«Como o maior bem do homem é que ele adira com a sua mente a Deus e às coisas divinas. E como é impossível que ele dê atenção completa a coisas diversas, então para que a sua mente possa mais livremente virar-se para Deus, são dados na lei divina conselhos pelos quais os homens são retirados das ocupações da vida presente, tanto quanto isso é possível a alguém que vive nesta Terra. Isto não é necessário para a justificação do homem, de tal forma que sem isso a justificação fosse impossível. Pois a virtude e a justiça não são destruídas se o homem usar as coisas corporais e terrenas de acordo com a regra da razão. Por isso estas advertências da lei divina são chamadas “conselhos” e não “preceitos”, na medida em que o homem é aconselhado a deixar os bens menores pelos maiores. Mas os cuidados do homem, no que toca ao modo geral da vida humana, tratam de três coisas. Primeiro, com a própria pessoa, com o que deve fazer, onde deve viver. Em segundo lugar, com as pessoas que lhe estão unidas, especialmente a seu cônjuge e filhos. Em terceiro lugar, com prover-se daquelas coisas externas de que precisa para sustentar a vida.
«Para eliminar esta preocupação pelas coisas externas, a lei divina dá o conselho da pobreza. Ou seja, que ele renuncie aos bens deste mundo que, na sua solicitude, podem prender a mente com ansiedades. Por isso diz o Senhor (Mt 19, 21) “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e depois vem e segue-me”
«Para remover o cuidado com cônjuge e filhos, é dado ao homem o conselho da virgindade ou continência. Por isso é dito (1Co 7, 25) “No que se refere às pessoas virgens, não tenho nenhum preceito do Senhor, mas dou um conselho”. E para dar a razão deste conselho, ele acrescenta (1Co 7, 32-34) “Quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor, como há-de agradar ao Senhor. Mas aquele que tem esposa cuida das coisas do mundo, como há-de agradar à mulher, e fica dividido”.
«Para remover a preocupação do homem consigo mesmo, é dado o conselho da obediência, pelo qual ele entrega a disposição dos seus próprios actos nas mãos do seu superior. Por isso está escrito (Hb 13, 17) “Sede submissos e obedecei aos que vos guiam, pois eles velam pelas vossas almas, das quais terão de prestar contas”
«E como a mais elevada perfeição da vida humana é que a mente do homem seja ocupada com Deus, e como estes são aparentemente as melhores disposições para essa ocupação, parece que elas correctamente pertencem ao estado de perfeição. Não que elas sejam em si mesmas perfeições, mas porque são disposições para a perfeição que consiste em se ocupar de Deus. Isto é claramente indicado pelas palavras do Senhor ao aconselhar pobreza, quando diz: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e depois vem e segue-me”, como se declarasse que a perfeição consiste em segui-Lo.
«Eles podem também ser descritos como efeitos e sinais da perfeição. Pois quando a mente está fortemente afectada pelo amor e desejo de alguma coisa, o resultado é que pensa menos nas outras coisas. Por isso, quando a mente do homem está cheia de amor e desejo das coisas divinas, aquilo em que consiste a perfeição, o resultado é que ele renuncia a tudo o que possa impedir o seu movimento para Deus, não apenas a preocupação das posses e o amor de cônjuge e filhos, mas também o amor de si mesmo. Isto é significado pelas palavras da Escritura. Porque está escrito “Se alguém desse toda a riqueza de sua casa para comprar o amor, seria ainda tratado com desprezo.” (Ct 8, 7) e “O Reino do Céu é semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola.” (Mt 13, 45-46) e “Tudo quanto para mim era ganho ... considero esterco, a fim de ganhar a Cristo” (Fil 3, 7-8).
«Como estas são, portanto, três disposições para a perfeição e os efeitos e sinais da perfeição, parece que aqueles que delas fazem voto devem ser ditos estar em estado de perfeição.
«Ora a perfeição para a qual estas coisas dispõem o homem, consiste em a mente estar ocupada com Deus. Por isso, aqueles que fazem profissão delas são chamados “religiosos”, como dedicando-se a si mesmos e às suas posses como um sacrifício a Deus. As suas posses pela pobreza, o seu corpo pela continência e a sua vontade pela obediência. Pois a religião consiste no louvor a Deus, como foi dito antes.» (CG III 130) |