79- Tratamento de inféis

«Entre os infiéis há alguns que nunca receberam a fé, tal como os pagãos e os judeus. Estes de forma nenhuma devem ser forçados à fé, para que acreditem, porque acreditar depende da vontade. No entanto eles podem ser forçados pelos fiéis, se isso for possível, de forma a que não ataquem a fé, pelas suas blasfémias ou pelas suas más persuasões, ou até pelas suas perseguições abertas. É por esta razão que os fiéis de Cristo com frequência fazem guerra aos infiéis, não com o propósito de os forçar a acreditar, porque mesmo que os conquistassem ou os fizessem prisioneiros, eles ainda seriam livres de acreditar se quisessem, mas para os impedir de atacar a fé de Cristo.

«Por outro lado, há os infiéis que em certo tempo aceitaram a fé, e a professaram, tal como os heréticos e todos os apóstatas. Esses podem ser submetidos até à compulsão física, para que cumpram aquilo que prometerem, e manter aquilo que, em tempos, receberam.» (ST II-II 10, 8)

81- Tratamento de hereges

«Nos hereges há que considerar dois aspectos: um, por parte deles; outro, por parte da Igreja. Por parte deles há na realidade pecado, pelo que mereceram não só a separação da Igreja pela excomunhão, mas também a exclusão do mundo pela morte. Na realidade, é muito mais grave corromper a fé, vida da alma, do que falsificar moeda com que se sustenta a vida temporal. Por isso, se os que falsificam a moeda, ou outro tipo de malfeitores, são justamente entregues, sem mais, à morte pelos príncipes seculares, com maior razão os hereges convictos de heresia poderiam não apenas ser excomungados, mas também entregues com toda a justiça à pena de morte.

«Mas por parte da Igreja está a misericórdia em favor da conversão dos que erram, e por isso não são condenados sem mais, mas de pois de uma primeira e segunda admoestação (Tit 3,10), como ensina o Apóstolo. Mas depois disto, se continua ainda pertinaz, a Igreja, sem esperança já da sua conversão, trata da salvação dos demais, e separa-os de si por sentença de excomunhão. E ainda vai mais longe entregando-os ao juízo secular para seu extermínio do mundo com a morte. A este propósito afirma S. Jerónimo e se lê no Decreto: “Há que amputar as carnes podre, e à ovelha sarnenta há que separá-la do aprisco, para que não arda toda a casa, toda a massa se corrompa, a carne apodreça e o gado se perca. Arius, em Alexandria, foi só uma faúlha, uma chispa. Mas, por não ser sufocada no momento, todo o mundo se viu arrasado com a sua chama”.» (ST II-II 11, 3)

155- Heresias e doutores

«Com efeito os antigos doutores e os santos, ao perseguirem um erro perigoso, argumentaram de tal forma que pareceram cair no erro contrário. Assim S. Agostinho falando contra os Maniqueus, que destruíam o livre-arbítrio, discutiu de tal maneira que pareceu cair no erro de Pelágio.» (Supra Johannem c.1, lectio 7)

179- Razões da perseguição

«Pode-se atribuir o ódio que o mundo tem aos santos a uma razão tripla.

«A primeira é a diversidade de condições, pois enquanto o mundo está na morte, os santos estão no estado de vida. Diz S. João: “Não vos admireis, irmãos se o mundo vos odeia. Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1Jo 3, 13-14). E também está escrito no livro da Sabedoria: “só o vê-lo [ao justo] nos é insuportável” (Sb 2, 14).

«A segunda razão é o descontentamento da correcção. Os homens santos, quer pelas suas palavras quer pelos seus actos, repreendem o mundo, e por isso o mundo odeia-os. “Eles odeiam aquele que repreende à porta”, diz o profeta Amós (Am 5, 10). E o Senhor afirma: “[o mundo] odeia-me porque dou testemunho de que as suas obras são más” (Jo 7, 7)

«A terceira razão é a emulação na iniquidade, pois os maus invejam os homens justos, ao verem-nos crescer e multiplicarem-se na bondade e santidade, como os egípcios ao verem crescer os filhos de Israel, lhes tiveram ódio e perseguiram-nos (cf. Ex 1, 9 seg.) e no Génesis, os irmãos ao verem que José era mais amado que os outros, odiaram-no (Gn 37, 4).» (Supra Johannem c. 15., lectio 4).