200- Maria é a mais próxima de Deus

«A bem-aventurada Virgem Maria obteve uma plenitude de graça suficientemente grande para ser a que está o mais próximo possível do autor da graça» (ST III 27, 5, 1)

201- Maria tem certa dignidade infinita

«A humanidade de Cristo, pelo facto de estar unida à Divindade, a felicidade criada, pelo facto de ser a fruição de Deus, e a Santíssima Virgem, pelo facto de Ela ser a Mãe de Deus, têm todas uma certa dignidade infinita do bem infinito que é Deus. Nesta medida não pode haver nada melhor que eles, tal como não pode haver nada melhor que Deus» (ST I 25, 6, 4)

203- Maria, mãe de Deus

«A Santíssima Virgem é chamada Mãe de Deus, não por ser mãe da divindade, mas porque é mãe, segundo a humanidade, da pessoa que tem a divindade e a humanidade» (ST III 35, 4, 2)

204- Tripla perfeição de Maria

«Em todos os seres de natureza, há primeiro a perfeição de disposição, no sentido que a matéria é perfeitamente disposta a receber a forma. Em segundo lugar, há a perfeição da forma, que é mais poderosa, pois o calor é mais perfeito quando provém da forma do fogo do quando apenas se dispõe a receber a forma do fogo. Em terceiro lugar, há a perfeição do fim. É assim que o fogo manifesta mais perfeitamente as suas qualidades quando chega ao seu lugar próprio. Da mesma forma, na Santíssima Virgem, há uma tripla perfeição da graça. A primeira era como que dispositiva e tornava-A capaz de ser a mãe de Cristo. Foi a perfeição da sua santificação. A sua segunda perfeição de graça veio à santíssima Virgem da presença do Filho de Deus incarnado no seu seio. A terceira perfeição é a do fim, que Ela possui na glória.

«Que a segunda perfeição é mais poderosa que a primeira, e a terceira que a segunda isso é evidente. Primeiro do ponto de vista da libertação do mal; pois primeiro, pela sua santificação, Ela foi libertada do pecado original. Segundo, na concepção do Filho de Deus, Ela foi totalmente limpa da inclinação ao pecado (“fomes”). Terceiro, na sua glorificação Ela foi totalmente libertada também de toda a miséria. Vê-se também do ponto de vista da ordenação ao bem. Pois, primeiro, na sua santificação, Ela recebeu a graça inclinando-A ao bem. Na concepção do Filho de Deus foi consumada n’Ela a graça, confirmando-A no bem. Na sua glorificação foi consumada n’Ela a graça aperfeiçoando-A na fruição de todo o bem» (ST III 27, 5, 2)

205- Maria cheia de graça

«A Santíssima Virgem era superior a todos os Anjos na plenitude da graça e, como indicação disto o Anjo mostrou-lhe reverência dizendo “cheia de graça”. Isto é como se dissesse: “Mostro-te reverência pois tu me excedes na plenitude da graça”.

«A Santíssima Virgem é dita ser cheia de graça de três modos. Primeiro, na sua alma ela é cheia de graça. A graça de Deus é dada para duas finalidades principais, nomeadamente para fazer o bem e evitar o mal. A Santíssima Virgem recebeu pois a graça no mais alto grau, porque ela evitou todo o pecado mais do que qualquer outro Santo depois de Cristo. Por isso se diz “Tu és bela, minha amada, e não há uma mancha em ti” (Ct 4, 7). S. Agostinho diz “Se pudéssemos juntar todos os santos e lhes perguntássemos se eles estavam completamente sem pecado, todos eles, com a excepção da Santíssima Virgem, diriam a uma voz: ‘Se dissermos que não temos pecado seríamos mentirosos e a verdade não estaria em nós’ (1Jo 1, 8). Excluo, porém esta Virgem santa de quem, por causa da honra de Deus, omito toda a menção de pecado” (De natura et gratia, c. xxxvi.)Pois sabemos que a ela foi dada graça para vencer todo o tipo de pecado por Aquele que ela mereceu conceber e dar à luz, e Ele seguramente era todo sem pecado.(...)

«Maria é cheia de graça não apenas na realização do bem, mas também na fuga a todo o mal. Também a Santíssima Virgem era cheia de graça no efeito transbordante da graça pela sua carne e corpo. Pois, se é uma grande coisa nos santos que a abundância da graça santifique as suas almas, a alma da Virgem Santa estava tão cheia de graça que da sua alma a graça se derramava para a sua carne na qual foi concebido o Filho de Deus. Hugo de S. Victor disse disto: “Porque o amor do Espírito Santo inflamou tanto a sua alma, Ele operou uma maravilha na sua carne, pois nela nasceu Deus feito homem”. “Por isso o Santo que irá nascer será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1, 35).

«A plenitude da graça em Maria era tal que os seus efeitos transbordaram sobre todos os homens. É uma grande coisa num santo quando tem graça para conseguir a salvação de muitos; mas é excepcionalmente maravilhoso quando a graça é em tal abundância para ser suficiente para a salvação de todos os homens do mundo, e isto é verdade de Cristo e da Santíssima Virgem. (...) Assim, Maria é cheia de graça, excedendo os anjos nesta plenitude e é muito convenientemente chamada “Maria” que significa “em si mesmo iluminada”. “O Senhor encherá a tua alma com luz” (Is 58, 11). E ela iluminará outros por todo o mundo, pelo que é comparada ao sol e à lua.

«“O SENHOR É CONVOSCO” - A Santíssima Virgem excede os Anjos na sua proximidade com Deus. O anjo Gabriel indicou isto quando disse “O Senhor é convosco”, como se dissesse “Reverencio-te porque estás mais próxima de Deus do que eu, porque o Senhor está contigo”. Por Senhor, ele quer dizer o Pai com o Filho e o Espírito Santo, que não estão com qualquer anjo ou qualquer espírito de forma semelhante. “O Santo que nascerá de ti será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1, 35). O Deus Filho estava no seu seio “Exulta e grita de alegria, habitante de Sião, porque é grande meio de ti o Santo de Israel !” (Is 12, 6)

«O Senhor não está com o Anjo da mesma forma que com a Virgem Santíssima, pois para ela, Ele é o Filho, e para o Anjo, Ele é o Senhor. O Senhor Espírito Santo, está nela como num templo, e por isso é dito: “O templo do Senhor, o santuário do Espírito Santo” (Antífona do Ofício menor da Santíssima Virgem) porque ela concebeu pelo Espírito Santo. “O Espírito Santo virá sobre ti” (Lc 1, 35). A Virgem Santíssima está mais perto de Deus do que o Anjo, porque com ela está o Senhor o Pai, Senhor o Filho e Senhor o Espírito Santo, numa palavra a Santíssima Trindade. Na verdade, dela cantamos “Nobre repouso do Deus Trino” (“Totius Trinitatis nobile Triclinium.”) “O Senhor é convosco” são as palavras mais elogiosas que o Anjo poderia ter pronunciado. E por isso ele tão profundamente reverenciou a Santíssima Virgem porque ela é a Mãe do Senhor e Nossa Senhora. Por isso é muito convenientemente chamada “Maria” que na língua síria significa “Senhora”.

«“BENDITA SOIS VÓS ENTRE AS MULHERES” - A Virgem Santíssima excede os anjos em pureza. Ela é não só pura, mas obtém pureza para os outros. Ela é a própria pureza, sem nenhuma culpa do pecado, pois nunca incorreu em nenhum pecado mortal ou venial (...). Porque a Santíssima Virgem foi imune a estas penas, ela é “bendita entre as mulheres”. Além disso, apenas ela escapou à maldição do pecado, trouxe a Fonte da benção e abriu a porta do céu. Por isso é muito adequado que o seu nome seja “Maria”, que é próximo de Estrela do Mar (Maria - maris stella), pois tal como os marinheiros são dirigidos ao porto pela estrela do mar, também os cristãos são guiados por Maria para a glória.»(Collationes super Ave Maria)

206- Oração de Maria

«É preciso que o homem medite de uma forma atenta. Diz o salmo 19(18), 23: “O meu coração medita sempre sob o teu olhar. Nós temos um exemplo na bem-aventurada Virgem, “que guardava todas estas palavras no seu coração” (Lc 2, 51). Na explicação desta passagem, um certo grego diz uma palavra bastante notável: “Observa Maria, essa mulher muito prudente; sendo ela a mãe da verdadeira sabedoria, põe-se a aprender com uma criança. E dá-lhe atenção, não como a uma criança, nem como a um homem, mas como a Deus. Como ela O tinha concebido no seu seio, ela concebeu todos os Seus gestos e todas as Suas palavras no seu coração” Vede: há três coisas na meditação da bem-aventurada Virgem Maria. Primeiro, ela é fecunda. Qual é o fruto da meditação? Digo que a meditação é a chave de uma memória que pode ler e escutar muitas coisas, mais só as pode reter se as medita. Sl 119(118), 99: “Compreendi mais o que me ensinavam, porque os testemunhos eram objecto da minha meditação”. Com efeito, como a comida só me alimenta se for antes mastigada, também não poderás progredir na ciência senão mastigando o que escutas pela meditação frequente.

«Também a meditação da bem-aventurada Virgem Maria foi total, porque ela “guardava todas as coisas”. O homem também deve meditar tudo o que ouve.

«A meditação da bem-aventurada Virgem Maria foi também profunda. Alguns querem meditar apenas de maneira superficial. Se não podes meditar tudo de uma vez, medita outras vez. “Maria guardava fielmente todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc 2, 51). Sl 77(76), 7: “Meditei de noite no meu coração, não tive repouso e examinava o meu espírito”»(Sermão Puer Jesus part.2)