1-A suma é para noviços

«Como o doutor da verdade católica não deve apenas ensinar os avançados, mas também instruir os principiantes, como diz o Apóstolo: «como a criancinhas em Cristo, foi leite que vos dei a beber e não alimento sólido.» (1Co 3, 1-2), o nosso propósito nesta obra é tratar aquilo que pertence à religião cristã de forma adequada à instrução dos principiantes. Consideramos que os noviços nesta doutrina encontraram não poucas vezes obstáculos naquilo que outros escrevem, em parte pela multiplicação de inúteis questões, artigos e argumentos; em parte também porque aquelas coisas que é necessário saber não são ensinadas de acordo com a ordem da disciplina, mas segundo o que requer a exposição dos livros ou a oportunidade da polémica; e em parte ainda porque a sua frequente repetição causa cansaço e confusão na mente dos leitores. Atentos para evitar estas e outras falhas, tentaremos, com confiança no auxílio divino, apresentar o que se refere à doutrina sagrada, tão breve e claramente quanto a matéria o permite.» (ST Prólogo)

11- Ordem da Suma

«O objecto principal da doutrina sagrada é levar ao conhecimento de Deus, não só como Ele é em si mesmo, mas também enquanto Ele é o princípio das coisas e o seu fim último, em especial da criatura racional, como é claro do que já foi exposto. Assim , como é nossa intenção expor esta doutrina, trataremos (1) de Deus; (2) do caminho da criatura racional para Deus; (3) de Cristo que, enquanto homem, é o nosso caminho para Deus» (ST I 2, prólogo)

12- Doutrina sagrada

«Na doutrina sagrada tratamos de tudo” sob a razão de Deus”, ou do ponto de vista de Deus, seja que o objecto de estudo é o próprio Deus, seja que ele tenha relação com Deus como seu princípio ou como seu fim» (ST I 1, 7)

30- Lema de S. Tomás

«Devo a principal ocupação da minha vida a Deus, para que todas as minhas palavras e todos os pensamentos falem d’Ele» (ego hoc vel praecipuum vitae meae officium debere me deo conscius sum, ut eum omnis sermo meus et sensus loquatur. CG I 2)

39- Dupla verdade

«Mas ainda mais grave é o que é dito em seguida: “Pela razão concluo necessariamente que o intelecto é numericamente um, mas defendo firmemente o contrário pela fé”. Ele [Siger] pensa pois que a fé trata de afirmações das quais podemos concluir o contrário necessariamente. Ora, como toda a necessidade só pode ser concluída a partir do verdadeiro necessário, segue-se, segundo o seu próprio dito, que a fé trata do falso impossível, hipótese que Deus não poderia realizar e o ouvido de um fiel não consegue suportar.

«É igualmente sinal de uma enorme temeridade que ele dispute teses que não relevam da Filosofia, mas da pura fé, como por exemplo que a alma sofre do fogo no inferno, e que diga que é preciso neste ponto condenar as doutrina dos Padres. Com o mesmo raciocínio ele poderia, com efeito, disputar contra a Trindade, a Incarnação e outras teorias semelhantes, de que não podemos falar senão a balbuciar.» (De unitate intellectus contra Averroistas, c. 5, par. 119)

40- Valor da sabedoria

«De todos os esforços humanos, o estudo da verdade é o mais perfeito, o mais sublime, o mais proveitoso e o mais deleitoso. É o mais perfeito porque na medida em que um homem se dedica à busca da sabedoria, tanto mais ele participa na verdadeira felicidade. Por isso diz o homem sábio (Eccl 14, 20) “Bem-aventurado o homem que se aplica à sabedoria”. È o mais sublime porque por ele o homem se aproxima especialmente de uma semelhança com Deus, que fez todas as coisas em sabedoria (cf. S.l. 104(103) 24). Como a semelhança é a causa do amor, a busca da sabedoria une especialmente o homem a Deus pela amizade. Por isso está escrito que a sabedoria é um tesouro inexaurível para os homens (cf. Sab 7, 14), porque os que a usam tornam-se amigos de Deus. É o mais proveitoso, porque pela própria sabedoria o homem é levado para o reino da imortalidade, pois o desejo da sabedoria leva ao reino eterno (Sab 6, 21). E é o mais deleitoso porque a “sua conversação não causa dissabores, nem a sua convivência desgosto, mas regozijo e alegria” (Sab. 8, 16)

«Por isso, tomando alento da bondade amorosa de Deus para assumir o ofício de homem sábio, embora ultrapasse as próprias capacidades, o fim que temos em vista, no nosso modo fraco, é declarar a verdade que a Fé Católica professa, enquanto se refutam os erros contrários (CG I 2)

85- Teologia e ciências

«A doutrina sagrada pode utilizar resultados das ciências filosóficas, não que elas lhe sejam necessárias, mas unicamente para manifestar melhor o que o ensina. Os seus princípios, com efeito, não lhe vêm de nenhuma outra ciência, mas de Deus directamente por revelação. De onde se deduz que ela não usa as outras ciências como se elas lhe fossem superiores, mas pelo contrário, como inferiores e servas. Assim se passa com as ciências ditas arquitectónicas, que utilizam as inferiores, como a faz a Política com a Arte Militar» (ST I 1, 5, 2)