quer como preço da nossa salvação, quer como banho salutar, afim de que, resgatados da triste servidão a que estávamos reduzido, fôssemos de todos os nossos pecados» (Ofício do Corpo de Deus, Nocturno I, Leitura 1)

«Para que de tantos benefícios permanecesse entre nós a memória, Ele deixou o Seu corpo e sangue aos fiéis para que eles O tomassem como alimento e como bebida sob a aparência do pão e do vinho. Oh precioso e admirável festim, salutar e cheio de toda a espécie de suavidade! Que pode, de facto, haver de mais precioso que este festim, no qual se propõe tomar, não a carne de bois e cordeiros como antes sob a Lei, mas de nos alimentarmos de Jesus Cristo, Deus verdadeiro? Que há de mais maravilhoso que este sacramento? Neste sacramento, com efeito, a substância do pão e do vinho mudam-se substancialmente no corpo e sangue de Jesus Cristo. Por isso é Cristo, Deus e homem perfeito, que sob a forma do pão e do vinho está contido.» (Ofício do Corpo de Deus, Nocturno I, Leitura 2)

«Por isso os fiéis O comem mas não o despedaçam. Ele permanece o mesmo, todo íntegro depois da divisão deste sacramento sob cada partícula que provém desta divisão. Os acidentes, sem o sujeito, subsistem no mesmo, para exercer a fé. Quando o visível é tomado pelo invisível, escondido sob uma aparência estranha, os sentidos, que apenas julgam os acidentes pelo exterior, não são enganados. Não há sacramento mais salutar que este, para purificar dos pecados, para dar novas forças e encher o espírito da abundância de todos os dons espirituais. Oferecêmo-lo na Igreja pelos vivos e pelos mortos, afim de que ele sirva a todos, tendo sido instituído para salvação de todos.» (Ofício do Corpo de Deus, Nocturno I, Leitura 3)

«A suavidade deste sacramento ninguém a pode exprimir. Por ele provamos, na sua própria fonte, a doçura espiritual, e lembramos aquela que Cristo, no momento da Sua Paixão, nos deu a conhecer pela caridade infinitamente perfeita. É por isso que, para gravar mais profundamente nos corações dos fiéis a imensidade dessa caridade, na ceia suprema, depois de ter celebrado a Páscoa com os discípulos, devendo deixar a Terra para voltar para Seu Pai, Ele instituiu este sacramento como o memorial perene da Sua Paixão, como plenitude das antigas imagens, como o maior dos milagres operados por Si, e como consolo da sua triste ausência» (Ofício do Corpo de Deus, Nocturno II, Leitura 4)

198- Eucaristia fim dos sacramentos

«Todos os outros sacramentos estão ordenados para este [a Eucaristia], como para o seu fim» (ST III 65, 3)

199- Eucaristia e sacramentos

«A diferença entre a Eucaristia e os outros sacramentos que têm matéria sensível, é que a Eucaristia contém algo sagrado em termos absolutos – o próprio Cristo–, enquanto a água do Baptismo contém algo sagrado em ordem a outra coisa, a virtude de santificação. O mesmo se passa com o óleo do Crisma e os demais. Por isso na Eucaristia se realiza na consagração da matéria, enquanto os outros sacramentos na sua aplicação da matéria à pessoa que santificam.

«E por isso há ainda outra diferença. Na Eucaristia, aquilo que é a realidade e o sinal são a própria matéria. E aquilo que é realidade apenas, a graça que é concedida, está naquele que a recebe. No Baptismo, as duas coisas estão em quem as recebe, o carácter, que é realidade e sinal, e a graça da remissão dos pecados, que é apenas realidade. E assim é nos outros sacramentos» (ST III 73, 1, 3)

218- Consagração de padre pecador

«Pode um padre pecador consagrar a Eucaristia?»

«Já dissemos que o padre não consagra este sacramento pela sua virtude própria , mas como ministro de Cristo de Quem ele toma o lugar quando ele consagra este sacramento. Ora não se deixa de ser ministro de Cristo pelo facto de se ser mau. Porque o Senhor tem bons ministros ou servidores, e maus. Assim diz em S. Mateus (24, 25) “Quem é, na vossa opinião, o servo fiel e prudente”, e mais adiante acrescenta: “Se o mau servidor diz no seu coração, ...”. (...) Pode-se pois ser ministro de Cristo, mesmo sem ser justo. E isso pertence à excelência de Cristo que, como verdadeiro Deus, tem por servidores não apenas os bens, mas também os males que estão ordenados à sua glória pela sua providência. É pois evidente que os padres, mesmo se não são justos mas pecadores, podem consagrar a Eucaristia» (ST III 82, 5).